Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 26-05-2008

SECÇÃO: Opinião

HISTÓRIAS DE ÁFRICA ( 8)

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Depois de ter cumprido quinze meses de serviço militar em Lourenço Marques, regressei a Vila de Manica onde me integrei novamente no ambiente que por lá se vivia e penso que vinha um pouco mais desinibido.
Entretanto conheci um rapaz de nome Mário Ccteriano que tocava piano bastante bem e rapidamente nos tornamos bons amigos. Comecei a cantarolar umas coisas sempre acompanhado pelo Mário. O Clube de Manica era sempre o nosso palco de actuação.
Até que um dia começou a ser publicitado um concurso para cançonetistas amadores chamado “A hora do Caloiro”, instigado pela malta da República do Espreita o Furo lá me inscrevi muito a contrafeito, tratava-se de apurar o representante do Concelho e não me foi difícil sair vencedor. Para continuar teria que ir à cidade da Beira disputar o vencedor do Distrito.
Novamente apoiado pela malta da pesada lá fui até à Beira muito tímido e sem esperança de nada. Logo que lá cheguei fui apresentado a um bom pianista e com ele ensaiei a bonita canção Maria da Paz de Tristão da Silva e que ao tempo estava muito em voga. Mas houve logo alguém que antecipando um vencedor me disse de caras que eu não ia lá fazer nada porquanto havia na Beira um rokeiro que era o menino bonito lá do sítio e era ele certamente quem ia ganhar. Não liguei puto aquilo que me disse esse profeta e continuei a manter a minha humildade.
" O Mar" de Miguel Torga
" O Mar" de Miguel Torga
Era o distante dia 5 de Outubro de 1958 e os concorrentes eram nove. Quando fui chamado ao palco vi o cinema Nacional repleto e cinco microfones à minha frente. Indiferente cantei o melhor que pude e sabia. A votação era feita pelo público e quando o apresentador anuncia que era eu o vencedor confesso que senti as pernas a tremer como varas verdes por falta de experiência e lá repeti a canção segundo a praxe.
Foi-me atribuído como prémio um bom rádio Philco com gira-discos. De regresso a Manica tive uma óptima recepção encabeçada pelo Administrador do Concelho e o gira discos passou a ter grande utilidade nas tardes dançantes que a malta fazia no Clube aos Domingos.
Seguiu-se depois a grande final para apurar o vencedor entre os nove Distritos e também realizada na Beira no Pavilhão da Mocidade Portuguesa. Saiu vencedora uma menina de Tete, em segundo um pretinho de Lourenço Marques, em terceiro uma moça de Nampula e eu representante da Beira fiquei em quarto o que não foi nada mau.
Mais tarde voltei a ser finalista no concurso “Rouxinóis de Moçambique” mas como a final era em Lourenço Marques não pude estar presente porque os meus chefes não autorizaram a minha deslocação à Capital.
Uma actuação
Uma actuação
Mas como tudo tem um princípio depois disso passei a ter muitas actuações na Beira, em Gondola, Textáfrica, Manica, Machipanda, Umtail etc.
Em Manica quando por lá passavam embaixadas artísticas normalmente eu era convidado a actuar como complemento e foi assim que conheci grandes artistas desse tempo, como o grande Luís Piçarra, o tenor Raul Proençe e soprano Maria Adalgiza, Maria de Fátima Bravo, Alda Mota e tantos outros. Tive ainda a honra de ter sido um dia acompanhado à guitarra pelo famoso Chico Cruz que foi o primeiro marido de Amália Rodrigues. Paralelamente tinha outras actividades como sendo o teatro e o futebol de salão.
No Teatro Experimental de Manica, representamos várias peças de grandes autores como: Miguel Torga, Alfonso Sastre, Bernardo Santareno, Alves Redol, Camilo Castelo Branco e outros autores…
Até que finalmente abriu concurso para capataz de via de 2ª classe, concorri e apanhei vaga e se bem me recordo quem presidia ao júri era o Eng.º Coimbra Mano que curiosamente e ao que constava era o pai dos filhos da popular Simone de Oliveira e que ela própria à pouco tempo confirmou num entrevista televisiva. Como o mundo é pequeno muitos anos depois reconheci-o num café do Porto e obviamente falamos sobre o passado em Moçambique.
Logo que tomei posse como capataz de via, logo apanhei partido, assim se chamava a área de trabalho e que rondava os 20 kms, de via férrea. Com a nova situação já tinha direito a uma boa casa, água e luz (quando havia) e até um serviçal. Obviamente que só me faltava mulher.
Foi num baile de passagem de ano 1960/1961 que vi uma rapariga recentemente chegada da Matrópole, pedi-lhe para dançar e noite dentro quando o baile acabou ficou o compromisso de um namoro assumido… casamos seis meses depois na Missão Jécua. Alcina é o seu nome e já lá vão quarenta e sete anos que juntamos os trapinhos.



Por: Alexandre Teixeira

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