Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 26-05-2008

SECÇÃO: Opinião

Ortodoxias ideológicas

(continuação)

Por isso retorno ao juízo ideológico da Dr.ª Odete Santos. O Materialismo Histórico, a luta de classes como o Graal interpretativo das relações sociais e o proletariado como última encarnação do devir histórico, constituem a palavra passe que tudo resolve e aquieta. A organização social dos Bosquímanos do deserto do Kalahari, os gangs juvenis do Bronx, Romeu e Julieta de Shakespeare, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen, o vitral de uma catedral gótica, um recôndito talibã em oração ou uma declaração amorosa por sms, tudo encaixa na perfeição.
Felizmente ou infelizmente, pois depende dos pontos de vista, não parece ser assim. O conhecimento científico, e não só, trouxe novas abordagens sobre a natureza dos seres e das coisas que habitam o nosso espaço e o nosso tempo. A Psicanálise, a Sociologia, as Ciências da Cognição, a Biologia e a Genética renovaram perspectivas e horizontes. A teia que tece a realidade é deveras complexa. Pessoalmente aprendi-o, talvez com um pouco de sorte, reconheço-o, com algumas leituras, por exemplo de Edgar Morin, nomeadamente a sua obra magna O Método, e descobri, provavelmente com pouco êxito, a policromia da realidade que rodeia a nossa aparição neste planeta azul e que são necessárias múltiplas e infindáveis vias para aceder a um conhecimento aproximado do acontecer humano. Penso que só com esta precaução metodológica se pode iniciar o caminho da busca de soluções, ainda que em simultâneo não transigindo com todos os actos que contribuem para a minoração ou eliminação dos direitos fundamentais do ser humano.
As respostas não são fáceis, a história da humanidade espelha bem os sucessos e insucessos desta diáspora e o Inferno, como se sabe, está cheio de boas intenções e arroubos místicos ou até revolucionários que conduziram ao extermínio de povos e civilizações.
Sob este ponto de vista, os vários ismos não se travestiram a tempo. É claro que os dogmas confortam, na religião e na política. É curioso, aliás, que os mecanismos de legitimação sejam muito similares e já há muito tempo perfeitamente referenciados e estudados. Não lhes ocorre, aos sumo-sacerdotes, que um dogma não é a consequência de uma inevitabilidade, de uma infalibilidade ou de uma fatalidade. Os dogmas católicos da Imaculada Conceição ou da Ressurreição são apenas o resultado da perplexidade e (in)compreensão humanas, de perspectivas que se impuseram em contextos que estavam para lá do estrito elemento religioso. Outros ideários pereceram no campo de batalha, excomungados ou heretizados. Mas a história poderia ter sido outra. Na política, ainda que humanamente bem-intencionada, e não nego esta evidência a muitos, incluindo aqueles que lutaram contra ditaduras execráveis de todos os matizes, a dogmática fere com a mesma intensidade. E evocam-se os líderes imortais, veneram-se os seus relicários, mesmo nas suas versões pop, esquecendo-se aqueles que foram vencidos e varridos pelos ventos hostis da História. O mundo para estes é a preto e a branco. As FARC da Colômbia são revolucionárias, heroicamente revolucionárias; Ingrid Bettencourt é uma decadente burguesa, refém da sua própria temeridade; o Dalai Lama, um incontornável contra-revolucionário que usa a limpidez dos gestos e das palavras para sustentar o direito à alteridade e o Império Soviético é efectivamente uma saudade. Sem embargo, nada me impede de dizer que na maior parte da América Latina as democracias apoiadas pelo Ocidente não passam de simulacros; que a pax americana no Iraque é uma absurdidade trágica, que o embargo norte-americano a Cuba é um anacronismo e que a Economia de Mercado não é a resposta milagrosa que remirá a humanidade, derradeira panaceia e fim último da História.
Alguns dirão que se trata de folclore pós-moderno. Não é essa a minha convicção. Em todo o caso são estes os sinais que ocupam os nossos ideários mais íntimos, que habitam os nossos compromissos políticos e as nossas mútuas incompreensões.

Domingos Machado


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