Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 26-05-2008

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

(continuação-31)
- Muito obrigado, Senhor Augusto, na próxima semana, quando vier no sábado à tarde, espero que me traga uma boa notícia.
Despediram-se, esta conversa ocorreu numa tarde de domingo, já escurecia, e estava-se no mês de Janeiro de 1951. Apesar de a segunda grande guerra já ter terminado, havia meia dúzia de anos, ainda se explorava volfrâmio em razoável escala. O mundo ainda não tinha qualquer certeza quanto ao futuro e aquele mineral pesado, que era utilizado no fabrico de armas e munições, ainda tinha grande procura. Nas minas da Borralha continuavam a trabalhar cerca de cinco centenas de homens.
No sábado seguinte, quando eram cerca das dez horas da noite, o Senhor Augusto bateu à porta do casebre do Manuel Carlos. Este abriu:
- Oh!... Faça favor de entrar, Senhor Augusto… Traz boas notícias? Espero!...
- Sim, meu bom amigo, trago boas notícias, mas não penses que as coisas estão fáceis, a direcção das minas está a pensar abrandar o ritmo da exploração, parece que a procura está a baixar, o pessoal que é admitido é apenas aquele que se destina a substituir um ou outro que se vai embora. No nosso caso, a coisa acabou por correr de feição, uma vez que esta semana se foi embora um rapaz, que é da Corva, e foi chamado para a Venezuela, por um tio, que emigrou para lá há cinco anos. Prepara uma manta, ou duas, se as tiveres, e meia broa de pão que, na próxima segunda-feira, às duas da madrugada, arrancamos, os dois, com destino à Borralha, pois que, temos que estar, à porta da mina, às sete e meia da manhã.
- Muito obrigado Senhor Augusto, não sei como lhe hei-de agradecer…
- Não tens que agradecer coisa nenhuma, prepara-te que na segunda, às duas da madrugada, passo por aqui para que vamos os dois. Boa noite, até amanhã…
A distância entre a Cruz do Muro e as Minas da Borralha era de cerca de vinte quilómetros. O percurso era feito por caminhos e carreiros de montanha, dali descia-se à Ponte Nova, depois pelo Batoco, pelo Marco, à Lomba, em Abadim, passava-se a casa do Carrazedo, a seguir os Marmoirais, a serra do Oural, os Moinhos do Rei, a fonte da Grila, onde toda a gente se sentava um bocado, e bebia água fresca, que caía duma bica de pedra, havia ali também uma carvalha, que fazia sombra, quando estava de sol.
O Manuel Carlos, pese o facto de ser mais novo do que o Senhor Augusto Borda d’Água apenas dois anos, tratava-o por você. Quando chegaram à Fonte da Grila eram quatro da manhã, tinham andado exactamente duas horas, a distância percorrida devia ser de dez quilómetros, estavam a meio do caminho que os separava das Minas da Borralha. Sentaram-se, cada um em cima de sua pedra, e comeram uma fatia de pão, que cortaram da meia broa que cada um levava. O Senhor Augusto levava também meia dúzia de bolinhos de bacalhau, que a mulher, a Dona Alice, lhe tinha preparado na noite anterior. Comeu um e deu outro ao Manuel Carlos. No fim beberam, cada um, a sua tarraçada de água, directamente da bica da fonte.
Seguiram viagem, o descanso durara cerca de quinze minutos, a lua tinha acabado de se esconder por detrás de serra de Ervideiro. Um pouco mais acima passava-se a Pegada da Mula, uma marca da pata de um muar gravada numa laje da calçada, mais o espaço de cerca de um quilómetro até aos Marcos do Touro, já em plenos montes de Maçã, dali à capela da Senhora dos Aflitos, e depois até à Borralha, que ainda era um grande esticão.
Durante o percurso, e quando eram cerca de quatro e meia, passavam no caminho escuro que segue quase no fundo da encosta da Serra das Torrinheiras e ao lado das paredes que fazem a vedação dos lameiros das Trancadas, o Manuel Carlos sentiu o cabelo a levantar-se-lhe um pouco e as orelhas a ficarem frias. Pelo sim pelo não, resolveu encetar algumas palavras:
- Por aqui é capaz de haver lobos…Senhor Augusto…
- Dizem que sim. Eu nunca vi nenhum. Mas mesmo que esteja por aí algum, não consta que alguma vez tenham atacado pessoas…
- Quer saber Senhor Augusto, eu não sou nenhum medricas, e quando tinha sete e oito anos guardava gado nos montes de Cerva em plena serra do Alvão, em dias de forte chuva e nevoeiro, e também nunca por lá vi nenhum. Mas, a verdade é que há bocadinho senti o cabelo a levantar-se, e as orelhas e ficarem frias…
- Como já te disse, aqui é mesmo sítio de lobos, é muito frequente atacarem uma ou outra ovelha, ou cabra, aí dos rebanhos de Porto d’Olho e das Torrinheiras, que pastam nestas encostas. Seja como for, e porque está mesmo muito escuro e ainda podemos tropeçar para aí em alguma pedra, ou buraco do caminho, vou acender o meu gasómetro, pelo menos estes quinhentos metros daqui até aos Marcos de Maçã, a partir dali é mais plano e há mais claridade, até porque começa a romper a manhã. E, também, se estiver para aí algum animal escondido atrás das giestas, eles têm medo da luz e afastam-se de nós, de noite todos os “lobos” são pardos, como se diz dos gatos, não é verdade?
- É sim senhor, de noite todos os gatos, todos os cães, e até todos os lobos são pardos…
Riram-se os dois, e já estavam mesmo a chegar aos limites da freguesia de Salto, do concelho de Montalegre, do distrito de Vila Real e da província de Trás-os-Montes e Alto Douro. O Senhor Augusto deu esta exacta e pormenorizada explicação ao Manuel Carlos, e este concordou plenamente.
FIM

Por: Torcato Santiago

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