Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 05-05-2008

SECÇÃO: Opinião

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VANTAGENS COMPARATIVAS (86)
NOVAS OPORTUNIDADES

Será que alguém se lembra das oportunidades que havia há cinco ou quatro décadas atrás?
É óptimo que haja boas oportunidades para todos, disso penso que ninguém terá qualquer sombra de dúvidas. Há os saudosistas, sempre os houve e sempre os haverá. São saudosistas, a maior parte das vezes, sem se saber bem de quê. Não é desses, nem das oportunidades a que eventualmente poderão referir-se, que aqui vou falar.
Eu falo das oportunidades concretas e da forma como as mesmas são oferecidas, a todos e a cada um, nos dias de hoje, no ano de 2008. Os princípios em que assenta toda a teoria são os melhores, e as normas são gerais e abstractas, como se impõe, em termos de leis e sua aplicação.
Em minha opinião existe um gravíssimo problema, com gravíssimas consequências, que respeita e decorre da aplicação, no concreto, de todo o conjunto de possibilidades, facilidades, benefícios e “facilitismos” que integram o programa designado por “Novas Oportunidades”.
Há um princípio que me parece fundamental: não se deve dar a ninguém, ou melhor, não se deve forçar ninguém a receber aquilo que ele não quer.
O nosso sistema actual de ensino, e pelo que se ouve sempre e em qualquer sítio que nos cruzemos com um professor, não está nada bem, parece que nunca terá estado tão mal, exactamente porque o poder político pretende que todos os alunos tenham as mesmas “oportunidades”. Impõe-se que todos os alunos tenham a oportunidade de fazer todos os exames, e que, em todos os exames, tirem notas positivas.
Ora, como toda a gente sabe, sempre houve e sempre vai haver alunos que não têm qualquer vocação para estudar, que não têm qualquer interesse em frequentar uma escola, e são, pura e muito simplesmente, o terror dos professores e dos colegas das respectivas turmas. Eles dizem de caras aos professores que não querem aquilo para nada, que não ligam nenhuma ao que eles estão para ali a dizer. Não levam livros para as aulas, não escrevem quaisquer sumários, porque não levam nada onde, nem com que escrevam, o que quer que seja. Não levam livros, não levam cadernos, não levam lápis…
Conheço muitos professores, de todos os graus de ensino, e ainda não encontrei um só que fizesse um simples comentário optimista sobre o sistema. Pelo que me apercebo, os professores são obrigados a dar notas a alunos para que passem de ano sem saberem o mínimo indispensável e, pior ainda, não mostrarem qualquer réstia de interesse em aprender seja lá o que for. Caso contrário o professor é penalizado, porque tem que fazer com que o aluno, que o insulta e lhe oferece pancada, passe a ser um aluno educado, estudioso e, quem sabe, “inteligente”.
Desses professores que eu conheço, alguns vão deixar o ensino prematuramente, com grandes penalizações nas reformas, apenas pela razão de estarem exaustos, não aguentarem o estado das coisas e temerem a qualquer momento serem agredidos, caso que se vai tornando cada vez mais frequente.
Nem de propósito! Exactamente há dois dias, no início da semana em que estou a escrever estas letras, um professor do ensino secundário desabafou comigo o seguinte: discutindo ele, com os alunos de uma turma do nono ano, as cotações de um dado teste que iria ser realizado, nesse teste havia um grupo de seis questões de resposta pelo método de escolha múltipla, cuja cotação total desse grupo de seis questões era de doze pontos percentuais, ou seja, o teste na sua totalidade tinha uma cotação de cem e aquele grupo valia doze.
Lembro, aos mais antigos, que o actual nono ano corresponde ao antigo quinto ano, aquele que fazia parte do programa do curso geral dos liceus nos anos sessenta e setenta do século passado. Naquele tempo, um aluno do quinto ano era capaz de extrair a raiz quadrada de um qualquer número, com cinco, seis, ou mais dígitos, apenas com recurso a uma folha de papel e a um lápis. Por exemplo, a raiz quadrada do número 89.984, que por sinal é o número que consta na minha caderneta militar, era o número que me identificava como elemento do exército português, a raiz quadrada desse número é 299,974 (duzentos e noventa e nove virgula novecentos e setenta e quatro). Garanto, a todos quantos me lêm, que não recorri a qualquer calculadora para obter aquele resultado.
Mas, estava o meu amigo professor a explicar aos seus alunos, do nono ano, os critérios de pontuação do teste, precisamente o tal grupo de seis questões de resposta pelo método de escolha múltipla, quando se levanta um desses alunos e pergunta: «professor qual é a cotação de cada uma das questões?». O meu amigo professor disse-lhe: «tente fazer as contas pelos dedos, ou então de cabeça, o G. B. não é capaz?». O aluno responde: «não, eu não sei fazer contas pelos dedos nem de cabeça…». De seguida, o referido aluno pega na calculadora, que por acaso tinha no bolso de trás das calças, e atira para o professor: «dá dois professor…».
E no que diz respeito ao ensino recorrente? Também ouvi, há duas semanas atrás, o desabafo de um motorista, aqui do nosso burgo, que transporta essa categoria de estudantes. Por razões óbvias não vou aqui referir nem o percurso, nem o motorista, nem nada que tenha a ver com os alunos. No que respeita a nomes, ou outros elementos de identificação não sei, nem de perto nem de longe, nada sobre quem quer que seja. Também não fixei a cara nem o nome do motorista. Ouvi, isso sim, o motorista a lamentar que durante o percurso tivera que parar o mini autocarro por duas vezes, para se deslocar ao meio da malta, a fim de por alguma ordem nos passageiros. Tratava-se de dez ou onze rapazes e uma única rapariga, e a pobre coitada estava quase a ser linchada pelos rapazinhos que, por força das novas oportunidades, andavam por ali, a passar o tempo, a receber o subsídio e a aprender…, muito provavelmente a dividir doze por seis, utilizando uma calculadora de bolso.
Perdoem-me a ousadia, mas não posso deixar de sugerir às autoridades, que gerem esse tipo de programas, que deverão ter muito cuidado com os destinatários das novas oportunidades, e que deverão fazer tudo o que estiver ao seu alcance, em termos de rigor na selecção, com vista a subsidiar apenas aqueles que, na verdade, ofereçam alguma probabilidade de sucesso, e não alimentar parasitas, facto que, no final de contas, se resume em subsidiar e alimentar vícios cada vez piores e mais graves.
Não posso terminar sem advertir que devemos ter sempre muito cuidado com os exageros de apreciação. É evidente que há ainda muitos alunos que merecem o respeito e a admiração dos seus professores, que estudam, que se aplicam, e obtêm notas excepcionais. No ensino recorrente há também muita gente que se esforça e justifica plenamente todo o esforço que a sociedade faz por eles. Mas, o pior de tudo e o que é pena, é que estes casos estão a tornar-se cada vez menos a regra.

Por: José Costa Oliveira

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