Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 05-05-2008

SECÇÃO: Recordar é viver

Manuel Joaquim Pinto, 94 anos

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Um romance à moda antiga

“Ela também dizia:
“- Não sei como nos havemos de corresponder porque eu não tenho papel de carta, nem dinheiro para o comprar porque os meus tios não me dão dinheiro para nada!” Eu, claro, vi aquilo e mandei-lhe uma caixa com papel para cinquenta cartas e uma caneta que naquele tempo ainda não havia esferográficas. Isto já vai há perto de setenta anos! Mandei também um tinteiro de tinta para a caneta. Bem! Começámos a correspondermo-nos. Havia uma portadora que levava e trazia todas as cartas, para não irem pelo correio e chegarem às mãos dos tios. O que é certo é que quando ela ia a Santa Senhorinha, eu ia e escondia-me atrás dum silvado que lá havia, mas donde não via a porta da igreja. E então enquanto esperava fiz um buraco nas silvas para eu mirar a porta da igreja e quando a via sair assobiava uma coisa que ela cantava muitas vezes na igreja. Já tínhamos combinado que quando ouvisse assobiar já sabia que era eu. Ela ouvia o sinal e começava a andar muito depressa para se distanciar da criada que era mandada para as guardar! A criada já tinha para aí setenta anos de maneira que não aguentava o passo delas e ficava para trás com a irmã – a Mirinha. E, era assim que nós falávamos. Era meia hora e pouco mais, uma vez por Mês!”
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Que diferença dos tempos de hoje, não é senhor Pinto?
“Oh, se era! Nesse tempo, em Cabeceiras, as feiras eram ao domingo e fechava-se à segunda-feira. De maneira que nesse dia de folga ia sempre dar uma volta e passava sempre lá perto da casa dela para ter o prazer de a ver. Já sabia que não lhe podia falar mas já ficava contente só de a ver!
Havia uma costureira adiante um bocadinho da casa dela que salvo erro se chamava Marquinhas, era solteira e quando me viu passar lá várias vezes julgava que eu passava lá por causa dela. Ela estava sempre à janela ou sentada numa cadeira à porta a costurar. A ganhar a vida – é claro. Quando me via todas as segundas-feiras a passar constantemente sem eu lhe dizer nada nem pessoalmente nem por escrito ela deve ter pensado: “Ele não deve passar aqui por minha causa mas por causa daquelas meninas”. E foi ter com a D. Belmira e disse-lhe:
“ - Ó senhora D. Belmira o caixeiro do senhor Abílio passa aqui muitas vezes a olhar para as janelas, decerto anda com ideias nas suas sobrinhas”. A tia ouviu aquilo e que é que fez? Mandou-as á vila a um recado falso para ficar à vontade e fazer a busca no quarto. Revistou o quarto e encontrou o papel, caneta e tinteiro, enfim tudo. Quando à tarde o senhor Padre Arnaldo, que quase sempre ia para Santa Senhorinha e à tarde vinha para cima para jantar e dormir, elas ainda não tinham vindo dos “recados”. Chegaram daí por um bocado tendo-se entretanto a irmã do padre virado para ele dizendo-lhe:
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“- Olha lá ó Arnaldo, a Néné namora com o caixeiro do Abílio. Eu conheço-o? Olha está aqui a prova, vês?”.
Então senhor Pinto eles não ficaram muito contentes!
Eles queriam um marido fidalgo e rico para a menina. Ele viu então aquilo tudo. De maneira que quando as duas irmãs chegaram a casa ele ameaçou de mandar a Nené para o Brasil para onde estavam os pais e que não a queria mais em casa dele em Paredes!”
Imagino que a Raquel deve ter ficado de rastos e assustada!
“Pois, naturalmente! No domingo a seguir era o dia de ir à freguesia e eu lá fui como o costume. Quando ela chegou ao pé de mim começou a chorar! Eu perguntei-lhe:
- Tu que tens?
“ - O meu tio já sabe tudo e diz que vai mandar-me para o Brasil”. Ela a chorar atou as mãos na cabeça e disse que não queria ir de maneira nenhuma.”
O que é que o senhor Pinto sentiu quando a viu assim a chorar?
“Estou convencido minha senhora que se lhe dissesse “vais fugir comigo” que ela ia! Ficou tão presa comigo que a senhora não calcula! Eu fiquei abalado mas recompus-me e disse-lhe:
- Tenho uma ideia!
- Qual é? pergunta ela.
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- Vamo-nos fazer de zangados, arranjo uma namorada para passar tempo e falo com ela diante de toda a gente para chegar aos ouvidos dos teus tios a ver se eles acreditam que entre nós já não há nada. Queres assim?
“- Quero mas, não quero forçado!” Se calhar ela pensou – “tu vais ficar com a outra e eu fico de lado”. Eu percebi aquilo e disse-lhe:
- Estás disposta a esperar até que possamos casar? Responde-me ela: “Estou!”
- Então deixa ver a tua mão! E pegamos na mão um do outro e eu disse-lhe:
- Vamos aqui fazer um juramento! Um juramento muito solene para cumprir, não é para brincar! Eu disse:
- Eu juro que não quero outra mulher para minha esposa e ela respondeu-me:
- E eu juro que não quero outro homem para meu marido!
Depois desta promessa e do juramento eterno entre os dois, quanto tempo ainda esteve em Cabeceiras na loja do Abilinho?
“Ainda lá estive um ano sem falarmos, sem escrevermos e sem coisa nenhuma. A primeira namorada que eu arranjei para passar tempo era filha dum senhor Teixeira Reis ou Ribeiro que esteve muitos anos no Brasil. Tinha vários prédios e ele ia todos os dias até à loja conversar connosco. Quando soube que eu andava com a filha ficou todo contente e disse a pessoas que me vieram contar:
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“Se o Pinto casar com a Mariazinha ponho-lhe uma loja como a do patrão. Mas, é claro que aquilo durou pouco tempo. Eu tinha jurado à que foi minha esposa que aquilo durava pouco tempo. Passados uns dias recebo uma carta de Guimarães da Firma Alberto Pimenta Machado que era um senhor rico e era comendador e que tinha uma casa de comércio que era mais do dobro daquela donde estava! Tinha nove empregados e tinha um armazém grande para servir os clientes (comerciantes), duas fábricas, etc.
Senhor Pinto este senhor Comendador tem a ver com este Pimenta Machado que esteve no futebol de Guimarães, que está a contas com a justiça?
Era tio desse do futebol. O que é certo que recebi uma carta a oferecer-me um lugar de gerente na casa de retalho do Pimenta Machado em Guimarães. Eu em Cabeceiras naquele tempo ganhava duzentos e cinquenta escudos por mês e comia e dormia em casa do patrão e em Guimarães ofereceram-me logo mil escudos de entrada. Eu fui ter com o senhor Abílio e disse-lhe:
- Ó senhor Abílio eu não queria sair daqui mas recebi esta carta e mostrei-lha. Ele viu-a e disse-me para não ir que me dava o mesmo.
Respondi para Guimarães que o meu patrão me dava o mesmo e então já não ia para Guimarães. Os senhores de Guimarães tornaram a aumentar a oferta para um conto e duzentos escudos. Mesmo assim respondi que não ia porque o patrão continuava a subir o meu salário.
Como o senhor Abílio continuava a subir o salário a empresa de Guimarães viu que eu devia ser um bom funcionário para me não deixar sair de lá.
Mas os de Guimarães não se dando por vencidos ofereceram um conto e quinhentos escudos por mês e dez por cento por mês nos lucros da loja. Mostrei a carta ao senhor Abílio que estava na loja sentado numa cadeira e ele estremeceu, mas estremeceu mesmo. E então disse-me:
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“- Agora tenho de o deixar ir! Já é demais para mim!”
Ó senhor Pinto, como é que o senhor Abílio reagiu à sua saída? E o senhor, não teve pena de deixar Cabeceiras, a terra da sua amada?
- O que é certo é que fui para Guimarães! Com a minha saída o senhor Abílio adoeceu. Ele também era cliente do Pimenta Machado da secção por junto e escreveu uma carta ao senhor Pimenta Machado a dizer que se encontrava muito doente e pedia-lhe para me deixar fazer as feiras até ele melhorar e como o senhor Abílio era um cliente muito bom e pagava muito bem o senhor Pimenta de Guimarães disse logo que sim senhor! Fui fazer as feiras de Cabeceiras dois meses. Depois ele melhorou e deixei de ir.
Estive em Guimarães sete anos, com mais um em Cabeceiras faz oito, sem falar com a Néné, nem escrever, nem nada. Oito anos menina!!!”
Tanto tempo senhor Pinto! Como foi isso?
“Sim senhor foi muito tempo mas, cumprimos aquilo que prometi e jurei! Lá fui para o Pimenta Machado. Tinha nove empregados a trabalhar debaixo das minhas ordens.
(Continua no próximo número)
fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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