Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 05-05-2008

SECÇÃO: Opinião

Ortodoxias ideológicas

Esteve recentemente em Cabeceiras de Basto a Dr.ª Odete Santos, ex-deputada da Assembleia da República pelo Partido Comunista Português, na qualidade de conferencista num debate intitulado “As Mulheres, o Estado Novo e a Revolução”, promovido pela municipalidade cabeceirense, no âmbito das comemorações do 34º aniversário da Revolução de Abril de 1974. Tema vastíssimo, não só por que revisitava a condição das mulheres durante a Ditadura Salazarista, mas também por que interpelava o quotidiano da nossa contemporaneidade.
Todavia, o mote para esta breve incursão nas páginas do Ecos de Basto surgiu quase no final do mencionado debate, quando a Dr.ª Odete Santos, a propósito de um comentário colocado pela assistência, enunciou os fundamentos ideológicos que têm pautado a sua intervenção política e que claramente, nem podia de ser de outro modo, coincidem com a linha oficial do Partido Comunista Português e que na minha opinião revelam o anacronismo de uma concepção ideológica fossilizada no tempo e incapaz de responder à problematicidade das sociedades hodiernas.
Devo dizer, como declaração de interesses, que não renego a importância do pensamento filosófico-político que surgiu com Marx e Engels, aliás na linha de um século dezanove pródigo em utopias, e que sublinharam, no seu protesto, as desigualdades sociais existentes e a subsequente luta de classes como um factor determinante para a compreensão das relações sociais no interior do Capitalismo vigente. Por outro lado, e na companhia de um filósofo tão importante e insuspeito quanto Karl Popper na sua obra A sociedade aberta e os seus inimigos, escrita em 1945, partilho o ponto de vista que o marxismo surge, e cito as suas palavras, de um impulso humanitarista relativamente, acrescento eu, a condições de desumanidade extremas, impostas por um modelo económico atrozmente insensível à dignidade humana e que tinha como única meta a expansão económico-financeira. Nesta linha de pensamento, continuo a considerar que o marxismo, como interpretação sociológica, ainda mantêm intacta muita da sua eficácia analítica na elucidação dos mecanismos ideológicos existentes e que de uma forma audível contribuem para os desequilíbrios que persistem no mundo. Não é novidade, como se sabe, que o capitalismo está de boa saúde e recomenda-se, e nada melhor para o constatar que reconhecer o seu sub-reptício óbito, mas simultaneamente reconhecer a sua presença na desregulação planetária, quer no que concerne à injusta repartição dos recursos planetários quer relativamente aos problemas ecológicos que resultaram e resultam da predação desses mesmos recursos.
Este reconhecimento não consubstancia a adesão a projectos políticos que foram emergentes do marxismo e que constituíram o “socialismo real” e que conduziram ao gulag, às deportações, à eliminação da dissidência política e social, às purgas, bem como às execuções sumárias, a sistemas concentracionários e totalitários de má memória que fizeram tábua rasa da vontade de milhões de seres humanos em nome de uma verdade maquiavelicamente ou narcisicamente enunciada. O Estalinismo foi um caso, mas sobram outras nostalgias mais ou menos veladas: a Coreia do Norte, a República Popular da China, entre outras e sobretudo a ideia de uma vanguarda que antecipa a emancipação dos povos.
É claro que é muito fácil navegar neste universo de certezas, negar a evidência da complexidade do mundo. Em boa verdade, para alguns, tudo se decide na dogmática da simples enunciação: é assim porque se acredita que é assim e como a coerência parece ser um valor em si mesmo, muitas vezes confundida com a simples teimosia ou cegueira ideológica, importa reafirmar as convicções independentemente da aspereza da realidade.

(Continua)

Domingos Machado

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