Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 05-05-2008

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

- Então pegaste na chave? Onde é que está a chave?...
O Zé não tinha pegado em chave alguma. Tratava-se, muito objectivamente, de uma artimanha montada pelos gandulos, que a tinham escondido em qualquer buraco da parede, e lhe haviam perdido o sítio.
Bem negou o Zé, que não sabia da chave, que nunca a tinha visto. Porém, e dada a insistência da “bondosa” senhora Amelinha, e para mostrar a sua autoridade, o Manuel Carlos tirou a correia das calças e deu ali, na frente da queixosa, a primeira, e uma das maiores sobas, a que o Zé viria a ser sujeito ao longo de toda a sua idade de criança, e mesmo de adolescente. Na verdade, sobas de correia não lhe faltaram, até que fez a instrução primeira, e conseguiu colocar-se ao fresco.
De fivela voltada para a vítima, uma das correadas atingiu-lhe a mão direita, quando ele, instintivamente, a levantou na direcção do objecto com que estava a ser violentamente açoitado. A zona das costas da mão e do pulso ficou com um grande hematoma. Findo este triste episódio, o pai pegou no rapaz aos ombros, como quem leva um taleigo, e foi até à fonte dos marceneiros, que fica ao fundo da encosta, junto ao caminho que vai para Monte Covo, no sentido de Riodouro, para lhe refrescar as nódoas negras, com água fria que brotava da fonte. Parece que terá ficado arrependido, da excessiva violência, com que molestou o rapaz.
A chave acabou por aparecer, num buraco, junto à entrada da casa dos três gabirus. Tinha sido o mais pequeno, o Chico, que a tinha metido no tal buraco e se tinha esquecido do sítio. A dona Amelinha não deu qualquer troco, e o Zé ficou com a enorme soba que apanhou devido à falsa denúncia dos “seus meninos”. O injustiçado não virá, nunca, a esquecer este triste episódio. Do pai ficou com um certo e justo recalcamento. Dos vizinhos, que maliciosamente o acusaram, ficou a desejar-lhes que morressem o mais depressa possível. Veio a saber-se mais tarde que, efectivamente, todos eles, não terão tido fins que, de algum modo, possam despertar qualquer tipo de inveja.
Um amigo do Manuel Carlos, aquele que há cinco anos lhe tinha emprestado as ferramentas necessárias para a construção de uma pequena miniatura de um carro de bois, que terá sido o primeiro e único brinquedo do Zé, conhecido pelo nome de Augusto Borda d’Água e que morava na extremidade sul do lugar da Cruz do Muro, trabalhava, por esta altura, exercendo a categoria de carpinteiro, nas minas da Borralha.
Encontraram-se um certo dia, e por mero acaso, os dois amigos, no caminho, em frente da casa do brasileiro, o Manuel Carlos confessou, o seu desespero, por não conseguir um trabalho duradoiro, que lhe desse a possibilidade de conseguir alguns meios de sustento, para si, e para a família, que já era de seis pessoas. O Senhor Augusto, depois de o ter ouvido atentamente, disse-lhe:
- Olha, Manuel Carlos, em boa verdade sei que tens passado grandes dificuldades, trabalhaste algumas semanas a romper a mina da Quinta da Formiga, propriedade aqui do nosso brasileiro, mas olha que ele não me parece flor que se cheire. Tenho a impressão de que ele brinca um pouco com a miséria dos outros, coisas de brasileiros, que abanaram a árvore das patacas e vêm para cá, de torna viagem, cometendo o pecado da ostentação, não acrescentando nada ao pouco que vamos tendo. Como sabes, eu trabalho nas minas, já lá vão dois anos, depois de ter terminado os trabalhos de construção da barragem da Venda-Nova, e estou a dar-me bem. É trabalho debaixo da terra, mas, com muito cuidado e alguma sorte, a gente vai saindo de lá com vida. Se quiseres eu tento arranjar-te lá um lugar, quem sabe, até poderás ser meu ajudante, como entibador.
- Oh, Senhor Augusto!... Pela nossa longa amizade, isso era a coisa que eu mais queria, e olhe que eu já tenho alguma experiência de trabalho em minas, trabalhei nas minas de Cerva quando era solteiro, tinha dezoito anos, trabalhei lá durante cinco meses, depois as minas fecharam, e todo o pessoal foi dispensado. Foi então que fui para criado do Senhor Tenente Gonçalo de Meireles, em Santo Antonino.
- Está bem, tenho boas recordações do Tenente Gonçalo de Meireles, fui seu impedido quando estive na tropa, no Regimento de Cavalaria de Castelo Branco. Ele, apesar de não passar de Tenente, devido ao castigo que lhe fora imposto por se ter mostrado fiel aos defensores da monarquia contra a república, continuava a ser um militar cheio de brio e a gente tinha que andar nos trinques perante ele. Fosse como fosse, fiquei com a sua amizade e só não me meteu na Companhia Carris do Porto, a companhia dos eléctricos, porque eu não quis, eu gosto mais é da profissão de carpinteiro. Vou então falar com o director das minas, que é um francês e se chama Monsieur Ducamp.

Continua (31)

Por: Torcato Santiago

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