Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 14-04-2008

SECÇÃO: Opinião

O 25 DE ABRIL DE 1974

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NÃO FORAM SÓ CRAVOS NAS BOCAS DAS ARMAS

A 25 de Abril de 1974, o movimento das forças armadas, coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos, derrubou o regime ditador de então.
Libertar Portugal da ditadura, da opressão e do colonialismo representou uma transformação revolucionária e o início de uma viragem histórica da sociedade portuguesa.
A revolução restituiu aos Portugueses os direitos e liberdades fundamentais. No exercício destes direitos e liberdades, os legítimos representantes do povo reúnem-se para elaborar uma Constituição que corresponde às aspirações do País.
A assembleia constituinte afirma a decisão do povo português de defender a independência nacional, de garantir os direitos fundamentais dos cidadãos, de estabelecer os princípios basilares da democracia, de assegurar o primado do estado de Direito democrático e de abrir caminho para uma sociedade socialista, no respeito da vontade do povo português, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno.
Nesta data histórica, não foram só os cravos nas bocas das armas. Viveram-se dois anos de incerteza, instabilidade e insucesso. Os governos provisórios sucediam-se porque os políticos e as forças armadas não se entendiam na governação do país.
O Otelo Saraiva de Carvalho, um dos Capitães de Abril, foi o principal responsável pela instabilidade referida no nosso país. Sob o seu comando formou uma unidade militar revolucionária, intitulada Comando Operacional do Continente (COPCON). O seu alojamento teve lugar no Quartel da Ajuda em Lisboa, unidade antes ocupada pelas forças de Segurança intituladas “Corpo de Intervenção” da PSP, o qual foi imediatamente extinto. O referido Otelo Saraiva de Carvalho dava ordens aos seus subordinados para fiscalizar viaturas e deter pessoas com mandados de detenção em branco, como eu presenciei. Os populares rebeldes aliaram-se a esta força militar. Começaram a formar barreiras na via pública e também fiscalizavam viaturas, revistavam os seus condutores, retiravam-lhes objectos e até os agrediam se eles discordassem da missão que estavam a efectuar. O objectivo destas forças era assumir o controlo do País pela força. Presenciei estas situações mas as forças de segurança não podiam intervir, porque estes populares tinham o apoio de perto de elementos da força militar em referência.
Certo dia, do ano de 1975, pelas 9h da manhã, os militares revolucionários e o povo aliado cercaram a Assembleia Constituinte, hoje Assembleia da República e Residência Oficial do Sr. Primeiro-ministro e não deixaram sair ninguém destes edifícios. Era então Primeiro-ministro o General Pinheiro de Azevedo, o qual se manteve privado de liberdade, bem como todos os funcionários e forças de segurança que ali se encontravam, durante 48 horas. Tive a felicidade de não ficar também ali retido por ter saído da Assembleia da República 2h antes do dispositivo militar ser instalado.
Nesta altura a guerra civil esteve por um fio, porque a unidade militar dos comandos não aliada, dirigida pelo Coronel Jaime Neves, queria deslocar-se a estes dois órgãos de soberania e atacar as forças militares rebeldes que mantinham o cerco. No entanto e felizmente, alguém o demoveu de tal acção.

Desde Abril de 1974 até final de Novembro de 1975, foi um espaço de tempo de muita insegurança. Os populares, apelidados de Comissões de moradores das freguesias do concelho de Lisboa, ocupavam todas as casas que se encontravam devolutas. As denúncias destes actos às forças de segurança eram uma constante, mas estas nada podiam fazer. Perante estes factos aconselhei dezenas de proprietários das habitações ocupadas a dirigirem-se à unidade militar do COPCON para resolução destas ocorrências. Durante este tempo o Sr. Otelo Saraiva de Carvalho e seus aliados tiveram parcialmente o controlo do País, o qual disse que era sua intenção meter todas as forças de segurança no Campo Pequeno de Lisboa, local onde se efectuam as touradas.
Apesar de não conseguir os seus intentos, foram detidos vários oficiais do exército que comandavam as forças de segurança e nesta altura muitos elementos destas forças viram-se obrigados a obter o passaporte de emigração, como eu obtive, na eminência do Otelo Saraiva de Carvalho e seus pares tomarem o controlo do País pela força, como tentaram, no dia 25 de Novembro de 1975, através de um golpe de estado que saiu frustrado. Perante tal situação, a unidade militar dos comandos, comandada pelo referido Coronel Jaime Neves e as forças militares aliadas ao General Ramalho Eanes assumiram o controlo do País com alguma resistência das forças militares rebeldes, e tenho em mente que apenas houve uma baixa consumada.
Com a extinção da unidade militar intitulada o COPCON, dirigida pelo célebre Otelo Saraiva de Carvalho, no final de 1975 começou a ver-se ao fundo do túnel alguma consistência e estabilidade na governação do País. Porém, derivado a esta estabilidade, a criminalidade começou a aumentar de forma assustadora, principalmente os assaltos à mão armada, os quais eram reivindicados pelas forças revolucionárias das Forças Populares 25 de Abril e, se a memória não me atraiçoa registaram-se seis assaltos à mão armada, do que resultou 5 homicídios consumados e dois atentados à bomba falhados.
Para que a estabilidade saísse vencedora, no início do ano de 1976, houve as primeiras eleições livres e democráticas. Destas eleições recordo não se registar qualquer incidente e saiu vencedor o partido socialista liderado pelo Doutor Mário Soares, o qual foi um excelente Primeiro-ministro. Este formou governo, começou a “arrumar a casa” e livrou o País de uma banca rota.
Este governo, face à situação referida, solicitou a todos os trabalhadores um dia de salário, o qual foi descontado no vencimento de cada trabalhador no final do mês, com o objectivo de ajudar o País a sair da crise em que se encontrava mergulhado.
Mário Soares foi um Primeiro-ministro que deu aumentos salariais aos trabalhadores acima da média e outras regalias sociais. Em suma, nada de negativo encontrei enquanto ele foi Primeiro-ministro. Naquele tempo, sem ofensa para ninguém, tinha orgulho nos políticos que defendiam a democracia. Para além do Doutor Mário Soares, existiam outras personalidades como: Sá Carneiro, Diogo Freitas do Amaral, Álvaro Cunhal e Adelino Amaro da Costa.
Devemos agradecer principalmente a estes políticos a razão de hoje Portugal ser uma República Soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular, empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.
Lembrar o 25 de Abril de 1974, marco importante da nossa história recente e sinónimo de conquista e de liberdade, é lembrar a queda de um regime autoritário.

Por: Manuel Sousa

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