Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 14-04-2008

SECÇÃO: Golpe de vista

Irresponsabilidade!

A escola nunca os entusiasmou muito. Ano após ano, sempre o mesmo sacrifício. Levantam, carregam a sacola, chegam à escola, aturam os professores, os colegas, as aulas. Saem da escola, regressam a casa. Amanhã e depois, outra e mais outra vez. A escola não é local de felicidade. É um desatino.
Completam dezasseis anos, o mundo do trabalho espera por eles. Quando não antes! Abandonam a escola. Sem qualificação e habilitação académica suficiente, que fazer? Começam por carregar baldes de massa, tijolos, vigas. Carregam, chegam, lavam, arrumam ferramentas. Sobem e descem. Empoleiram-se nos andaimes. Depressa percebem que é preciso saber mais. Curiosos e interessados vão aprendendo com os mais velhos. Agora já pegam na colher, assentam tijolos, usam o nível vertical e horizontal. Amanhã já trabalham o ferro, pintam ou fazem trabalhos mais especializados. O fim do mês começa a ter piada. Juntam dinheiro. Compram o primeiro carro.
Como vizinhos da porta não fazem milagres, há que pensar em ir mais longe. Um amigo mais velho trabalha fora. O convite não se faz esperar. Rapidamente é aceite. A notícia agrada aos progenitores. A promessa de ganhar mais dinheiro é boa. Terá que sair à segunda e regressar à sexta à noite. A mãe prepara-lhe com todo o carinho a sacola, bem diferente da sacola da escola. Para além da roupa, carrega-lhe algumas coisas boas que há lá por casa para que possa comer quando a refeição não for do gosto do rapaz. Passam meses, anos talvez, e surge novo convite. Agora é a promessa de mais dinheiro ao fim do mês. Só que é preciso ir mais longe. Despede-se do actual patrão.
No café da aldeia avisa os amigos que logo à noite não poderá encontrar-se com eles para falarem dos jogos deste domingo. Vai de viagem. E a viagem dura toda a noite. Todos dormem. Só o motorista se mantém acordado, dirigindo aquela carrinha a alta velocidade. É preciso chegar antes das sete. É muito longe e ainda por cima, do outro lado, a hora é adiantada em sessenta minutos. Felizmente, tudo corre bem. Uma, duas, três, muitas vezes.
A semana decorre a uma velocidade incrível, mas ao mesmo tempo, a sexta-feira parece nunca mais chegar. São doze horas de trabalho por dia. É necessário, por um lado, cumprir objectivos da empresa, por outro, ganhar mais e mais dinheiro. O sacrifício tem que valer a pena.
Sexta-feira regressam. Depois de uma semana tão dura, é preciso encontrar formas de distracção, de entretenimento. Juntam-se todos no largo da aldeia. Combinam programas mais ou menos radicais. Desta vez vão experimentar os bólides. Fazer habilidades. A adrenalina toma conta deles. Sacam peões, cavalinhos… Rotações ao rubro!
Chega a Guarda. Manda parar. A loucura é grande. Não obedecem à autoridade. A perseguição é inevitável. Coima aplicada. Carta apreendida. E agora?
Tanto trabalho à semana!
Tanta irresponsabilidade ao sábado à noite!

A. C.

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