Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 14-04-2008

SECÇÃO: Recordar é viver

Manuel Joaquim Pinto, 94 anos

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Um romance à moda antiga

Tantas vezes me passou o nome de Manuel Joaquim Pinto pelas mãos, desde 1985 no jornal o Basto e desde 1992 no jornal Ecos de Basto, que a curiosidade me “obrigou” a escrever-lhe uma carta para lhe perguntar se ele era de Cabeceiras ou se à terra estaria ligado por laços afectivos. Simpaticamente respondeu-me que é de Felgueiras mas tinha casado com uma senhora de Refojos, da Casa de Paredes, chamada Raquel, mais conhecida pela família e amigos por “Néné”.
Ficou admirado que eu me não lembrasse de si quando “trabalhava nas fazendas do falecido Abílio Gomes, do Campo do Seco”. Realmente eu não poderia lembrar-me porque o senhor Manuel Joaquim Pinto, tem a bonita idade de quase noventa e quatro anos e eu bastantes menos. O senhor Pinto trabalhou nos “Abílios” na altura em que nasceu o senhor Valdemar Jorge Queirós Gomes, primeiro presidente da Câmara eleito e presidente da Assembleia Municipal durante alguns anos em Cabeceiras de Basto. Eu nasci muitos anos depois destes dois amigos, que são uns eternos jovens.
Depois desta carta falei pessoalmente com o senhor Pinto, a quem agradeci por nos acompanhar ao longo dos anos através do jornal. Fiquei impressionada com o seu porte elegante, bem-falante, boa memória e pela forma simpática como nos recebeu e nos contou “ a história da sua vida”.
Disse, entre outras coisas. que era viúvo e que tinha casado com uma senhora da Casa de Paredes e que a sua esposa, infelizmente falecida há muitos anos, era irmã da Mirinha de Paredes. Isso despertou-me logo a atenção. Se me não falha a memória já vos contei que a Mirinha também era uma das catequistas quando eu era criança e uma das melhores cantoras da nossa Igreja de Refojos!
Na troca de palavras com o Manuel Joaquim Pinto pelo telefone, ele confidenciou-me que a história de vida dele dava um romance. Comprometi-me logo com ele que o mais breve possível iria até Felgueiras falar com ele.
E assim foi! Como estava bom tempo e tenho uma certa dificuldade em orientar-me com o carro em terras mais ou menos desconhecidas o meu marido fez o favor de me acompanhar.
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Chegamos a Felgueiras e esperamos junto do estabelecimento dele que fica perto da Câmara Municipal e aguardamos que ele chegasse do almoço.
Apresentámo-nos e ele convidou-nos a entrar no seu comércio, onde foi feita a entrevista. Depois das apresentações mostrou-me algumas fotos entre as quais uma antiga que me despertou a atenção. Estava nela Manuel Joaquim Pinto, a sua esposa e três dos seus seis filhos.
Devo dizer, pelo menos aos da minha geração e de gerações anteriores, que a esposa dele era tal qual a Mirinha, sua irmã que eu conheci tão bem!
Pegou na fotografia e foi apontando:
- Este é o mais velho, este é o segundo e este é o quarto ou o quinto.
Eu aí perguntei:
-Ó sr. Pinto quantos filhos tem?
- Seis filhos.
Entretanto um deles chegou à loja. Aí verifiquei que já os tinha visto muitas vezes com a Mirinha e lembrei-me dos outros que faltavam ali.
Os pais da D. Raquel e da Mirinha tinham ido para o Brasil e as duas manas ficaram em Paredes com o senhor Padre Arnaldo, tio das meninas, de quem eu ouvi falar muitas vezes e que, segundo o senhor Pinto, era pároco em Santa Senhorinha de Basto.
Não é novidade para ninguém, e até é visível para quem lá passa, que a Casa de Paredes está bastante degradada. O que é uma pena porque tem uma arquitectura belíssima e tem história. Os filhos do senhor Pinto têm vindo muitas vezes a Cabeceiras porque são herdeiros da “tia Mirinha”. Mas, pelos vistos, há mais herdeiros da Casa e da Quinta de Paredes que estão no Brasil e não há maneira de chegarem a um acordo porque “os do Brasil querem uma fortuna e a Casa de Paredes precisa de ser recuperada com muitas obras e gastar lá milhares de largos contos e a parte que nos tocou é esta” disse, mostrando-nos uma fotocópia de uma planta da casa. E continua:
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-”Esta parte da casa é nossa e a parte daqui é da Mirinha. A minha, já teve obras, telhado novo e armação, o soalho estava todo podre e levou uma placa de cimento, enfim pus tudo seguro. Agora a parte da Mirinha precisa de muitas obras”. Continuou a mostrar a fotografia e disse que a casa ao lado era dos falecidos senhor Gaspar Miranda e de D. Maria José, que são ainda seus familiares.
Nesta troca de informações e até porque a hora ia avançada comecei por perguntar o seguinte:
- Diga-me senhor Pinto como é que foi parar a Cabeceiras de Basto? Ou já pertencia à família?
- “Olhe menina vou contar a minha vida que é muito bonita. A história da minha vida dava um romance bonito! E eu já tenho dito que se o Camilo Castelo Branco fosse vivo, tinha argumentos e enredos para escrever um bonito livro!”
E então começa a sua narrativa, na qual se nota uma emoção deveras sentida:
-Eu, aos vinte anos fui para Cabeceiras para caixeiro para a loja do senhor Abílio Gomes Pereira e, ainda estava lá há poucos dias quando entraram duas meninas na loja. Uma entrou naturalmente e a outra entrou e ficou a olhar para mim um pedaço de tempo. Eram a Mirinha e a irmã, a Néné, a que foi minha esposa. A Néné ficou a olhar para mim um pedaço e depois começou a fazer perguntas. “Você donde é? Como é que se chama? Quantos anos tem? Quando faz anos?” E eu fui respondendo, estranhando tanta pergunta. Ela fixou a data em que eu fazia anos, que por acaso é na véspera de Natal. Foram-se embora e eu perguntei a outro empregado que lá estava:
- Quem são estas meninas?
- Ah, são ali de uma casa fidalga e rica! São da Casa de Paredes, do senhor Padre Arnaldo – respondeu-me ele.
É claro que quando me disse que eram de gente fidalga e rica eu não pensei mais nas meninas. Eu só era filho de um lavrador! Também não posso dizer que era pobre, até tinha uma quinta mas, em comparação com eles… era nada! Não liguei mais ao assunto.
O tempo foi andando e, foi-se aproximando o Natal e, para aí dois dias antes foi uma mulher à loja entregar-me uma carta. Eu perguntei-lhe:
- De quem é esta carta? – “É da menina da Casa de Paredes” - disse. Calculei logo que era da que me fez aquelas perguntas. Abri o envelope e não trazia carta nenhuma! Trazia uma estampa da Senhora de Fátima e os Pastores e os cordeiros e o resto dizia: “Felicito-o pelo seu aniversário e faço votos para que seja do número dessas ovelhinhas”. Eu achei graça aquilo e pensei: Aqui há mais qualquer coisa que ela não disse. Respondi-lhe a agradecer e terminava a minha carta assim: “Tinha mais alguma coisa para lhe dizer mas só o farei se me autorizar”. E nada mais disse, com receio de não ser correspondido, claro!”
Interrompi-o para lhe perguntar se ficou impressionado com a menina de Paredes desde a sua primeira visita à loja.
Quase ignorou a pergunta e fez um gesto com a mão como que a dizer que não me impacientasse que já iria compreender tudo e continuou:
“Ela respondeu-me: “Está autorizado!” Eu pedi-lhe logo namoro! Ela respondeu e disse:
“Aceito o seu pedido”. Então eu pedi-lhe namoro com uma condição: tendo em vista o casamento. Se for para passar tempo não vale a pena começar!
Foi nestes termos que lhe respondi:
“Estou absolutamente de acordo com as condições sobre o namoro e o casamento mas há uma coisa que não posso deixar de lhe confessar para que mais tarde não possa dizer-me que a enganei. Enquanto a menina é de uma família fidalga e rica, eu sou de gente humilde e pobre, os meus pais são lavradores e têm uma quinta mas, à morte deles toca uma migalha a cada um de nós porque somos oito. Ela respondeu-me dizendo:
“- Não me interessa o dinheiro, interessa-me a pessoa! Só lhe recomendo que tenha o máximo de cuidado para os meus tios não se aperceberem”. E depois dizia:
“ - Só podemos falar alguns minutos pessoalmente uma vez por mês.
-E como é que era isso? - perguntei eu que já via nele uma personagem dos livros de Camilo Castelo Branco.
“- Era no primeiro Domingo de cada mês em que ela ia à freguesia onde o tio estava de padre, em Santa Senhorinha. Ia ela e a Mirinha no principio de cada mês fazerem uma adoração qualquer com as raparigas da freguesia.
O que é certo era que só nos podíamos ver uma vez por mês.”
E não havia outra maneira, senhor Pinto?
(Continua no próximo número)

Por: Fernanda Carneiro

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