Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 14-04-2008

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

(continuação-29)
Como se viu, o Evaristo tinha onze anos e o Amadeu tinha nove. Não surpreende ninguém que, com estas idades, já usassem determinados termos próprios de adultos, e, em particular, termos relacionados com o sexo. O Zé ouvia e registava. Certo dia, depois de mais uma manhã de convívio, nos caminhos das redondezas, ao chegar a casa, dispara em direcção à mãe:
- Quero “pinar”…
A mãe, sem qualquer tipo de hesitação, pega na vassoura de giestas, que estava atrás da porta da cozinha, prega-lhe duas troçadas com o rabo daquele artefacto mágico de varredura, pela cabeça abaixo, exclamando:
- Ah, seu tratante, isso é palavra que se diga?...
O Zé, encolheu os ombros, encostou-se ao escano, com duas lágrimas nos olhos, que limpou com as costas da mão direita, toda suja de terra, e pensou: «Uhm, se “pinar” é isto, eu não quero mais…».
Coisas de rapazes.
O Zé continuava a ser muito solicitado pelo Senhora Dona Piedade, a mulher do brasileiro, para fazer recados, em especial fazer as compras da mercearia. As lojas mais próximas eram as dos Mouras da Ponte de Pé, ou a do Senhor Albano da Pereirinha, à entrada de Chacim. A maioria das vezes era à Pereirinha que o Zé ia buscar as compras para a Dona Piedade. Esta mimoseava-o sempre com algo para comer, sobras das suas próprias refeições, um pouco de conduto. A família do Zé nunca comia mais nada que não fosse caldo de couves e algum pão de milho. Conduto, ou seja, uns grão de arroz ou umas bichas de massa, só pelo Natal, ou quando havia algum baptizado.
A Senhora Dona Piedade admirava a perfeição com que o Zé executava os recados. Um dia aconteceu-lhe um acidente, ao Zé, não estamos à altura de o qualificar, se terá sido grande, ou se terá sido pequeno, a verdade é que causou uma enorme preocupação ao rapaz. Tinha chovido, o caminho encontrava-se com pequenas poças de água. O Zé regressava da loja da Pereirinha, com uma saca de pano de amostras, na mão, com dois quilos de farinha de milho, vinha a passo ligeiro, aproveitando um pequeno bocanho, o sol até tinha aberto um bocadinho. Encontrava-se a meio caminho entre a Pena e a Cruz do Muro, ali pelo sítio que se chamava Cerdeirinhas. A certo momento, ainda não se sabe como, enfiou o dedo grande do pé direito na calça da perna esquerda, fez um rasgão na perna da calça até à altura do joelho e foi com as duas mãos ao chão. Por grande azar, a saca da farinha parou numa pequena poça de água, ficou molhada e suja de lama.
Não dá muito para explicar a aflição em que o Zé ficou. A primeira ideia que lhe ocorreu era esperar, debaixo de um pinheiro, até que a saca secasse, mas, cedo concluiu que demoraria demasiado tempo, talvez mais que o dia todo, até à noite. Decidiu seguir caminho, e, contando a verdade do sucedido, pedir desculpa à Senhora. Chegou à casa da Dona Piedade, cabeça baixa, os olhos com lágrimas, tinha chorado todo o caminho, desde que caíra no chão, com a saca de farinha nas mãos. A Dona Piedade, ao vê-lo naquele estado, perguntou:
- Então Zé, que é que tu tens?
O Zé, soluçando convulsivamente:
- Olhe, minha Senhora, vinha muito depressa, para ver se me escapava da chuva e, não sei como foi, tropecei na perna das calças, caí e molhei a saca…
- Oh, meu rico menino, não chores mais… não te preocupes…Olha, eu vou dar-te alguma coisa para comeres. Entretanto, tiras as calças, embrulhas-te numa toalha e, enquanto comes uma sandes de marmelada, eu coso-te a perna das calças, e a tua mãe nem sequer vai saber de nada… Vá, tira as calças, toma esta toalha e senta-te aí, no chão, encostado à porta da sala…Eu vou preparar-te a sandes…
O Zé assim fez, tirou as calças e embrulhou-se numa toalha, sentou-se no chão, encostado à porta da sala. A Senhora deu-lhe um pão de “bijou” com marmelada dentro, ele comeu e pareceu-lhe estar num sítio estranho, se calhar aquilo era o céu. Ele já tinha ouvido falar do céu, quando a mãe o informara de que em breve teria de ir aprender a doutrina, para fazer a primeira comunhão, que era o caminho messiânico para aqueles que queriam ir para o céu.
Enquanto ele comeu a sandes de marmelada, e algum tempo mais, já que a comera bastante depressa, a Dona Piedade coseu-lhe a perna das calças. Terminada a tarefa da costura, deu-lhas para que se vestisse:
- Toma lá, Zé, já estão como novas, veste-te para ires ter com a tua mãe, que já deve estranhar a demora.
Deu-lhe uma fatia de pão, para ele levar para os irmãos, e ainda uma moeda de cinco tostões. Ao chegar a casa, o Zé disse à mãe que tinha demorado mais porque tinha chovido e se tinha abrigado debaixo de um pinheiro, e que, depois, a Senhora Dona Piedade também não deixou que ele fosse embora sem lhe dar uma sandes de marmelada, e aquele bocado de pão, e ainda aquela moeda de cinco tostões. No dia seguinte, o Zé soube logo qual o destino da moeda de cinco tostões, foi para ir à Pereirinha comprar sal para o caldo.
Os rapazes da Amelinha não eram, de modo algum, as melhores companhias para as brincadeiras do pequeno Zé. Certo dia, em finais de Agosto de 1950, o pai do rapaz, ao chegar a casa com um molho de raízes de um canhoto de eucalipto, que tinha estado, durante toda a manhã, a arrancar na cerca de Monte Covo, foi interpelado pela senhora Amelinha, fazendo-lhe a “bondosa” senhora queixa de que o seu filho, «aquele ali», o Zé, lhe perdera a chave de sua casa. Argumentava a queixosa:
- Os meus filhos disseram que tinham trazido a chave da porta e que o seu rapaz, aquele ali – a acusadora apontava para o Zé – pegou nela. Eu quero a chave…
O pai do Zé, voltando-se para este questionou:

(Continua 30)

Por: Torcato Santiago

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