Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 24-03-2008

SECÇÃO: Opinião

BARCO À VELA

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SOBRE A EDUCAÇÃO

1. Prometo: não voltarei a incomodar-vos com a avaliação dos professores. Os leitores deste jornal têm mais em que pensar e eu próprio, por razões de higiene mental, preciso de me afastar de alguns ignorantes e de malcriados que peroram estupidamente sobre o tema. Mas não posso deixar de, por uma última vez, regressar a esta questão.
2. O país parece dividido entre duas teses fundamentais: a) a Educação está mal por causa dos professores; b) a Educação está mal, apesar dos professores. Eu sou pela tese b).
3. Para mim, o modo agressivo como o Ministério da Educação tem tratado os professores é, para além de injusto, contraproducente. A própria ideia de publicamente reduzir os docentes a um estatuto “funcionário”, ao serviço de alunos e encarregados de educação, é altamente perigosa.
4. É evidente que os professores estão ao serviço dos alunos e respectivas famílias, num sentido lato. Mas, num plano ontológico, os docentes estão ao serviço de algo maior: a própria ideia de Educação. A autoridade que lhes deveria estar cometida é condição sine qua non para a dignidade e eficácia da missão.
5. O reconhecimento da autoridade do professor (legal, pessoal, cultural, académica) é uma base indispensável para o decente cumprimento da função docente. O que este Ministério tem vindo a conseguir, mais por inépcia (creio) que por má-fé, desde há bastante tempo, é potenciar a perda de autoridade dos professores, com óbvios reflexos na Escola.
6. Quando um pai ralha com o filho, de acordo com os manuais mais elementares de psicologia, não é boa ideia que a mãe desautorize o cônjuge (ou vice-versa) à frente do infante. Percebe-se porquê: há o perigo de a criança perder o respeito pela figura paterna (ou materna).
7. A imagem não é aqui descabida. Os gestores da educação estão obrigados a rigorosas regras de conduta, por razões de dignidade e de eficácia.
8. Os erros, a este nível, têm consequências. Há já em alguns pais e alunos, no país real, esta ideia mais ou menos instituída de que “o professor não manda nada” – e “o eventual insucesso escolar é culpa dessa corja docente que não trabalha como deve e tem demasiadas regalias”…
9. Caceteiros da opinião, como Sousa Tavares ou Emídio Rangel (no “Expresso” ou no “CM”), contribuem para esta retórica da destruição do respeito pela figura do professor. Como é evidente, temperam os seus azedumes com prudentes ressalvas: “há professores bons”, admitem eles, com tocante generosidade.
10. O caso de Emídio Rangel mereceria um estudo, na área da psicologia e da psiquiatria. O grande mentor do “Macaco Adriano” (entre outras invenções maravilhosas que ajudaram a edificar o Portugal hodierno) queixava-se há dias, num Português desajeitado, da falta de conhecimentos e competências nos jovens portugueses.
11. A verdade é que, na pressa (ansiosa e militante) de concordar com a Ministra da Educação, há gente que a apoia com base em argumentos que contrariam a própria filosofia da legislação promovida. Vamos a exemplos.
12. O sucesso escolar é hoje, mais do que uma consequência natural do trabalho desenvolvido por alunos e professores, uma espécie de imposição. No actual quadro de legislação, é muito difícil avaliar negativamente um aluno, ainda que este não se esforce devidamente. Não estou a exagerar: a verdade é que, a uma série de recomendações legais e pedagógicas, acresce agora a circunstância de o sucesso escolar dos alunos ser tido em conta na avaliação de desempenho dos professores.
13. O que os “opinion makers” querem é, afinal, uma espécie de quadratura do círculo: que haja sucesso escolar e que, simultaneamente, os alunos adquiram os conhecimentos e competências indispensáveis. Esse é também o meu ideal, sublinho. Mas quaisquer estratégias, práticas e métodos estão dependentes do real investimento (em esforço, aplicação, estudo) que os discentes (também) protagonizem. Não é?
14. Arrepiai-vos. Eu sei até de pais que ostensivamente subscrevem (e autorizam) o desinteresse dos filhos pelas aulas de apoio de Matemática ou de Língua Portuguesa. Culpam-se os professores?
15. Deixai-me ser ainda mais provocatório. Para mim, um governo que queira (re)dignificar a Escola deve admitir até a possibilidade de grandes taxas de insucesso escolar, quando estas se justifiquem. Ter sucesso escolar deveria significar para o aluno, sempre, saber o suficiente para ter sucesso escolar. E nunca esta situação, se comprovadamente justa, deveria concorrer para a avaliação do desempenho docente.
16. Nada disto se faz sem autoridade. E valeria a pena aos distraídos revisitarem a noção (etimológica e ontológica) de “autoridade”.
17. Termino com um apontamento triste. Soube de gente que, por evidentes motivos de carreira, se colocou do lado do governo. Gente, sublinho, a quem outrora ouvi discursos muito outros deste seguidismo cego e inesperado.
18. Dedico a essa gente um poeminha (com prudentes supressões) de um deputado do Partido Socialista, chamado Manuel Alegre. Está no velhinho (e sempre novo) livro “Praça da Canção”. Se essa gente corar um pouquinho de vergonha, nem tudo estará ainda perdido.

TRINTA DINHEIROS

No bengaleiro do mercado público
penduraram o coração.
Vestem o fato dos domingos fáceis.
Não têm rosto
têm sorrisos muitos sorrisos
aprendidos a espelho da própria podridão.
Têm palavras como sanguessugas.
Curvam-se muito. (…)
Alma não têm. Penduram a alma.
Por fora parecem homens.
Custam apenas trinta dinheiros.

Por: Joaquim Jorge Carvalho

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