Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 24-03-2008

SECÇÃO: Opinião

Roteiro turístico e cultural por Ceide

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Visita à Casa de Camilo Castelo Branco

Um destes dias, mais precisamente no Domingo de 10 de Fevereiro, um dia bastante soalheiro por sinal, o meu marido convidou-me a ir até S. Miguel de Ceide (ou Seide), uma localidade que pertence ao concelho de Famalicão, para visitar a famosa Casa/Museu de Camilo Castelo Branco. Não será preciso dizer que fiquei agradavelmente surpreendida e contente com o passeio e a visita a tão histórica casa. Não hesitei e, disse logo que sim. Ir até lá não era uma grande distância e, como nós íamos pela auto-estrada mais rápido chegaríamos.
Lá fomos, com a nossa máquina digital, que nos acompanha para todos os lados, para registar aqueles momentos que eu adivinhava emocionantes!
A árvore seca, mirrada e, emparedada onde o Jorge, filho de Camilo se empoleirava, na Casa de Ceide
A árvore seca, mirrada e, emparedada onde o Jorge, filho de Camilo se empoleirava, na Casa de Ceide
Quando lá chegámos a casa ainda se encontrava fechada. Esperamos, deambulando por ali, juntamente com outras pessoas que se encontravam à espera de ver o mesmo que nós certamente. O meu marido, curioso como eu, nestas coisas de interesse histórico, atreveu-se a entrar num jardim lateral, muito bem arranjado, que tinha ao centro de uma parede, dois bancos de pedra, um frente ao outro, com vista para a rua, onde Camilo Castelo Branco e Ana Plácido, com quem ele vivia maritalmente na própria casa dela, falavam aos aldeões que passavam na estrada por baixo do dito muro. Segundo informação recebida, aquele local onde viviam era bastante isolado naqueles anos longínquos dos anos de 1800 e tais. Era também ali que Ana Plácido se sentava a conversar com quem passava, para se distrair e saber o que se passava na aldeia.
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Pelos vistos também ali fumava o seu charuto! Com certeza estarão a dar voltas à cabeça a imaginar uma cena destas, improvável em pleno século dezanove, visualizando uma senhora daquela época a fumar charuto. Sei, porque ouvi desde pequena, através de pessoas de “linhagem” que eu conheci, que as senhoras daquela época, muito prendadas e, principalmente as de grandes famílias, eram educadas para estarem em casa e para receberem os convidados, talvez fazendo de permeio alguma caridadezinha. As meninas eram criadas pelas amas, tinham professores particulares para o ensino das letras, aprender o francês, tocar piano. Para aprender a bordar o enxoval em linho de “casca de ovo” ou em seda aí as mamãs já tinham um papel principal! Mesmo para “conversar” com o noivo prometido, a menina tinha de estar debaixo do olhar controlador das mamãs! Por esse motivo fiquei deveras admirada por saber que esta senhora fumava charuto como os homens!
Mas sem perder o fio da história que eu iniciei, direi que a Ana Plácido não se enquadrava nesse padrão de senhora da sociedade. Tinha a meu ver um comportamento pouco convencional para a época. Primeiro atreveu-se a enfrentar a lei e a comunidade ao apaixonar-se por Camilo e, sendo mais velha do que ele cerca de vinte e seis anos, sendo ambos acusados de adultério que deu origem ao ódio de Pinheiro Alves, marido enganado (ou não) que tudo fez para os meter na prisão aos dois e, conseguiu-o! Foi aí, na cadeia da relação do Porto, que escreveu Memórias do Cárcere, tendo conhecido o famoso delinquente Zé do Telhado. Certo é que eles, os amantes, não esmoreceram perante a adversidade.
Entretanto lá fomos encaminhados para os diversos compartimentos da moradia da casa.
Camilo e a sua amada Ana Plácido com um dos seus filhos (foto retirada da internet)
Camilo e a sua amada Ana Plácido com um dos seus filhos (foto retirada da internet)
Devo dizer que aquilo que vi e ouvi naquela tarde e naquela casa, me impressionou e principalmente me emocionou!
Cheguei também a uma conclusão. Camilo na verdade não tinha nenhuma casa! Pelo menos depois de ter vivido em Samardã, Vila Real e em Friúme, Ribeira de Pena, onde esteve casado com Joaquina Pereira de França, e depois de viver outros amores tumultuosos com Patrícia Emília de Castro, a freira Isabel Cândida, viveu na Casa de Ceide, que foi mandada construir pelo marido (traído), que a tinha deixado por herança ao único filho que teve com Ana Plácido e, se chamava Manuel Plácido. Há quem diga até que este filho talvez também não fosse do desditoso e sofrido marido. Estive na sala onde está o retrato dele e, sinceramente, a mim pareceu-me mais parecido com o Camilo, até porque o amor dele pela Ana Plácido já era muito anterior ao casamento deles. É o que dizem alguns historiadores. Nunca o saberemos! Antigamente a honra lavava-se através da lei (prisão ou morte) ou através dos duelos. Hoje vê-se através dos testes de ADN.
Como ia dizendo, depois de ter estado preso por adultério mais a sua Ana Plácido, foram, com surpresa, absolvidos daquele crime muito grave para o século, por um juiz que possivelmente também teria telhados de vidro…
Claro que Pinheiro Alves, marido traído, que sempre foi confrontado com comentários que pouco abonavam ao seu bom nome e, que tudo tinha feito para que fossem condenados, perseguindo-os com a justiça, veio desiludido para Famalicão vindo a falecer em 17 de Junho de 1863. É a partir desta data, logo a seguir ao seu falecimento que Camilo se instala na casa em Ceide, que pertencia ao filho Manuel Plácido, filho de Ana Plácido e de (?) Pinheiro Alves. Ele, Ana Plácido e os seus dois filhos Jorge e Nuno, que tiveram. Viveu lá cerca de vinte e seis anos até ao dia em que se suicidou. Como atrás referimos Ana Plácido era vinte e seis anos mais velha que Camilo. Por aqui se vê o significado do ditado “o amor não escolhe idade e nem beleza”. Já estão a ver o grande amor deles apesar das diferenças de idade e das características físicas. Por aquilo que se vê pelas fotos das épocas, Ana Plácido devia bastante à beleza. Pelo menos ao primeiro olhar. Era o que poderíamos dizer em linguagem do povo, “um mulherão”, farta de seios, curvas largas e um rosto que eu achei quase masculino. Acrescentando a estas características mais vinte e seis anos que Camilo. Para quem não sabe Ana Plácido também era escritora, havendo quem defenda que muitos dos romances de Camilo foram sugestões de Ana Plácido.
Senti uma emoção grande que me embargava a garganta quando entrei a porta daquela casa! Recuei aos meus treze, catorze, quinze anos em que procurava constantemente a Biblioteca Itinerante da Gulbenkian, em Cabeceiras e, que era da responsabilidade do Professor Aníbal de Jesus Leite. Devo dizer-vos que li livros de vários autores como Eça de Queirós, Júlio Dinis entre outros mas de Camilo li todos quantos a biblioteca tinha! E não foram assim tão poucos!
Só para citar alguns, refiro a Bruxa de Monte Córdova, Onde está a Felicidade, Novelas do Minho, Amor de Perdição, Eusébio Macário, A Queda de um Anjo, Como ela o amava, das Noites de Lamego, passado no S. Bartolomeu de Cavez e na sua ponte, etc. Nas Novelas do Minho gostei de ler os contos Maria Moisés, o Filho Natural e Gracejos que Matam, porque são praticamente passados aqui nas freguesias de Cabeceiras e arredores assim como a primeira parte da Bruxa de Monte Córdova, passada no Mosteiro de S. Miguel de Refojos.
Quem leu Camilo já tem uma pequena ideia do que foi sua vida. Foi bastante atribulada. Atrever-me-ia a dizer que a vida dele foi sempre de um enorme fatalismo. Certamente que teve imensos amores, com muitas mulheres à mistura! Por esse motivo se fala tanto nas mulheres de Camilo! Julgo que era filho de mãe incógnita. Sabia quem era o pai mas a mãe talvez fosse alguma criada ou alguma senhora “virtuosa” que não convinha que se soubesse que tinha um filho. Casou muito novo, aos dezasseis anos, com Joaquina, também menor, vindo então para Ribeira de Pena, onde tiveram um filho. Esse casamento apenas durou dois anos, tantos quantos os que ali viveu. Esse filho morreu e esse capítulo da vida dele passou um pouco à margem até porque ele também nunca tinha assumido muito este casamento. Teve no entanto para nós o condão de ele ter andado por estas Terras de Basto e a elas dedicar parte da sua obra, com especial realce para Ribeira de Pena e Cabeceiras de Basto.
Camilo Castelo Branco possuía umas características muito peculiares. A sua figura, pelo que conheço dos livros e, também se vê pelas fotografias existentes nas paredes da casa, não era por aí além… O seu rosto bastante magro e ossudo, era completado por um bigode fartíssimo e que lhe tapava a boca completamente. O bigode era a sua imagem de marca! Mas o certo é que tinha o charme para cativar pelo menos à primeira vista! Sem dúvida que o seu poder da oratória e, consequentemente o uso das palavras romanceadas contribuíam fortemente para arrebatar os corações mais sensíveis!
Já vos contei que Camilo e Ana Plácido tiveram dois filhos. O Jorge e o Nuno. O Jorge morreu novo. Tinha problemas mentais muito graves! Existe junto à escadaria da casa de Ceide uma árvore que já está seca há muitos anos mas, está emparedada com protecção em madeira que era onde o Jorge gostava de estar empoleirado imerso no seu mundo de alucinações. Acho que a sua demência era bastante agressiva. Até ideias incendiárias tinha! O Nuno, pelo que ouvi, foi um homem do tipo “bon vivant”! Casou com uma jovem senhora, bastante bonita por sinal, e penso que tiveram sete filhos. Há ainda uma descendente viva de Camilo junto à Casa de Ceide.
Certo é que Camilo não foi feliz com estes dois filhos. Por necessidades financeiras vendeu ou empenhou a sua obra. Por aquilo que vi é enormíssima, com mais de duzentos volumes!
Camilo era um maníaco compulsivo a escrever! Escrevia noite e dia quase sem ter descanso nos anos que viveu em Ceide e até à sua morte! Havia duas camas no grande quarto que dividia com Ana Plácido. Mas não estavam em paralelo uma da outra. Estavam sim uma para um lado e outra no outro extremo. Achei estranho a forma como as camas estavam expostas. Foi-nos explicado que era para não incomodar a Ana Plácido quando se levantava para escrever. Ele era um compulsivo, já o dissemos! Por esse motivo chegamos à conclusão que alguma da ansiedade e inquietação do Jorge era herdada do pai Camilo!
Os anos foram passando. Devido a uma vida de desgostos e de insatisfações e a morte do seu filho Jorge, Camilo sente a vida a definhar! E o maior desespero é ficar sem visão! Nos últimos anos é Ana Plácido quem escreve os seus romances ditados por ele. Mas para ele não é a mesma coisa! Não são escritos pelo seu punho. Não os “sente”! E, num dia de desespero infinito, mais propriamente na tarde de 1 de Junho de 1890 Camilo põe termo à vida, suicidando-se com um tiro na cabeça! Na sala, junto à cadeira onde se sentou para perpetrar o “encerramento” de uma vida cheia de emoções, de amores uns compreendidos outros não, de infortúnios, de injustiças, de tragédias, eu senti uma enorme tristeza ao imaginar o fim de um Homem que com os seus livros maravilhosos despertou a minha adolescência para a descoberta do amor!
Vim daquela casa cabisbaixa e pensativa. Deitei um último olhar de despedida àquele local. Pareceu-me ver por momentos Camilo e Ana Plácido pedindo ao seu filho Jorge para descer daquela árvore que hoje se vê seca e mirrada.
Termino com um soneto de Camilo, que de certa forma traduz o seu desespero quando se viu cego e abandonado pelos amigos e com a sua carta de despedida.

Os meus amigos

Amigos cento e dez e talvez mais,
Eu já contei! Vaidade que eu senti!
Pensei que sobre a terra não havia
Mais ditoso mortal entre os mortais.

Amigos 110, tão serviçais
Tão zelosos das leis da cortesia,
Que eu já farto de os ver, me escapulia
Às suas curvaturas vertebraes

Um dia, adoeci profundamente.
Ceguei. Dos 110 houve um somente
Que não desfez os laços quasi rotos.

Que vamos nós (diziam) lá fazer?
Se ele está cego, não nos pode ver…
Que cento e nove impávidos marotos!

Carta de despedida:
“Em 26 de novembro de l890.
10 horas da noite.
    Os inenarráveis padecimentos que se vão complicando todos os dias levam-me ao suicídio - único remédio que lhes posso dar. Rodeado de infelicidades de espécie moral, sendo a primeira insânia de meu filho Jorge, e a segunda os desatinos de meu filho Nuno, nada tenho a que me ampare nas consolações de família. A mãe desses dois desgraçados não promete longa vida; e se eu pudesse arrastar minha existência até ver Ana Plácida morta, infalivelmente eu me suicidaria. Não deixarei cair sobre mim essa enorme desventura - a maior, a incompreensível à minha grande compreensão da desgraça. Esta deliberação de me suicidar vem de longe, como um pressentimento. Previ, desde os trinta anos, este fim. Receio que, chegando o supremo momento, não tenha firmeza de espírito para traçar estas linhas. Antecipo-me à hora final. Quem puder ter a intuição das minhas dores, não me lastime. A minha vida foi tão extraordinariamente infeliz que não podia acabar como a da maioria dos desgraçados. Quando se ler este papel, eu estarei gozando a primeira hora do repouso. Não deixo nada. Deixo um exemplo. Este abismo a que me atirei ‚ o “terminus” da vereda viciosa por onde as fatalidades me encaminharam. Seja bom e virtuoso quem o puder ser”.

fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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