Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 24-03-2008

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

(continuação-28)
O traçado tem um declive fortemente acentuado, ultrapassa os dez por cento na maior parte da sua extensão. A força das seis juntas de bois era utilizada apenas para puxar o cilindro no sentido ascendente. Quando era a descer, o colosso de granito era conduzido por quatro homens que, em dois pares, agarrados a dois travessões que trespassavam a cabeçalha, um mesmo na extremidade, outro metro e meio atrás, e um artesanal mas sofisticado sistema de travões, formado por dois barrotes de madeira encaixados em duas alavancas, uma de cada lado, através das quais, cada um de outro par de homens, com uma perícia de verdadeiros especialistas, regulavam o andamento em descida. Quatro homens conduziam o cilindro e dois ocupavam-se do sistema de travagem. Eram, portanto, seis os operadores da pesadíssima máquina.
O cilindro tinha que fazer o percurso da descida muitíssimo devagar, não podia ganhar embalagem, pelo que os dois homens das alavancas dos travões artesanais, o faziam parar, efectivamente, a cada cinco metros do percurso. A extensão de dois quilómetros de estrada, que era o troço que se encontrava em compactação, demorava um dia inteiro a ser percorrida. Então os trabalhos prosseguiam da seguinte maneira: num dia o cilindro era puxado, vagarosamente, pelas seis juntas de bois no sentido ascendente, demorava cerca de quatro horas. Terminada a subida, o gado ia pastar e descansar. No dia seguinte, os seis homens, quatro a manobrar o cilindro, e dois a tomarem conta do sistema de travagem, conduziam o colosso no percurso descendente. Refira-se que era bastante mais arriscado o percurso da descida do que o da subida.
O Manuel Carlos, que por esta altura, e depois de o brasileiro ter desistido do projecto da mina, se encontrava sem trabalho, tinha procurado novamente a sua sorte nos trabalhos da estrada, mesmo sem convidar o brasileiro para o levar pelo sítio do Nariz do Mundo, como em tempos tinham, mais ou menos, combinado. O empreiteiro foi sincero, dizendo-lhe que a obra estava em fase mesmo terminal, mas como já conhecia as suas qualidades de trabalho, em particular o seu jeito para rampeamento e arranjos de bermas e valetas, admitiu-o sem quaisquer rodeios. No primeiro dia de trabalho, uma segunda-feira, foi desde logo integrado na equipa dos dois homens que se encarregavam do sistema de travagem do cilindro.
Não obstante a perícia e o cuidado com que os seis homens faziam a manobra da descida, no percurso de dois quilómetros, que demorava cerca de dez horas, um dia aconteceu uma terrível tragédia, um desastre de trabalho. Tinham terminado o intervalo para comerem a bucha do meio-dia e recomeçado o período de trabalho da tarde, quando o cilindro começou a rolar. Passados os cinco primeiros metros, os dois homens das alavancas dos travões não conseguiram imobilizá-lo, andou mais, e outros cinco, sem que conseguissem abrandar a velocidade, antes pelo contrário, esta foi aumentando a cada metro que era galgado. Num último esforço, o Manuel Carlos conseguiu atirar com um rebo para a frente do enorme rolo de pedra, que o apanhou do lado direito, fazendo com que guinasse para a parte de cima e fosse de encontro ao talude. Com o impacto, a cabeçalha fez de catapulta, e dois dos homens que a seguravam, não tiveram a destreza de a largarem a tempo, foram lançados pelo ar, a mais de trinta metros de distância, indo cair no meio de uns penedos e umas giestas, do lado de cima da estrada. Ficaram gravemente feridos. Foram transportados ao hospital da Misericórdia de Cabeceiras, na carrinha do empreiteiro, depois seguiram para o hospital de S. Marcos, em Braga, no carro de praça do Ricardo.
Depois de ter tabelado no morro do lado de cima, o cilindro recuou para o centro da estrada, não apanhou o Manuel Carlos por uma unha negra e precipitou-se pela ribanceira do lado esquerdo, com grande estrondo, levando grandes penedos à sua frente e pisando tudo o que eram árvores ou arbustos. Um rapaz, que guardava um rebanho de cabras, que eram da casa do Fraga de Teixogueiras, e pastavam no fundo da encosta, escapou por um triz ao abrigar-se por baixo de um grande penedo, que fizera de rampa de lançamento ao cilindro, levando-o a dar um salto de cerca de quarenta metros. Ao bater no chão, na confluência da ribeira que desce das Trancadetas das Torrinheiras com a outra ribeira que dá origem ao rio do ouro, e que vem das faldas de Magusteiro, matou dez cabras do rebanho que o rapaz guardava.
Os trabalhos foram suspensos, e a empreitada terminou, no ponto em que se encontrava. De facto, estava quase no fim. A compactação do macadame era já suficiente para o peso do pouco tráfego automóvel, que a estrada iria suportar, nos primeiros dez ou vinte anos de funcionamento. Quinze dias mais tarde, foram chamados apenas quatro homens, para terminarem o arranjo de cerca de duzentos metros de valetas, que estavam por terminar. O Manuel Carlos ficou, novamente, sem trabalho. Estávamos em Junho de 1950.

***

Entretanto, a 22 de Dezembro de 1949, tinha nascido o quarto filho do casal, era uma rapariga, a quem foi dado o nome de Maria. O Zé brincava, nos caminhos da Cruz do Muro, com outros rapazes. Os filhos da Amelinha eram os que ficavam mais próximos, e por essa razão eram aqueles com quem o Zé arrebanhava. Porém, eram todos mais velhos do que ele, alguns mesmo já muito espigadotes, o mais novo tinha seis anos e o mais velho, do grupo dos que ainda não trabalhavam, tinha onze, eram três: o Evaristo com onze anos, o Amadeu com nove e o Francisco, chamado Chico com seis, quase sete. O Zé tinha cinco anos, era o matraquilho do grupo, e por isso sempre sujeito às maiores judiarias, mas nem por isso largava de os acompanhar. Escusado será dizer que, tudo o que fosse feito de errado, era culpa do Zé.

Por: Torcato Santiago

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.