Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 03-03-2008

SECÇÃO: Opinião

BARCO À VELA

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POLíTICA 1

1. Há dias, o senhor primeiro-ministro insurgiu-se contra determinados funcionários públicos, que o vaiaram, acusando-os de fazerem (sempre) a mesma coisa nos últimos trinta anos.
2. Num arroubo de impaciência, desvalorizou os protestos, porque se tratava (explicou) de organizações sindicais, mentoras prováveis destes desabafos públicos e indelicados.
3. Eu tenho uma novidade para o senhor primeiro-ministro. Nos últimos trinta anos, é verdade, há este hábito de os cidadãos se manifestarem, publicamente, quando se sentem injustiçados ou perseguidos. E é também verdade que há sindicatos, nestes últimos trinta anos, que organizam movimentos de contestação e fazem ouvir, sempre que possível, a sua voz. Mas ambas as circunstâncias têm uma explicação: chama-se 25 de Abril de 1974. Ao que julgo saber, é possível, desde essa data, discordar do governo e fazer manifestações.


POLÍTICA 2


1. A Dra. Ana Benavente, talvez a pessoa, da área do Partido Socialista que mais sabe de política educativa, veio a público pôr em causa a bondade das medidas que o Ministério da Educação tem vindo a tomar. Segundo esta especialista no fenómeno, além de erradas e injustas, as medidas (que põem em causa a gestão democrática das escolas e a justa avaliação do desempenho dos professores) são tudo menos “socialistas”.
2. A constatação não me surpreende, por dois motivos: porque é verdade e porque eu próprio, que ajudei a eleger a maioria absoluta, ando há mais de um ano à procura do partido em que votei nas últimas legislativas. Desapareceu. Ainda me lembro, com saudade, de um tal deputado José Sócrates se insurgir, fazendo eco das manifestações de docentes e sindicatos respectivos, contra a falta de respeito que Durão Barroso e Santana Lopes dedicavam, à época, aos professores portugueses. Era o tempo em que a indignação e a revolta eram justas e não apenas uma simples azia de sindicatos “comunistas” (!).
3. Manuel Alegre, com algum incómodo, interroga-se sobre o paradeiro do “seu” Partido Socialista. Desconfio que o seu é também o meu.

RIO DAS FLORES


1. Uma colaboradora deste jornal, no último número, dedica um texto encomiástico ao livro de Miguel Sousa Tavares, “Rio das Flores”. Respeito essa opinião. Mas eu já li esse romance e também quero dizer algo: não presta.
2. O autor escreve mal, estando literariamente entre a Margarida Rebelo Pinto e um guião de novela da TVI. A sua presunção “histórica” é feita de colagens (fáceis e quase sempre a martelo) de apontamentos enciclopédicos que, depois, plasma na sua história, sem beleza nem pertinência narratológica. O estilo é muito fraquinho – e nem o decoro do pontual “compadre” Vasco Graça Moura, que elogia a obra a convite do respectivo autor, consegue disfarçar a vulgaridade de “Rio das Flores”. Da confusão que Sousa Tavares faz entre “realizar” (do Inglês “to realize”) e “perceber”, até debilidades sintácticas (como usar “doravante” num tempo diegético muito anterior ao tempo da acção narrada, em vez de usar “a partir desse momento” ou algo semelhante – e outros erros de palmatória que, com mais tempo, poderei demonstrar), passando por clichês de fazer corar alunos do básico (como essa de “uma noiva que estava linda como todas as noivas, só que esta era mesmo linda de si” – cito de cor), toda a obra é genericamente medíocre. Vista a essa luz, até “Equador”, do mesmo autor, parece boa literatura.
3. Por pena, evito cotejar Miguel Sousa Tavares com escritores a sério, da contemporaneidade (como Mário de Carvalho, Mário Cláudio, José Luís Peixoto, Luísa Costa Gomes, etc.), e muito menos com “monstros” recentes (como Torga ou Vergílio Ferreira). Percebemos (ou, como diria Sousa Tavares, “realizamos”) que a televisão e os amigos certos fazem o sucesso literário.

Por: Joaquim Jorge Carvalho

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