Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 03-03-2008

SECÇÃO: Opinião

(A propósito de bloguistas, retratistas e outros quejandos cá do burgo...)
Por favor, um passo ao lado!

1. Aquele “biblôt” redondo e volumoso, que a minha mulher teima em manter em cima da mesinha da sala e me impede de ver por inteiro ecrã da televisão, quando recostadamente devoro jogos sucessivos de futebol, está a pôr-me a cabeça em água lá em casa:
- Oh homem, muda-te de lugar, tens tanto onde te sentar! - Diz-me a esposa.
Tem razão. O sofá gémeo, mesmo ao lado, dispensa-me a mesma comodidade e dá-me melhor outro ângulo de visão.
2. Aquele enorme lampião, que se acende e apaga (às vezes pisca), que a EDP instalou num poste da minha rua, mesmo em frente à janela do meu quarto, mais precisamente, no alinhamento do travesseiro onde repouso a cabeça, levou-me o “stress” a níveis insuportáveis. Se fecho a persiana, não suporto a claustrofobia, se a mantenho aberta, sou massacrado por rajadas intermitentes de luz, toda a noite. Queixoso, dou azo ao meu desalento, rebolando-me na cama, cobrindo o rosto com lençóis, cobertas, cobertores, “edredões”, com tudo o que possa livrar-me daquele enorme pesadelo!
- Oh homem, passa-te para este lado, eu não me importo e daqui já não se vê. – Diz-me a mulher.
Aceito. Dou o salto, e adormeço tranquilamente.
3. Aquele cipreste piramidal, que há meia dúzia de anos plantei e tantas vezes reguei, cresceu. Cresceu ao ponto de me tapar a mais bela paisagem do mundo, aquela sobre a qual bocejo todas as manhãs da minha janela, o monte da Senhora da Graça, ao longe, e o Jardim da Praça com o Mosteiro a meus pés. Já pensei dar o golpe fatal à resinosa, pela raiz, mas o bom senso levou-me a partilhar a opinião com a minha companheira, que me disse: - Olha que da janela ao lado vê-se melhor. Juro que não me tinha apercebido desta verdade tão evidente.
4. Aquele candidato autárquico que numa campanha eleitoral de tempos idos, engendrou uma montagem fotográfica num panfleto publicitário no qual aparecia, em grande pose, quase de mão dada com Sua Santidade, o Papa (que Deus haja)! Consta, porém, que esse candidato nunca terá ido a Roma, nem sequer ao Sameiro, contudo, registe-se, ganhou as eleições…
– Que atrevimento! Resmunguei.
Mas logo, a voz meiga e apaziguadora das minhas emoções me repreendeu:
- Deixa lá, homem! Cada qual escolhe a cama em que se deita! … Olha que se ele nunca viu o Papa, muito provavelmente gostaria de o ver ! Só vai na onda quem quer…
Desta vez mergulhei silenciosamente no meu ego e não respondi. Contudo, murmurei para mim. É capaz de ter razão…
5. Aquele T2, em Braga, no primeiro andar de um prédio de uma urbanização, próximo da Universidade era lindo, com vista panorâmica para a encosta do Bom Jesus, de onde quase se podiam contar as capelas daquela enorme escadaria! No dia da escritura, o empreiteiro jurou a sete pés, que jamais alguém ali iria construir em frente… porque o terreno era do Estado, do Ministério da Agricultura, reserva agrícola, etc. e tal. Qual o meu espanto quando, poucos anos depois, o edifício do meu apartamento era engolido em circulo por prédios de doze pisos…
- É a "civilização": Disse para comigo.
Agora, para mostrar onde fica o Bom Jesus aos meus amigos, faço da rua sala de visitas e aponto com o dedo, por entre arranha-céus, uma nesga da encosta distante.
6. Em conclusão, segundo as leis da física, toda a matéria faz sombra e ocupa lugar. Ponto final.
Vem isto a propósito do nosso majestoso Mosteiro de S. Miguel, monumento nacional, ex-libris e epicentro do crescimento urbano emergente na vila de Cabeceiras de Basto.
É inquestionável, louvável até, que todos nós cabeceirenses, estejamos atentos e interessados em proteger o nosso património arquitectónico e o seu espaço envolvente, de forma a salvaguardá-lo dos apetites vorazes, pelo lucro fácil, de construtores e promotores imobiliários.
Mas, sejamos justos e claros: Haverá alguém neste concelho mais empenhado na defesa e preservação do nosso Mosteiro do que o actual Presidente da Câmara Municipal e a sua equipa? Haverá ainda quem desconheça que a urbanização da Quinta do Mosteiro, obedece a um Plano de Pormenor aprovado pelo Estado, plano esse que a Câmara Municipal está obrigada a cumprir e fazer cumprir? Desconhecerão os leitores os motivos pelos quais alguns prédios em construção na Av. Sá Carneiro demoraram tanto tempo a ser licenciados? E os embargos entretanto levantados aos que teimam não cumprir? Haverá quem já se tenha esquecido da resistência movida, com recurso atrás de recurso, até aos tribunais, do ex-proprietário dos terrenos do actual “Parque do Mosteiro”, contra a expropriação que lhe foi movida pela Câmara Municipal, de forma a evitar que aquela área tivesse caído nas mãos de interesses privados que queriam fazer daquilo uma área construtiva, até à ribeira, a menos de vinte metros das paredes da Igreja?
Sejamos razoáveis! Tenhamos a capacidade de enquadrar a imponência e a beleza do Mosteiro na realidade urbana e civilizacional do nosso tempo.
Já, porventura, alguém viu catedrais implantadas no meio do deserto, em jeito de monumento faraónico? Nem os monges de outras eras pretenderam ir tão longe, pois se assim fosse, teriam impedido a construção de casas e muros em redor do seu convento e até o cultivo e plantação de cereais e árvores que impedissem uma melhor visibilidade do mesmo.
Perguntem a alguns “blooguistas”, retratistas e repórteres cá do burgo qual a intenção ou os motivos subjacentes à foto difusamente divulgada, tirada por detrás das vigas de um prédio em construção na Av. Sá Carneiro, a mais de 100 metros de distância, para obter a imagem mais desfocada, mais desfigurada, do que é para nós a maior jóia cá da terra, o Mosteiro e as suas torres. Seria bem mais fácil e útil, conhecê-las por dentro, subir pelas escadas até ao zimbório e contemplar o encanto da paisagem e a beleza e a grandeza desta terra em franco desenvolvimento.
Há uma fábula bem conhecida “o menino velho e o burro”, que nos deixa um ensinamento que deveríamos assimilar desde crianças, não deveremos ver as coisas apenas pelo lado mais simples ou conveniente. Quantas vezes bastaria dar um passo ao lado (à direita ou à esquerda, não importa), para ter outra visão da realidade e alcançar horizontes que a “objectiva” só por si, não capta, caso “o fotógrafo” assim não o queira.
A estes, e aos seus mais apaniguados seguidores, deixo uma sugestão, para um exercício muito simples: Coloquem-se, agachados, por trás das costas de um “Judas” qualquer, e vejam se lhe conseguem ver a cara…

P. L.

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