Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 03-03-2008

SECÇÃO: Opinião

Uma visão apaixonada

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O Mosteiro de Refojos

A primeira coisa que faço todos os dias, ao levantar-me pela manhã, é olhar da minha janela, do quarto andar, e deitar os olhos sobre a Praça da República para ao mesmo tempo observar o grandioso Mosteiro de Refojos!
Não posso deixar de observar também a paisagem circundante e os montes e as montanhas que consigo ver ao longe, sendo que o Monte da Orada é o que tenho mais próximo da minha visão. Reparo nele todos os dias mesmo que não queira. Foi um hábito que adquiri. Talvez seja por ter lá bem no alto uma ventoinha eólica. De maneira que todos os dias reparo se as pás têm mais ou menos velocidade, indicador seguro de que corre mais ou menos ventania.
E este ritual repete-se todas as manhãs, e com a cara encostada aos vidros da janela, aguardo que o café vá subindo na cafeteira e inundando a casa desse cheirinho maravilhoso que nos dá uma energia (algo excitante) para empreender um dia de labuta, rotineira ou não, quem sabe…
A magnífica arquitectura lateral do Mosteiro de S. Miguel de Refojos
A magnífica arquitectura lateral do Mosteiro de S. Miguel de Refojos
E é neste divagar de pensamento e de observações que me surpreendo a admirar a grande transformação de Cabeceiras no decorrer destes meus cinquenta e cinco anos! Foi uma transformação e um crescimento abismal, aliás por todo o concelho! Mas, tal facto não prejudicou a beleza e as características próprias deste concelho de interior encravado num vale. Antes pelo contrário. O verde dos montes das serras de Abadim, do Outeiro, Água Redonda, os montes a subir para a Orada, o Monte de Santa Catarina e, mais ao longe, o imponente Monte da Senhora da Graça realçam ainda mais as belezas da vila!
Ladeando as novas avenidas nascem a todo o momento novos prédios de apartamentos em que os engenheiros e construtores tiveram um especial cuidado com a sua arquitectura de modo a não ferir e a condizer com a imponência magnífica do Mosteiro de Refojos!
Tais construções ainda o fazem destacar mais dando-lhe brilho especial! Aliás todos os mosteiros beneditinos que eu conheço têm um esplendor ímpar!
Os claustros do Mosteiro com os seus belíssimos arcos romanos
Os claustros do Mosteiro com os seus belíssimos arcos romanos
Talvez muitos de vós que ledes estas crónicas não estejais de acordo com estes meus adjectivos e o meu modo de pensar acerca disto um pouco exagerado. Alguns dirão certamente que eu sou uma saudosista, uma nostálgica e que vejo as coisas muito romanticamente. Talvez você leitor, ache que esta transformação em volta do Mosteiro foi demasiado rápida, que os campos da Quinta do Mosteiro não deveriam desaparecer mas, penso que este começo de uma nova cidade já pecou por se atrasar bastantes anos. Mas ainda foi a tempo e certamente ainda estará melhor dentro de poucos anos!
Acho que o crescimento desta “pequena cidade” está no bom caminho, já faz parte do roteiro das viagens turísticas, é visitada diariamente por muita gente de fora e, também por turistas estrangeiros, graças aos óptimos meios de comunicação que hoje temos!
E é assim que no seguimento de alguns escritos sobre a história cabeceirense hoje me vou referir ao Mosteiro de Refojos,.
S. Bento e Stª Escolástica na parte frontal do Mosteiro S. Miguel de Refojos
S. Bento e Stª Escolástica na parte frontal do Mosteiro S. Miguel de Refojos
Como é do conhecimento geral, este mosteiro é um convento Beneditino, tal como o Mosteiro de Tibães, embora com algumas diferenças. Vou transcrever alguns textos insertos na monografia de Cabeceiras de Basto de Victor Cunha, há cerca de sessenta anos. Estará algo incompleta, ouço dizer.
Devido ao interesse e curiosidade demonstrada pelos leitores do Ecos de Basto, jornal onde trabalho e do Diário do Minho onde colaboro de vez em quando sob o título genérico de “Pela História Cabeceirense”, vou transcrever esses textos tal e qual como aparecem na referida monografia e que, digo e repito, não são da minha autoria.

“O Mosteiro de Refojos

Fundação

O zimbório do Mosteiro de S. Miguel de Refojos
O zimbório do Mosteiro de S. Miguel de Refojos
O Mosteiro de Refojos fica situado em pleno coração da vila. A sua sumptuosidade comprime os corações domina, pela sua imponência, todos os edifícios que lateralmente ornam o largo. É o monumento português que mais se assemelha com a famosa Basílica da Estrela que a Rainha D. Maria I erigiu em Lisboa.
A história do Mosteiro de Refojos é a história da freguesia ou antiga vila de Refojos de Basto a que D. Dinis deu foral em 1307 e D. Manuel I foral novo em 1514.
Perde-se na noite dos séculos a história da fundação do Mosteiro de Refojos. Sumptuoso convento de monges beneditinos, teria sido fundado no ano de 670 pelo rico-homem Hermígio Fafes, reinava Recesvindo, filho do rei godo Chindasvindo. No entanto, alguém afirma que o fundador teria sido D. Gomes Soeiro (?) cujo retrato, um grande quadro a óleo guardado no salão do capítulo, ostenta a célebre legenda: D. Gomes Soeiro, fundador deste mosteiro, em 670 (?).
Durante a dominação árabe não deixou de lá ser praticada a religião católica, florescendo mesmo no aumento dos seus religiosos que foram, naquela remota era, em número de 67.
No século XI viveu um «dommo» Mendo, um dos mais antigos possessores, talvez o Abade D. Bento Mendes que comprou a D. Afonso Henriques, o couto de Refojos, por 800 morabilinos, como consta de um quadro que representa o D. Abade fazendo entrega da quantia a El-Rei, e recebendo dele a carta de mercê que reza assim, na tradução portuguesa:
- “Eu, Egrégio D. Afonso, por amor de vós, Bento Mendes, que muito estimo, faço couto para o mosteiro de Refojos, firme e valioso, por oitocentos morabilinos, que de vós recebi, e tudo quanto nele pertence, dou por livre e absoluto, etc.”
O Mosteiro era governado por abades perpétuos, mas no reinado de D. Duarte passou a sê-lo por abades comendatários, que frutam benefício de comenda (Comenda – benefício antigamente concedido a eclesiásticos e a cavaleiros de ordens militares). Isto no ano de 1428, ainda que certos autores, como Pinho Leal, sustente a data de 1403, reinando D. João, o da Boa Memória. D. Gonçalo Borges foi o primeiro Abade Comendatário que com grande ostentação logrou aquele lugar trinta e quatro anos, no fim dos quais lhe sucedeu, por renúncia sua, seu sobrinho Dom Diogo Borges.
Dom João III doou-o em 1525 a seu filho bastardo D. Duarte, arcebispo de Braga e prior – mor de Santa Cruz de Coimbra e mais tarde a Frei Diogo de Murça que obteve do Papa Paulo III um breve para se extinguir o convento e, com as avultadas rendas dele, fundar em Coimbra os colégios de S. Bento e S. Jerónimo, empregando ainda o remanescente na fundação de um instituto para doze eclesiásticos pobres (1549).
Os frades de Refojos recorreram e tão boas e sábias razões alegaram que o próprio Frey Diogo de Múrcia que aqui fez grandes obras, requereu ao Pontífice a conservação do Mosteiro e foi o Papa Paulo IV, que em 1555, autorizou a conservação do convento. E daí até 1570, data em que Frey Diogo morreu, sendo sepultado na capela – mor, não cessou a sua iniciativa de fomentar os acrescentamentos desta casa religiosa, que só em 1690 de todo se concluiu, ficando então um dos mais sumptuosos monumentos da província.
Em 1570 entraram os abades trienais pela reforma ordenada pelo Papa Pio V. A sua História continuou depois, sem grandes mudanças, mas começou a decair do seu fausto antigo, sendo, por várias vezes, colégio de ordem, e em 1834 ainda tinha 1 abade, 1 prior, 12 monges e 25 criados. A sua famosa e valiosíssima biblioteca foi mandada para Braga, em 1838. Além dos livros roubados durante os quatro anos em que esteve ao abandono, após a supressão das ordens religiosas (1834), foi o resto tão mal acondicionado que muitas se perderam pelo caminho.
Após a extinção das Ordens Religiosas foi o mosteiro vendido, pertencendo hoje aos Monumentos Nacionais, estando instalado nele os Paços do Concelho e diversas repartições públicas e o Colégio de S. Miguel de Refojos. A Igreja é hoje a Matriz da freguesia de Refojos, cujo padroeiro é o Arcanjo S. Miguel.

As rendas do Mosteiro

O Mosteiro de Refojos foi um dos mais ricos do Minho. Entre as muitas possessões do Mosteiro, já nos meados do século XIII se contam: domínios na «terra» de Fafe, em Celorico de Basto e em Cabeceiras de Basto. Nesta vila devemos citar: cinco casais em Santa Senhorinha, oito em Baúlhe, nove em Pedraça, dois em Cavez, dois em Painzela e onze em Riodouro.
Possuía muitas rendas na província de Trás - os – Montes que dividia com a casa de Bragança, as quais lhe foram doadas por Vasco Gonçalves Barroso, primeiro marido de D. Leonor de Alvim e que neste mosteiro foi sepultado. D. Vasco unicamente doou aos monges a sua meação e é por isso que a de sua mulher veio depois a ser da casa de Bragança.
Os monges mandaram para Coimbra 3.500 cruzados (1.400$000 réis) ficando para eles 300 cruzados, dos foros e das rendas, mas ficando com o direito de padroado sobre todas as igrejas anexas com os seus dízimos, o que montava ainda à grandiosa soma 13.000 cruzados anuais, o que tornava este convento um dos mais ricos da Ordem Beneditina.
Ao mosteiro, pertenciam ainda todos os direitos do couto e as penas ou multas por transgressão de posturas, sendo o prelado do convento ouvidor nato do seu couto, tanto no cível como no crime.”
Como a história do Mosteiro de Refojos é riquíssima, tentarei completa-la através de pesquisa, reforçando-a com mais dados num próximo número.

fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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