Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 03-03-2008

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

(continuação-27)
Concluída a vivenda, o João Coelho procurou logo que fosse puxada a electricidade até à sua residência. Era preciso comprar um rádio, para ouvir as notícias de Lisboa e do mundo. Foi instalada uma linha de baixa tensão entre a Ponte de Pé e a sua vivenda, com doze postes de cimento e dois fios eléctricos, estes fixados a cada um dos postes por meio de armação de ferro e copos cerâmicos. A linha seguiu à margem do caminho, passando junto às casas do Leopoldo, do Caetano, do Pial, da Maria Teresa e da Capela da Senhora da Saúde, mas não ficou luz eléctrica instalada em qualquer das casas por onde passava. O único utilizador, ou beneficiário, como se queira dizer, era apenas o brasileiro. Ficou, porém, um pequeno benefício para o público: poste sim, poste não foi instalada uma lâmpada de iluminação pública.
O povo, destes lados da freguesia de Refojos, passou a poder deslocar-se à igreja com mais segurança, quando, pela Quaresma, madrugada cedo, ia assistir às pregações preparatórias da desobriga. As pessoas diziam que viam um grande clarão em volta das lâmpadas, que estavam fixadas nos postes, quando estas estavam acesas. A explicação, para o fenómeno óptico, foi dada pelo brasileiro, e, segundo ele, era devida a terem os olhos congestionados pelo fumo das lareiras e das candeias de petróleo. De facto, veio a verificar-se que esta anomalia óptica era mais evidente no Inverno do que no Verão, concluindo-se daí, portanto, que as pessoas de Verão não estavam tanto tempo à lareira, nem se utilizavam tanto tempo da luz das candeias de petróleo, logo, não se verificava o aludido congestionamento dos olhos.

***
À enorme seca que se verificou no Verão de 1949, que conduziu a que os pobres jovens caseiros tivessem que largar da Eirinha, sem qualquer produto, que tivesse resultado, de todo um ano de intenso trabalho, seguiu-se um Inverno rigorosíssimo, ou seja, os últimos dois meses do ano de 1949 e os primeiros três meses do ano de 1950. Em princípios de Fevereiro caiu um dos maiores nevões de que havia memória. A neve manteve-se, no caminho que passava em frente do casabre, por mais de uma semana, sem derreter. O sustento da família provinha, em absoluto, de um ou outro dia de jorna que o Manuel Carlos pudesse ganhar. Era extremamente escassa a oferta de trabalho a qualquer jornaleiro. Só por muito favor é que se conseguia, de vez em quando, um simples dia de trabalho, plantando uma horta, semeando uma leira de batatas, ou podando umas videiras, na tempo da poda, ou ainda sulfatando-as no devido tempo.
Por esta altura, o Senhor João Coelho tinha comprado uma pequena propriedade composta por um tosco casebre, só com uma divisão, duas ou três leiras e um pedaço de monte, com alguns pinheiros pequenos, que se chamava a Quinta da Formiga, e ficava no meio do monte, a pouco mais de um quilómetro da sua vivenda, na Cruz do Muro, para quem segue pelo caminho no sentido de Cambezes. O terreno era extremamente seco, mas, mesmo assim, o brasileiro lembrou-se de fazer ali uma mina, com a intenção de trazer a água para alimentar uma fonte de água corrente, que daria para um tanque, a construir no quintal em frente à vivenda.
Aproveitou a oportunidade de o Manuel Carlos se encontrar sem qualquer trabalho permanente, para o contratar para os trabalhos de rompimento da mina. Do mal, o menos, o pobre do operário teve trabalho para uns quatro ou cinco meses, a ganhar treze escudos por dia. Dois anos antes, nos trabalhos de construção da estrada da Urtigueira, ganhava dezoito escudos diários. O brasileiro era um pequeno explorador, e frequentemente pronunciava a frase “a coisa está ficando preta”, o que irritava, de sobremaneira, o nosso Manuel Carlos. A verdade também é que, e não obstante o facto de se ter verificado um Inverno extremamente chuvoso, a mineira não havia meio de dar água. Ao fim de quarenta metros de avanço na escavação, o Senhor João Coelho desistiu do projecto.
Ao contrário do marido, a Senhora Dona Piedade era uma jóia de pessoa, foi ela quem foi valendo, durante bastante tempo, quase sempre às escondidas do marido, ora com uns pedaços de pão, ora com uma mão cheia de couves, à pobre da Maria Margarida, para que esta fosse mitigando a sua fome e a dos três filhos. Mas as ajudas da Dona Piedade não davam para todos os dias e o Zé, com os seus quatro anos feitos, tinha que ir, a mando da mãe, pedir a este ou aquele caseiro, das redondezas, umas vezes um bocado de pão, outras vezes uma mão cheia de couves, para fazer um pote de caldo, umas vezes com um pingo de azeite, outras vezes sem azeite algum.
O casebre da Cruz do Muro não dispunha de qualquer canto de terreno onde se pudesse plantar meia dúzia de pés de couve. Porém, a partir do segundo ano, a Maria Margarida conseguiu que o Senhor Francisco Marceneiro lhe dispensasse um pequeno canteiro do seu quintal onde ela passou a plantar um bocadinho de tudo, isto é, couves, feijões de subir, cebolas e até um pedacito de batatas. A terra era seca, não havia água que corresse, pelo que no verão a Maria Margarida mantinha o seu pequeno canteiro viçoso à força de baldes de água que transportava do rego que passava do outro lado do caminho, junto às traseiras da casa do brasileiro. Era, sem dúvida, um trabalho penoso, mas conseguia, pelo menos, ter algo com que pudesse fazer um pote de caldo.
Em princípios do ano de 1950 encontravam-se, em fase de conclusão, os trabalhos de construção da estrada nacional 311. Estava a ser colocado o macadame no último lanço, que terminava no limite do concelho de Cabeceiras, entre os lugares de Magusteiro e de Lodeiro d‘Arque. Um cilindro de granito, com o peso de três toneladas, era puxado por seis juntas de bois. Todos os bois tinham os cascos protegidos por ferraduras, como as dos cavalos, para que pudessem resistir ao atrito do cascalho, que era compactado pelo peso do cilindro.
(Continua - 28)

Por: Torcato Santiago

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