Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 11-02-2008

SECÇÃO: Opinião

BARCO À VELA

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Postal (Não Ilustrado) do Desencanto

1. Sou professor de Portu guês. Apesar disso, gosto de ler.
2. O quotidiano dos professores é hoje uma floresta, se não de enganos e desapontamentos, de legislação incontinente, que lembra fenómenos de tsunami, avalanches de neve a preto e branco, intempéries ameaçadoras, decretos, circulares, estatutos, formulários, grelhas, percentagens, quotas, literatura de urgências e medos. Confesso que prefiro a Menina e Moça, do Bernardim Ribeiro, mas sei que isso me fica mal.
3. Vivo num lugar chamado Desencanto. Não há muito tempo, era feliz. A minha profissão era um espaço de liberdade e de cultura, onde o mais importante das horas tinha a ver com literatura, língua, cidadania, contacto vivo com colegas, alunos, famílias. Os papéis, nesse tempo (há tanto tempo, ainda agora) eram meros auxiliares da minha vida. Se então alguém dissesse que o principal eram os papéis, nós teríamos rido e dito que tal era impossível. Ou que, se algum dia acontecesse uma coisa dessas, a nossa felicidade morreria às mãos cruéis do Desencanto.
4. Nos últimos meses, tenho andado por reuniões, palestras, acções de formação. Técnicos, quase todos cépticos e tristes, peroram sobre os novos tempos e sublinham, com fera determinação, a responsabilidade que os professores titulares terão, futuramente, na avaliação dos colegas não titulares. E toda a gente, à minha volta, começa a fazer contas a quotas, e a ver onde pode ser melhor que os colegas, e a calcular como os objectivos e as metodologias e os resultados podem brilhar melhor nos relatórios a haver. Eu gostava de ter tempo para ler outra vez Bernardim, ou Mário de Carvalho, ou Ruy Belo, ou Sophia. E tenho saudades de não me preocupar senão com alunos em risco (que não gostam de Matemática e faltam às aulas de apoio), ou com o Clube de Jornalismo, o Clube de Teatro, a sessão de poesia, cinema & música para o próximo 14 de Fevereiro.
5. Tenho encontrado outros desencantados como eu, nas esquinas de um clichê que, há anos, me fez rir superiormente: “se me saísse o totoloto, deixaria a profissão…”
6. Nasce-se e morre-se; é tudo muito curto e, por isso, muito triste. Mas, entre o primeiro e o segundo verbo, vive-se e ama-se. Isso devia tornar tudo menos triste. O meu problema com a minha profissão é este desencanto. O desamor devindo do cansaço. A velhice antes da velhice.
7. Talvez esta nova escola, de grelhas e quotas e percentagens e desconfianças e medos, seja a modernidade. Mas, então, eu sou um antigo convicto. Um antigo do tempo em que ser como eu era se chamava modernidade. Sou da minha própria modernidade e gosto muito de ler (Bernardim e outros).
8. Tenho, modéstia à parte, sido um bom professor. Sei-o, perdoai os desconfiados, pelos meus alunos; pelos meus colegas; pelos pais dos meus alunos; pelo sentimento (grato e geralmente secreto) do dever cumprido. Mas dificilmente isso se afere pelo industrial método desta modernidade horrenda para onde a vida me trouxe.
9. Talvez eu já não seja deste tempo. Talvez eu já não seja daqui. Talvez eu seja um fantasma. Não sei se a legislação permite desabafos assim, mas aqui declaro que estou cansado. Quase farto. Aliás: farto.
10. Dai-me, Deus, uma morte digna. Um acidente súbito que reverta o valor do seguro de vida para a minha família. Ou a reforma antes dos 65 anos. Ou o totoloto.

Por: Joaquim Jorge Carvalho

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