Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 11-02-2008

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

Por: Torcato Santiago

(continuação 26)
O judeu despediu-se, dizendo que voltaria a passar por ali, e que, se entretanto soubesse de alguma coisa, ficaria muito grato por qualquer informação.
À hora do jantar, o João contou à mulher o episódio da abordagem do judeu. A Dona Piedade, que já trazia em mente, há muito tempo, a ideia de propor ao marido a venda de todos os bens que tinham no Brasil, e o regresso a Portugal, que ela própria ainda não conhecia, e ainda mais porque não tinham descendência para deixar no Brasil, não perdeu a oportunidade de sugerir ao marido que, quem sabe, o judeu poderia vir a interessar-se pela compra do seu próprio estabelecimento e, que por isso mesmo, não deveria deixar passar em branco tal possibilidade.
Assim foi, passados cinco dias, o judeu apareceu novamente dizendo que tinha percorrido uma grande distância, em redor, e que não lhe tinha aparecido nada a contento. O João puxou conversa no sentido de lhe sondar as possibilidades, em termos financeiros, de ele poder comprar aquele pequeno império, que via ali, à frente dos seus próprios olhos.
Foi rápido o acerto, e foi rápida a decisão. Em duas semanas estava o estabelecimento registado em nome do judeu, e o dinheiro pago pelo negócio num banco na Suiça, país que, segundo as indicações dele, do judeu, não entraria em qualquer guerra, e se manteria sempre um bom local para se guardarem as economias. Fez especial referência à credibilidade dos bancos suíços, até disse que, por norma, os políticos e os militares, que fazem as guerras, costumam guardar lá o dinheiro deles e ainda o dos saques que praticam, sempre em bancos suíços.
A família João Coelho gastou apenas três meses com os procedimentos da passagem do negócio para nome do judeu, bem como com todas as despedidas de familiares e amigos, tendo regressado a Portugal em Maio de 1940. No início vinham com a intenção de se instalarem em Baloutas, na casa do pai do João, mas esta não dispunha das mais elementares condições de habitabilidade, muito em particular para um casal de “brasileiros”, acabadinhos de chegar a Portugal, com uma conta bem recheada num banco suíço, o qual tinha a sua sede na cidade de Zurique. Nem sequer uma noite ali ficaram, na velha casa de Baloutas, a Dona Piedade não estava habituada a tal tipo de aposentos. O João pediu imensa desculpa aos pais, argumentou que estavam habituados a ter um espaço só para eles, pelo que a melhor solução seria procurar hospedagem numa pensão da vila, enquanto não aparecesse uma vivenda, ao seu gosto, e que pudesse ser comprada, dito por outras palavras, que estivesse à venda.
Hospedaram-se na Pensão Moderna. Como a estadia ia ser prolongada, a Dona Hermininha reservou-lhes o melhor quarto, que era aquele que ficava no andar superior, na esquina que dá para a estátua do Basto e para o jardim da Praça da República. As refeições eram todas feitas na pensão, tratava-se pois, de pensão completa. Entretanto, o João começou a procurar casa, que estivesse à venda e se adequasse à situação de um casal de meia-idade, acabado de chegar do Brasil, e com bastante dinheiro. Foi um problema, porque não aparecia nada de jeito que agradasse ao casal, muito em particular à Senhora Dona Piedade, que estava habituada a todos aqueles aconchegos, e todos os salamaleques dos empregados, num meio social muito próprio, que era o do Brasil.
Tendo passado um período de tempo, de cerca de seis meses, sem que tivesse aparecido nada de jeito que pudesse agradar ao casal, este optou, finalmente, por comprar uma pequena quintinha, que ficava do lado esquerdo do caminho, cem metros acima da capela da Senhora da Saúde, na Cruz do Muro. Era uma área de mais ou menos um hectare, composta por três leiras, com pequenos desníveis entre elas, um metro em cada socalco, ou pouco mais, e apenas as paredes, cobertas de silvas, de uma antiga casa de construção tosca.
O Senhor João Coelho comprou o espaço por cinquenta contos de reis, e decidiu construir uma moradia, de raiz, no ponto mais elevado e central do terreno, com entrada a partir do caminho, onde havia o entroncamento com um outro, que dali seguia para a parte mais elevada do lugar, continuando depois na direcção da Baldosa. A construção demorou seis meses e o casal instalou-se no local em pleno Verão de 1941. Plantou videiras em todo o redor e fez uma ramada, de uvas brancas, por cima do caminho, que seguia para Chacim.
Quando o Manuel Carlos se instalou no pequeno casebre, que ficava em frente, do outro lado do caminho, encostado à oficina do marceneiro, já o Senhor Joãozinho brasileiro ali residia havia oito anos. A ramada de uvas brancas, por cima do caminho, e todos os bardos em volta da casa, estavam perfeitamente povoados de grossas videiras. Uma pequena alameda ligava, em linha recta, a entrada do portão de ferro e a porta principal da moradia. De cada um dos lados da alameda havia um canteiro, em toda a extensão, magnificamente colorido das mais diversas espécies de flores, que eram mais visíveis a partir da Primavera. A cobrir a alameda havia também uma ramada de uvas brancas.
Por este tempo já havia electricidade, produzida pela central hidroeléctrica da Cefra, cuja turbina era movida pela água que corria da levada, vinda da barragem da Freita, no rio Peio, e abastecia toda a vila, mas apenas dentro de barreiras. Deste lado, o lado nascente da sede do concelho, o términus da linha de distribuição de electricidade ficava-se pela Ponte de Pé. O último poste, que era de madeira de pinheiro, encontrava-se junto à casa do Senhor Baltazar Vilela, negociante de vinhos, e armador de andores para as festas dos santos populares, mas, muito em especial, para a procissão de S. Miguel.

(continua-27)

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