Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

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Romarias Minhotas
Festa das Papas em honra de S. Sebastião

Uma vez por ano, Cabeceiras de Basto, comete o pecado da gula, num repasto campestre que atrai milhares de visitantes. Referimo-nos às Festa das Papas, onde o povo entrega a alma a S. Sebastião e o estômago à memória da peste que já lá vai nos sertanejos lugares do Samão (ano ímpar) e Gondiães (ano par), onde o Minho faz fronteira com Trás-os-Montes. Este ano os festejos decorrem em Gondiães.

Milhares de pessoas honraram uma vez mais S. Sebastião e participaram na festa das Papas em Gondiães
Milhares de pessoas honraram uma vez mais S. Sebastião e participaram na festa das Papas em Gondiães
As origens e as motivações da Festa das Papas, realizada anualmente em hora de S. Sebastião, nos lugares de Samão e de Gondiães, do concelho de Cabeceiras de Basto, perdem-se na memória dos tempos.
No entanto, o ritual mantém-se ao longo dos anos. A Festa das Papas, ora em Gondiães, ora no Samão, ano sim, ano não, mantém o seu vigor, pois decorre de uma promessa feita na Idade Média, pelos respectivos povoados da serra, aquando de uma grande peste que assolou estes povos da montanha, levando esses avoengos a recorrerem a S. Sebastião para os livrar da doença que atingira humanos e animais.
Por isso, todos os anos, no dia 20 de Janeiro, a promessa renova-se e a festa repete-se.
Uma semana antes, começam os preparativos. O pão é confeccionado e cozido pelas mulheres da aldeia e é posto na Casa do Santo sob a sombra titular de S. Sebastião para que, no dia da Festa, os produtos sejam benzidos e oferecidos a todos quantos ali se desloquem para honrar o Padroeiro. Faz-se então, a cozedura da carne de porco, em avantajados potes de ferro com três pernas, filando as papas que hão-de vir, depois do banho-maria que se dá à vianda, desfeita em grossos bocados. Papas estas, que podem ser comidas quentes ou frias. A carne de porco, por sua vez, é servida em pratos de barro e o vinho verde da região bebido pelas tradicionais malgas de barro. Na véspera, neste sertão minhoto e no correr da noite em Janeiro alto, vive-se um corridinho de lá para cá, saindo uns, entrando outros, para que no dia seguinte esteja tudo pronto para receber milhares de visitantes que chegam em carros e mais carros com sorrisos abertos, fatiotas vistosas, samarras e guarda-chuvas às costas. Aqui não há manifestação sobre as origens de cada qual. Há papas, espessas. Papas que se comem acompanhadas com broa (híbrida porque meeira em centeio e milho), com carne e «regadas» com vinho verde da região. Produtos que são antes benzidos na Casa do Santo, seguindo posteriormente em forma de procissão para uma «mesa» ao longo do qual se colocam toalhas de linho e sobre as quais se distribuem os alimentos. Uma vara de madeira, serve de medida para distribuir o pão, a carne, as papas e o vinho ao longo de dezenas e dezenas de metros desta “mesa” improvisada.
Reconhecem-se caras amigas, que o tempo e o modo separaram, despejam-se emoções, trocam-se palavras do vernáculo linguajar e copo acima, copo a baixo, saúda-se o comissário da festa, investido de um importante papel.
Finda a refeição algumas pessoas levam consigo os pedaços de broa que lhes coube em sorte e que depois guardam durante algum tempo em casa por causa da afamada “mezinha” que acreditam existir no pão que foi benzido. Os mais crédulos dizem mesmo que nunca ganha bolor e que serve de remédio para as doenças que afectam as pessoas e os animais.
O dia já vai alto e os forasteiros partem. Satisfeitos, marcam encontro no ano seguinte, desta feita na castiça aldeia do Samão.
Pela sua originalidade, pela sua tipicidade, e sobretudo, pelo seu ritual próprio, a “Festa das Papas” representa uma das manifestações culturais e religiosas mais puras e tradicionais de Cabeceiras de Basto.

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