Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 21-01-2008

SECÇÃO: Entrevista

A juventude nos tempos de hoje

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Pedro Almeida – O voluntariado como objectivo

Há dias recebemos a visita inesperada na nossa redacção, do jovem Pedro Almeida, para nos fazer uma visita e para cumprimentar a sua colega de estudos, a Gininha, que é a nossa paginadora. Ficamos deveras surpreendidas porque pensámos que ainda se encontrava em Moçambique em missão de Voluntariado Missionário, em que participou através das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição.
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O Pedro é o filho mais novo de quatro irmãos filhos do senhor Adriano Silva Almeida e de D. Maria Antónia Santos, ambos naturais e residentes na Cumieira, freguesia de Cabeceiras. Os pais, muito trabalhadores e de bons princípios, gozam de muito respeito e simpatia no meio! O senhor Adriano Almeida há bastantes anos que faz parte da Junta daquela freguesia.
Conheço o Pedro desde pequeno de quando ele acompanhava o pai nas visitas à vila e enquanto estudante no Colégio de S. Miguel de Refojos.
Sempre me agradou o seu comportamento exemplar. Mesmo quando foi estudar para a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), em Vila Real, este jovem, que é de uma terra simples, de um concelho do interior, belíssimo e muito puro, não se deixou deslumbrar pelo meio citadino e, manteve sempre a cabeça no lugar.
Enquanto ia adquirindo a formação para o seu futuro, continuou a exercer as suas funções na Paróquia de S. Nicolau, no grupo coral e como animador.
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Mas não há dúvida que os bons ensinamentos na fé cristã e a boa estabilidade familiar na sua casa e também a influência das pessoas que fazem parte do seu dia a dia, foram fundamentais para fazer dele aquilo que é hoje! Um Jovem responsável!
Vivemos hoje tempos complicados! Talvez seja demasiado pessimista ao dizê-lo. Porém os jovens vivem actualmente muito intensamente, tudo ao limite, a mil à hora, na procura da máxima sensação e no desejo de experimentar tudo de uma vez e “curtir” livremente! E quando vão de “curtes” em “curtes” e essa procura da satisfação plena não passa de uma ilusão que, não os conseguem satisfazer, é aí que vem ao de cima aquilo que lhe foi ensinado e isso vai contribuir para fazer a distinção do que poderá ser bom ou mau para a sua vida. É necessário esses jovens terem bons antecedentes e uma grande força de vontade para que na hora certa não “descambem” para caminhos errados que poderão não ter retrocesso. Infelizmente vemos muitos jovens à deriva, desgastados, apáticos e indiferentes a tudo o que os rodeia.
Felizmente, no meio deste mundo que até parece que anda de pernas para o ar ainda há muita juventude que consegue triunfar, mostrando determinação em seguir a estrada da vida, mais certa para conseguir os seus objectivos de forma generosa e, por vezes, desprendendo-se de bens que hoje já não dispensamos, para ajudar os mais necessitados, mesmo pondo a sua própria vida em risco, dando-nos exemplos de verdadeiro altruísmo!
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É o caso do nosso jovem Pedro, de S. Nicolau!
Fiquei feliz ao vê-lo e com saúde apesar das condições precárias em que se encontrava em Moçambique. Curiosa pela sua experiência de vida não resisti a fazer-lhe uma pequena entrevista. Pensei que seria bom dar a conhecer este exemplo aos outros jovens e não só. O Pedro Almeida com a simpatia habitual que o define acedeu de boa vontade!

Enquanto estudante costumavas colaborar com os teus pais no seu dia-a-dia.
Sim, desde que me recordo ía ajudando nos trabalhos que podia, uma vez que a actividade principal dos meus pais sempre esteve relacionada com a agricultura. Enquanto frequentava a Universidade, logicamente que a disponibilidade de tempo era menor, sendo que a principal ajuda era feita durante o período de férias e eventualmente algum fim-de-semana em que fosse a casa.
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Depois de concluíres o 12º ano que curso seguiste? E por quê?
Depois de concluir o 12º ano ingressei no curso de Biologia e Geologia (via ensino). O meu gosto pela Biologia e pelas Ciências da Terra em geral era óbvio, portanto não poderia fugir muito da Biologia, penso que o facto de ser dedicado ao ensino foi uma feliz obra do destino, pois hoje sei que estou no ensino por vocação. E ainda acredito que devemos seguir uma profissão por gosto e não apenas porque tem saída profissional, pois corremos o risco de passar o resto da vida a exercer uma profissão que não nos realiza, advindo daí uma sensação de frustração. Se se puder conciliar as duas coisas tanto melhor.
Qual a Universidade que frequentaste?
Frequentei a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) em Vila Real.
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Nessa altura continuaste a participar na vida religiosa?
Como referi anteriormente, durante o percurso académico o tempo torna-se limitado, mas curiosamente penso que foi durante esses anos que mais me dediquei a actividades relacionadas com a vida religiosa, em diversas áreas e instituições. Continuei a desempenhar algumas funções na Paróquia de S. Nicolau, principalmente no grupo coral e tive que desistir de outras. Entretanto continuei a fazer alguns retiros de fim-de-semana, cursos de animador juvenil e envolvi-me em alguns projectos de voluntariado, entre muitos outros. Por isso continuo a afirmar que quando realmente queremos, e gostamos, temos tempo para tudo.
Depois de terminares o curso como surgiu a oportunidade de ires para Moçambique? O desafio foi aceite de imediato? Não hesitaste ou ainda reflectiste?
É uma longa história… Na realidade fui eu que procurei incessantemente junto de várias instituições e organizações não governamentais (ONG’s) esta oportunidade. Não foi portanto um convite, eu é que me ofereci como voluntário. A vontade de realizar um projecto desta natureza não era de agora, era um anseio que vinha já desde a adolescência, aliás, talvez um sonho, por isso é que nunca desisti de o realizar.
Durante o último ano da licenciatura percebi que era a altura certa para realizar este anseio e depois de alguns meses de pesquisa e de contactos comecei a participar em cursos de formação de Voluntariado Missionário promovidos pela Fundação Evangelização e Culturas (FEC), durante todo o ano e em vários locais do País.
Após alguns contratempos com a instituição em que então estava inserido e a realizar a formação da FEC, acabei por entrar em contacto com as Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição (com representação também em Refojos, e com as quais já tinha relacionamento de há vários anos) que me derem luz verde para avançar prometendo-me todo o apoio necessário.
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Não tive dúvidas, nem hesitei, era o que procurava já há muito tempo.
Mesmo sabendo que corrias riscos de vida e te irias privar de coisas a que estavas habituado, quer em termos de higiene quer alimentar, nada te fez voltar atrás na decisão que tomaste?
Durante a formação da FEC somos postos em contacto com testemunhos reais de outros voluntários que já estiveram em terrenos de Missão, o que nos proporciona uma visão muito realista da situação que vamos enfrentar. Foram abordados temas muito importantes durante a formação e principalmente preparação espiritual, mas na realidade nunca estamos totalmente preparados. No entanto nada me fez voltar atrás, estava decidido e naquela fase da minha vida nada mais fazia sentido a não ser partir para África. Penso que as condições materiais, de higiene, e até de segurança eram o menos importante para mim.
Como foi que os teus pais encararam essa decisão?
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No início parece que foi um choque! Eles não estavam a par da minha intenção de participar num projecto destes, nem sequer da formação que fui fazendo e da preparação que fui tendo durante mais de um ano, para partir. Avisei cerca de um mês antes da data da partida. Compreendo a reacção porque basta dizer “vou para a África profunda” (e não é em turismo), e logicamente as pessoas associam sempre à pobreza extrema, às doenças tropicais, à falta de condições de higiene, alimentares, por vezes até de segurança. Mas com o passar do tempo perceberam que a minha decisão não era de voltar atrás e aceitaram e apoiaram.
Como foi o confronto com uma realidade totalmente diferente da tua vida habitual?
Sou muito observador por natureza, e lembro-me que no início fazia longas viagens por Maputo e arredores sem dizer uma única palavra, apenas a observar, a registar e a desfrutar de cada cenário, de cada situação, enfim, da nova realidade. Aos poucos é que me fui apercebendo da verdadeira realidade; pobreza, SIDA, orfandade, malária e corrupção!
O verdadeiro confronto foi já no terreno, na montanha, onde verdadeiramente comecei a “chamar as pessoas pelo nome”. Tudo é mais complicado quando começamos a desenvolver afecto pelas pessoas, amizades que certamente vou conservar pela vida toda, pessoas humildes respeitadoras, muitas delas fascinantes. Mas quando conhecemos a realidade do dia-a-dia dessas mesmas pessoas é que verdadeiramente nos toca, porque já são pessoas que nos dizem muito. Já não são apenas imagens que passam na televisão ou nas revistas ou em qualquer campanha de angariação de fundos – os rostos passam a ter um nome. A própria realidade do ensino de lá também é qualquer coisa de inimaginável.
Alguma vez durante o tempo que estiveste em Moçambique te arrependeste do passo que deste e pensaste regressar a Portugal?
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Apesar de alguns imprevistos e da luta diária contra todo um sistema de ensino que nem tenho palavras para descrever, nunca me arrependi nem sequer ponderei desistir, muito pelo contrário. Fui de mente aberta, como se costuma dizer, e supostamente preparado para todo o tipo de experiências, e para as quais não estava preparado valeu-me um grande sentido de preponderação e reflexão que permitiu lidar com essas situações.
Como era o teu dia-a-dia, a tua relação com as crianças e a comunidade e de que sentiste mais falta?
O meu dia-a-dia era principalmente passado na escola. Tinha muitas turmas, para além disso ainda dava aulas de apoio aos mais fracos e ajudava também no trabalho da direcção da escola. Quando tinha algum tempo o que mais gostava de fazer era passear sem destino, falar com as pessoas, brincar com as crianças e fazer alguns trabalhos no lar juvenil que as Irmãs dirigem na localidade e onde todos vivíamos. A relação com as crianças era a melhor possível e era sempre pelas crianças que eu estava lá. Com os alunos a relação era de amigo e sempre os tentava ajudar e defender em tudo o que podia, porque alguns deles acabam por sofrer algumas perseguições e descriminações só porque são normais e que por norma não são submissos a certas explorações que grande parte dos professores ainda exerce sobre eles.
Acho que não senti falta de nada em especial. Descobri que o Ser Humano tem uma resistência psicológica maior do que imagina e uma grande capacidade de adaptação a novas situações. Costumava dizer, em jeito de brincadeira, faz-me falta o chocolate e o meu cafezinho! Mas cedo me apercebi que a maioria dos jovens e crianças nem sequer sabiam o que essas coisas eram.
Sentiste que o balanço do tempo que lá estiveste foi positivo? Achas que contribuíste para dar esperança e alento àquelas pessoas e crianças que sofrem desde o dia em que nascem?
Sem dúvida. O balanço só pode ser positivo. Quanto ao contributo, acho que sim, a vários níveis. Não é fácil, alguns jovens como nasceram e cresceram naquela realidade diziam-me que era o destino e que morreriam ali também, nunca conheceriam outras realidades. Falar-lhe de sonhos e de força de vontade, naquela realidade às vezes parece que estamos a gozar com eles. A realidade é a pobreza, a falta de oportunidades e mesmo que houvesse oportunidades, não existem recursos financeiros nas famílias que permitissem aos seus filhos ir mais longe. Mas tentei transmitir-lhes a esperança e a ideia de que o nosso destino é nós que o fazemos, que tudo depende de nós, que nós somos os autores da nossa própria história…
Certo é que a realidade não os ajuda mas por isso mesmo têm que ser mais fortes e fazer um esforço muito maior e nunca perder a esperança porque às vezes a vida surpreende-nos. Tentei alargar-lhes horizontes e ensinar sempre a olhar para além do horizonte, enfim tentei ser um vendedor de sonhos; mas não serão eles que nos dão a força necessária para sairmos de onde estamos?
Para terminar pergunto-te - Voltavas algum dia a Moçambique?
Quem tem a vocação e experimenta o dom que é a Missão não mais consegue esquecer tudo o que recebemos. Apesar de tudo, África fascina-nos. Uma vez alguém me disse: “quem experimenta estas coisas da Missão há-de repeti-las até ao fim da vida”. Portanto já não se questiona se vou ou se não vou, a questão é apenas: Quando?!
Para terminar, gostava apenas de apelar àquelas pessoas que foram dizendo ao longo do tempo: “sempre tive esse anseio de fazer uma experiência dessas”; “gostava tanto”, etc., e algumas delas já pessoas adultas, a essas pessoas dizer apenas: Quando? Pois essa sensação e esse anseio perseguirão para sempre. Às vezes as pessoas chegam à reforma ainda cheias de energia e com a sensação de que podem ainda fazer algo de útil pelos outros, eu apelo a essas pessoas para pensarem seriamente nessa experiência e que não se refugiem na afirmação: “já não tenho idade para essas coisas”. Conheci muitos voluntários reformados que decidiram ter um papel activo no melhor capitulo das suas vidas, pois nessa fase é que se tem a maturidade, a experiência de vida e por isso muito mais para dar aos outros…

Que a experiência do Pedro sirva de exemplo para todos nós. Desta vez rumou à Ilha da Madeira para leccionar. Desejo-lhe uma boa estadia na terra das flores. Como dizia o saudoso Max na cantiga "a Madeira é um jardim"!
fernandacarneiro52@hotmail.com



Por: Fernanda Carneiro

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