Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 21-01-2008

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

Em Couto Pardo não havia grandes hipóteses de aparecer um comprador, conhecedor do ramo e interessado no negócio, para o estabelecimento comercial do Senhor Alexandre. A viúva pensou no modo que lhe pareceu mais expedito. Era propor a venda ao empregado que já lá estava há mais de nove anos e percebia, a fundo, do negócio. Se rapidamente o pensou, mais depressa colocou a ideia em prática. Tinha passado um mês sobre a data do falecimento, dois depois da celebração da missa do trigésimo dia e, após o fecho do estabelecimento, a Dona Lucinda chamou o João ao escritório. Era uma pequena divisão ao lado da loja principal com uma janela para a Rua de S. Francisco Xavier, correu a cortina, para que ninguém espreitasse da rua para dentro, e disse:
- Olhe João, antes de mais, quero dizer-lhe que tenho perfeita e total confiança no trabalho e honestidade da sua pessoa, e não é por causa de nada disso que pretendo levar a cabo o que lhe vou expor, mas o facto é que não me sinto bem à frente do negócio, lembra-me a todo o momento o falecido, e se não saio daqui não tardará muito sem que eu morra também. Por outro lado, também tenho a perfeita certeza de que você conhece isto como ninguém, e está à altura de tocar o barco por diante. Quero propor-lhe que seja você a comprar a sociedade.
O João, um pouco surpreendido, mas não muito, já adivinhava que alguma coisa do género poderia vir a acontecer, respondeu:
- Mas, Senhora Dona Lucinda, e dinheiro… Eu não tenho dinheiro suficiente…
- Espere – atalhou a Dona Lucinda – não se precipite, eu sei as poupanças que você tem acumulado, fruto do seu trabalho, ao longo de todos estes anos, que connosco tem trabalhado. O contrato é simples, o João dá como entrada metade da sua poupança que tem no banco, a outra metade continua na sua posse, para as suas necessidades, e, quanto ao restante do preço, que como acaba de ver é indefinido, pagá-lo-á ficando estipulado que corresponderá a metade dos lucros anuais que obtiver, em conformidade com a contabilidade, que deverá ser executada por pessoa da confiança de nós os dois e sob a orientação do Júnior, no decurso dos próximos dez anos.
O João esfregou a testa com as costas da mão direita, a olhar ligeiramente para o chão, pensou um pouco, e respondeu:
- Na verdade, e à primeira vista, parece-me francamente favorável o negócio, mas, e o Senhor Dr. Júnior, o filho da Senhora Dona Lucinda, que até é um ilustre advogado, a Senhora acha que ele vai estar de acordo?
- Não se preocupe, amanhã mesmo seguirei para o Rio, e acertarei com o meu filho todos estes detalhes que acabo de lhe propor.
A Dona Lucinda seguiu para o Rio de Janeiro na manhã do dia seguinte, deixando a gestão de todo o negócio a cargo do João. Nesta altura a casa já tinha mais dois empregados para além do João, o Nestor, que tinha mais ou menos a idade do falecido patrão, e já lá estava aquando da chegada do João, e uma senhora, de cerca de trinta anos, que era casada com o capataz de uma fazenda de café, e tinha entrado para a casa havia cinco anos.
Passados quinze dias regressou a Couto Pardo, com toda a documentação pronta, faltando apenas as assinaturas e o respectivo reconhecimento notarial, que seria efectuado no notário de Ilhéus, dois dias depois.
O João entrou com metade das suas poupanças, no acto do reconhecimento das assinaturas, e ficou a entregar, durante dez anos, com termo em 31 de Dezembro de 1939, metade dos lucros apurados através da contabilidade do estabelecimento.
Na data em que terminou o período de pagamento, o estabelecimento valia o triplo do que era estimado em 1929, não obstante o facto de o mundo ter passado pela grande depressão e pairar no horizonte a ameaça do início de uma segunda guerra mundial.
A Dona Lucinda ainda era viva e vivia feliz, no Rio de Janeiro, na companhia do filho, da nora, e do neto, que agora tinha doze anos. A mulher do João, a Dona Piedade, não tinha conseguido ter filhos, e, por via disso, sofria de uma grande tristeza, e tinha frequentes crises de depressão. Como facilmente se conclui, mesmo que pudessem acumular uma boa fortuna, faltava-lhes a consolo de virem a ter um qualquer herdeiro natural.
Na sequência dos acontecimentos ocorridos na Alemanha, na noite de nove para dez de Novembro de 1938, e que ficaram para a história como a “noite de cristal”, em que foram detidos cerca de vinte mil judeus, a pretexto de ter sido assassinado, por um judeu, o embaixador alemão em Paris, tinha-se iniciado a perseguição nazi aos judeus. Estes, em particular os que tinham algum desafogo económico e financeiro, começaram a desfazer-se dos seus bens e a procurar melhor sorte fora da Europa. O principal destino da emigração judaica, proveniente da Europa, logo que foi iniciada a sua perseguição pelos nazis, foi a América Latina, em particular o Brasil.
Nos primeiros dias do mês de Janeiro de 1940 chegou a Ilhéus, proveniente de uma pequena vila da região da Baviera, uma das muitas famílias de judeus que nesta altura aportavam ao Brasil. Esta era constituída por três pessoas, um casal com uma filha. O marido chamava-se Isac Ben Sharon, e tinha cerca de quarenta anos, a mulher chamava-se Raquel Maria Shamir, era um pedaço mais nova do que o marido, tinha cerca de trinta anos, e a filha, que se chamava Rute Maria Shamir Sharon, e tinha dez anos, era ainda uma criança, mas extremamente bonita, tinha cabelos louros compridos, e olhos de um verde muito forte de azeitona. Hospedaram-se na pensão Tianica, em Ilhéus, com o objectivo de procurarem uma hipótese de negócio, para por ali se instalarem.
O marido, depois de ter sondado, durante mais de uma semana, toda a cidade de Ilhéus, sem ter visto coisa que lhe agradasse, deslocou-se pela estrada, a pé, percorrendo cerca de vinte e cinco quilómetros, até Couto Pardo. Ali chegado, dirigiu-se ao principal estabelecimento da vila, que era o do João Coelho, a pedir inculcas sobre se haveria por ali alguém estabelecido e que desejasse passar o negócio. O João Coelho, assim à primeira vista, não se lembrava de nada, e disse ao judeu exactamente isso, que não se lembrava de nada, que não conhecia ninguém na terra que pretendesse vender o negócio, até porque, para além do seu próprio negócio que era aquele que ali estava a ver, apenas havia duas ou três pequenas tascas e outras tantas pequenas mercearias.
(continua-26)

Por: Torcato Santiago

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.