Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-12-2007

SECÇÃO: Opinião

BARCO À VELA

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HOMILIA DE ANO NOVO

1. No dia 1 de Janeiro, fui à missa, em Coimbra. Não é muito comum, em mim, esta visita a lugares de culto, situação de que não me orgulho mas da qual tampouco tenho vergonha. Sou o que se costuma chamar, com caridade ou ironia, um católico não praticante.
2. O assunto da homilia era a Paz. O padre, muito jovem, disse-nos logo que despacharia com rapidez a palestra. A igreja estava fria como um avarento de Dickens e eu, tremendo, fiquei satisfeito com a promessa do padre. Que fosse pois, Deus nos perdoasse, coisa rápida.
3. O padre não cumpriu. Levou muito mais tempo do que eu julgara e até alguns praticantes, dos que nunca faltam ao ritual, se queixaram desta demora, à saída. Recordo e reforço o que atrás disse: estava um frio de pneumonias siberianas.
4. Mas valeu muito a pena aquele sacrifício. Ouvi, por cerca de cinquenta minutos, uma palestra brilhante, com humor e gravidade q.b., sobre a vida dos homens e o futuro do planeta.
5. Confirmei a ideia, antiga em mim, de que a missa é um encontro de gente e que tudo quanto ali se passa deve ter em conta preceitos importantes da comunicação. Um mau discurso (pesado, abstruso, aborrecido) enfraquece o brilho e eficácia do serviço. Um bom discurso ilumina e aquece as almas. É assim também com a Escola, com as aulas.
6. Já penei longamente em homilias que me testaram a santidade e a paciência. Devo a alguns padres, maus oradores, maus comunicadores, a relativa aversão que por anos o ritual me inspirou. Ao padre daquela missa do novo ano devo um encontro com a Verdade. Pago-lhe isso, à medida das minhas possibilidades, com esta crónica no “Ecos”.
7. A homilia era, como já vos disse, sobre a Paz. Socorrendo-se de palavras de um Papa, o sacerdote disse-nos o seguinte: que não há justiça se não houver verdade; que não há amor se não houver justiça; que não há liberdade se não houver amor; e que não há verdadeiramente verdade, ou justiça, ou amor ou liberdade se não houver paz.
8. Assim escrito, parece um (mais um) conjunto de abstracções sem humana ponta por onde se pegue. Mas o padre foi à vida de todos os dias e trouxe exemplos. Falou das imagens de guerra que todos os dias nos entram casa adentro, via televisão: lembrou os que são capazes de matar por uma (sua) verdade; e os que sacrificam a justiça e a dignidade humana em nome de causas que acham maiores que a própria Vida; e os que são incapazes do amor pelo outro (o diferente de nós); e os que confundem liberdade com libertinagem, reclamando estridentemente os seus direitos e ignorando os incómodos deveres que concomitantemente lhes assistem. A tudo isto chamou “ausência de Paz”.
9. Aos homens que protagonizam este (des)viver sem Paz, o padre chamou “bestas”. Isto é: animais desprovidos de razão, de consciência, de sentimento. Gente que não é gente. Homens sem estatuto de humanidade.
10. Se a igreja não estivesse tão fria, teria sido um final de tarde perfeito. (Mas a igreja estava gelada e pareceu-me, no delírio do desconforto físico, que Nossa Senhora batia, também Ela, os dentes.) Tratou-se, eu vos digo, de um final de tarde quase perfeito.
11. Talvez o padre que ali brilhou não venha a saber desta minha admiração. Mas eu devia-lhe estas palavras. Acho, cá para nós, que houve ali um milagre, mais que católico, religioso: Nós à volta da Verdade. Cristo, o verdadeiro, falando pela boca de um jovem sacerdote. A Paz explicada, de modo brilhante, a homens que não desistem de ser homens.
12. A minha mulher, por ironia de Deus, chama-se Paz. Saí com ela, como de costume, de mãos dadas.

P.S.: Bom 2008 para todos os leitores!

Por: Joaquim Jorge Carvalho

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