Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-12-2007

SECÇÃO: Golpe de vista

Fundamentalismo

Não tenho dúvidas. No futuro morreremos felizes, porque morreremos cheios de saúde. Na verdade, uns tantos zeladores pela nossa saúde conseguiram o apoio dos legisladores os quais produziram uma lei anti-tabaco que, em minha opinião, roça o fundamentalismo. Apenas se terão esquecido de obrigar os “criminosos” fumadores a andar com o cinzeiro no bolso para que não conspurquem os espaços públicos ao ar livre com tantas “beatas” para o chão.
Se por um lado podemos ficar satisfeitos com a demonstrada preocupação permanente dos legisladores, dos líderes, dos chefes, dos governantes, em criar condições para a melhoria da qualidade de vida das populações, por outro deveremos desconfiar quando essa preocupação pode pôr em causa as liberdades individuais.
Noutros tempos, o povo não era livre de dizer o que pensava. Agora, o que está em causa são outro tipo de liberdades. E isso preocupa-me.
Mas, não haverá outra maneira de defender uns e outros?
Respeito a opinião dos que estão a favor desta lei, mas isso não significa que tenha que concordar com ela.
E preocupa-me muito o que virá a seguir. A ânsia de legislar, dos homens do dito primeiro mundo, é tão grande que, à falta de melhor, – o que havia para regulamentar já está regulamentado – vai agora virar-se para aspectos e sectores da vivência das pessoas que nos levarão a um beco sem saída. Triste sinal dos tempos.
A legislação europeia, posteriormente transposta para Portugal, tem vindo a acabar com um conjunto de regras, usos e costumes que culturalmente nos dizem muito. E a ASAE tem vindo a fiscalizar, punir e encerrar tudo o que lhe aparece pela frente que não respeite as normas em vigor. E bem, diga-se em abono da verdade, porque, enquanto entidade fiscalizadora, cumprem apenas o seu dever. O que terá estado mal foi a falta de preocupações sociais por parte do legislador. Terá esquecido as especificidades próprias de cada zona, região ou país e isso assusta-me, devo dizer.
E que nos reservará mais o futuro?
Imagino que, brevemente, a obesidade, sendo um problema muito sério de saúde pública deste primeiro mundo, determinará que o legislador proíba o povo de comer, natas e bolas de Berlim, chocolates e bombons, hambúrgueres, francesinhas e tostas mistas, chouriços, salpicões e presuntos, feijoadas e cozidos à portuguesa. Proibirá ainda os cidadãos de beberem vinho, refrigerantes e afins, obrigando todos a comer, a horas predeterminadas, a mesma quantidade de grãos de arroz ou canudos de massa, acompanhados das mesmíssimas gramas de carne ou peixe. Ou será ainda muito pior!?
Mas, adivinho ainda que, a pretexto de melhorar a segurança rodoviária, o trânsito de peões e de veículos, que tantos conflitos provocam, venha a ser regulamentado para que a certas horas andem os peões e a outras circulem os veículos. E não faltará muito, também, para que todos os ocupantes de automóveis sejam obrigados a usar um capacete de protecção.
Esta vontade de legislar “para bem dos cidadãos” jamais irá parar.
Ufa!
Até onde nos levará o fundamentalismo?

PS. Informo que não sou fumador.

A. C.

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