Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-12-2007

SECÇÃO: Opinião

PEDAÇOS DE VIDA

(continuação-24)
O fazendeiro deu mostras de gostar de conversar com o jovem acabado de chegar, parece até que começou a alterar um pouco o seu carácter, por natureza sisudo, e prosseguiu:
- Olhe João, eu também tenho só um filho, é um rapaz, tem vinte anos, é o Júnior, quer dizer, tem o mesmo nome que eu, só que acrescido de Júnior, eu fiz questão de que o meu nome ficasse perpetuado, e por isso ele chama-se Alexandre Gomes da Cunha Júnior. Como deve saber eu vim para cá solteiro, ao fim de dois anos casei com a minha actual mulher, a Lucinda, que era filha do patrão para quem eu trabalhava, e que, naturalmente, depois passou a ser meu sogro, também era filha única, entretanto os meus sogros já morreram ambos, primeiro foi o marido, vai há dez anos, e depois a mulher, vai há três anos. O meu filho, que como já lhe referi, tem vinte anos, é por conseguinte mais novo que você uns três anos, está a estudar no Rio de Janeiro, estuda Direito, espero que dentro de três a quatro anos siga advocacia, neste momento está no terceiro ano do curso…
O tempo passou sem que tivessem dado por isso. Chegaram a Couto Pardo quando era uma da tarde, a viagem tinha demorado três horas exactas, pelo que o coupé, puxado pelos dois cavalos, fez uma média horária de oito quilómetros, nada mau para uma estrada, toda ela em simples terra batida, ainda não tinha sido colocado o macadame, e com inúmeros sulcos provocados pela água das fortes chuvadas tropicais, que diariamente desabavam, sempre às mesmas horas.
A casa comercial do Senhor Alexandre Gomes da Cunha ficava numa das esquinas do cruzamento formado pelas Ruas de S. Francisco Xavier e do Padre António Vieira. A Rua de S. Francisco Xavier incorporava a via principal, ou seja, a estrada federal, que tinha o seu início em Ilhéus, atravessava toda a vila, e seguia para o interior, na direcção leste oeste. A esquina onde se localizava o estabelecimento era a primeira, do lado direito, para quem vinha, dos lados de Ilhéus. O estabelecimento tinha duas portas para cada uma das ruas. No primeiro andar ficava a residência, e havia duas entradas largas para carros de cavalos ou de bois, uma de cada lado do edifício, e por conseguinte, uma dava para a Rua de S. Francisco Xavier, e a outra para a Rua do Padre António Vieira.
Ao fundo do quintal ficava um armazém grande, os estábulos dos dois cavalos, e o aposento onde dormia o Juari. No primeiro andar do edifício havia, além de todas as divisões normais em casas do género, quatro quartos; um que era o dos sogros do Senhor Alexandre, ainda se encontrava com a mesma mobília dos falecidos, e estava vago, o outro que era do casal, o terceiro que era do Júnior, e que agora apenas era ocupado em tempo de férias, e o último foi aquele em que ficou alojado o João.
À chegada, a Dona Lucinda recebeu calorosamente o João, não se contendo sem exclamar:
- Até tem parecenças com o nosso Júnior… espero que se dê bem connosco, e venha a prosperar, neste imenso Brasil, que é de todos nós…
- Muito obrigado, Senhora Dona Lucinda, também assim o espero - respondeu o João.
Foi instalado no seu quarto, não se sabe se terá tomado banho, almoçaram quando eram quase três da tarde e o resto do dia foi passado com o Senhor Alexandre a mostrar-lhe o estabelecimento, a apresentá-lo ao outro empregado, o Nestor, que era um solteirão, tinha mais ou menos a idade do senhor Alexandre, e já ali trabalhava há mais de dez anos.

***

A semana negra, ou melhor dizendo, a terça-feira negra de 29 de Outubro de 1929, frase que simboliza o colapso da bolsa de Nova Iorque, cujo resultado foi a falência de centenas de milhar de empresas em todo mundo, teve também os seus efeitos no escoamento da produção do café do Brasil. Como todos sabemos muito bem, o negócio do café está intimamente ligado ao funcionamento das bolsas de valores, com o colapso da bolsa de Nova Iorque, todos os contratos de compra e venda de café ficaram sem efeito.
O Senhor Alexandre, que tinha investido precisamente naquele ano, e em café, grandes somas de dinheiro, valores em dóllares, viu-se, de um dia para o outro, sem qualquer fundo de maneio, não resistiu. Sofreu um enfarte do miocárdio e faleceu subitamente.
O João Coelho já estava na casa havia nove anos e oito meses. Tinha entretanto casado, com a filha do outro emigrante de que já aqui se falou, que tinha ido de Vouzela, e se chamava Piedade, ainda não tinham filhos, apesar de já estarem casados há cinco anos, casaram no dia treze de Maio de 1924, uma terça-feira, os pais da noiva tinham feito questão de que o casamento se realizasse no dia do sétimo aniversário das aparições da Cova da Iria.
A firma do Senhor Alexandre girava sob a denominação de Alexandre Cunha & Companhia, Lda, e tinha como sócios os dois membros do casal, cinquenta por cento era a quota do marido, e cinquenta por cento era a quota da mulher. O filho, o Alexandre Gomes da Cunha Júnior, que concluíra a sua formatura em Direito, já passaram mais de seis anos, tinha casado com uma ex-colega da faculdade, também licenciada em Direito, e tinham montado escritório de advocacia no centro do Rio de Janeiro. Era um dos mais prestigiados escritórios de advogados em toda a cidade do Rio.
Era pois evidente que, com a morte do empresário, a viúva iria ficar sozinha com o negócio, já que o filho não deu mostras de tencionar abandonar o escritório de advocacia no Rio e, além do mais, a mulher era carioca e não estaria na disposição de se deslocar para as proximidades da pequena cidade costeira de Ilhéus. E foi assim que, ainda sob os efeitos da recente partida do esposo, e mesmo sem consultar o filho, muito em particular sobre as reais possibilidades de poder vir a ser bem aceite por estes na sua companhia, a viúva decidiu que venderia tudo, e que iria viver com o filho e a nora, para o Rio de Janeiro. Além do mais iria para junto do neto, que já tinha dois anos, e só o vira uma vez, quando foi o baptizado e o menino tinha um ano de idade.
(Continua-25)

Por: Torcato Santiago

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