Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-12-2007

SECÇÃO: Opinião

HISTÓRIAS DE ÁFRICA

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Corria o ano de 1972. A guerra em Moçambique continuava em força. Inicialmente confinada ao Norte, aos poucos foi-se estendendo a outros Distritos chegando até ao novo Distrito de Chimoio.
Os movimentos independentistas embora pouco visíveis, já cometiam algumas acções de pouca monta. Tinham como alvos principais as herdades e Caminho-de-ferro da Beira onde eu era capataz de via.
Uma noite, estava eu e um grupo de amigos sentados na esplanada de Flamingo -Vila de Manica, quando de repente tivemos uma visão dantesca. À nossa frente surgiu um amigo comum de todos nós o Dias das águas frescas, assim era conhecido.
Joaquim de Matos Dias, vinha descalço, pés a sangrar, roupa esfarrapada, cabelo desgrenhado e banhado em lágrimas. Desvairado implorou; meus bons amigos ajudem-me a saber o que é feito da minha mulher e dos meus filhos. Alguém correu para o telefone mas a linha tinha sido cortada. Por entre lágrimas lá foi contando o que tinha acontecido.
A sua herdade (machamba situada a 11km da vila), tinha sido atacada por um grupo de terroristas. Quem primeiro deu o alarme foi um preto pequenino que entrou de rompante gritando, patrão, patrão vem aí massocha (soldados). O pânico foi de tal ordem que o Dias saltou por uma janela e correndo ora pelo mato, ora pela estrada até alcançar a vila.
Imediatamente foi dado o alarme e muitas pessoas se juntaram a nós. Corremos para a administração a dar conta ao Administrador do sucedido e com ele fomos ao quartel pedir ajuda ao capitão José Luís Machado Oliveira, por sinal um Cabeceirense filho do nosso saudoso amigo sr. Domingos Oliveira da loja do aferidor.
O Capitão Machado Oliveira a princípio mostrou-se renitente em conceder ajuda, mas tal foi a nossa determinação em pegar nas nossas armas e ir ao encontro da família do Dias que obrigou o Capitão a ter outra atitude, então formou um pelotão e várias viaturas levou com ele o Chefe da D.G.S.E. lá se encaminharam para a herdade das águas frescas.
A noite foi longa, não havia comunicações. Até que às três da madrugada avistamos as luzes das viaturas militares, fomos ao encontro delas mas estas passaram velozes a caminho do Hospital logo suspeitamos que algo tinha acontecido. Corremos todos para o Hospital e aí tomamos conhecimento da tragédia que se tinha abatido sobre aquela pacata família de agricultores. Logo encontrei o Zé o filho mais velho que me disse não ter nada mas a mães estava morta em cima duma viatura coberta com uma manta e o filho mais novo com o peito perfurado por um sabre estava prestes a morrer.
Nesse momento senti o mundo desabar sobre a minha cabeça pois a nossa amizade com essa família era muito grande. Chorei; um choro sentido por alguém que não merecia uma morte tão trágica.
Quanto ao Quim o filho mais novo foi prontamente levado para a Rodésia – Cidade de Untali a 12 km e tal foi o empenhamento dos médicos Ingleses que o conseguiram salvar.
Vejamos agora qual foi o cenário encontrado pelos militares quando chegaram à herdade. Os turras tinham partidos pelos campos fora entoando cânticos guerreiros. O Zé estava escondido debaixo dumas alfaias, o Quim graças ao tal pretinho estava escondido na pocilga a perder muito sangue e da mãe nada se sabia apesar das buscas ao redor da casa. Então o Capitão ordenou a partida do local, mas o Quim apesar de gravemente ferido recusou-se a entrar nas viaturas sem saber da sua mãe ele que tinha visto os turras trazê-la à força para fora de casa e teve a coragem de se apresentar pedindo para que não lhe fizessem mal o que lhe valeu uma estucada no peito com um sabre na ponta da espingarda de um dos bandidos.
Ante a firmeza daquela criança em perigo de vida foi ordenada nova busca e então no fundo de um aterro lá estava o corpo da D. Maria José já sem vida, tinha o peito atravessado por uma baioneta. Este caso teve grande repercussão em Moçambique e talvez venha a constar num dos episódios da Guerra do Ultramar de Joaquim Furtado.
Após o 25 de Abril dá-se a debandada. O Joaquim Matos Dias voltou à sua terra natal a Freguesia de Soalheira perto do Fundão e os filhos emigraram para a África do Sul e nunca mais tive contacto com eles.

Por: Alexandre Teixeira

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