Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-12-2007

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

(continuação-23)
Assim foi, chegaram a Ilhéus dia e meio depois, ou seja, no dia 22 de Fevereiro, sábado, pelas dez horas da manhã, também estava muito calor em Ilhéus, apesar desta cidade ficar cerca de quatrocentos quilómetros a sul de Salvador.
O amigo, que mandara a carta de chamada, e o fora esperar ao porto de Salvador, era natural de Gondarém, freguesia de S. Nicolau, e estava em Couto Pardo havia vinte a três anos. Tinha plantações de café e um estabelecimento comercial onde vendia de tudo, mercearia, tecidos, bebidas, petróleo para os candeeiros, cimento, telhas, areia e pedra graúda e miúda. O recém-chegado tinha como destino e função ajudá-lo, na casa comercial, como qualquer caixeiro o fazia, em qualquer aldeia, vila ou cidade de Portugal.
Em Ilhéus, logo que desembarcaram do pequeno barco, que fazia a cabotagem entre Salvador e esta última cidade, tinham à sua espera o carro que os levaria até Couto Pardo. O carro era um coupé, de dois lugares, e puxado por dois corpulentos cavalos, um preto e outro branco; o preto chamava-se “Marto”, o que deveria derivar de Marte, e o branco chamava-se “Nepto”, provavelmente derivado de Neptuno; dois nomes interessantes para cavalos de estimação, um era o do Deus da Guerra, e o outro o do Deus dos Mares. Tomava lugar no acento da condução o Juari. O Juari era uma espécie de homem para todos os recados, e até para confidências, era mestiço, o pai era branco e tinha sido capataz da fazenda em tempos idos; a mãe era preta e tinha sido cozinheira também em tempos idos, ambos já tinham morrido, pelo que o Juari ficara órfão aos quinze anos, e sempre trabalhou na casa do fazendeiro. Aprendera mesmo a ler numa escola que funcionou na fazenda para ensinar os filhos de todo o pessoal.
Chamava-se Alexandre Gomes da Cunha, o fazendeiro que agora fazia o trajecto entre Ilhéus e Couto Pardo, na companhia do jovem João que vinha desde Baloutas, donde tinha partido havia um mês. Seguiam ambos sentados no banco do coupé, devidamente protegidos do sol, já que o cupé tinha cobertura. O Juari é que ia ao sol, sentado no lugar do condutor dos cavalos, segurando as rédeas com a mão esquerda e o pingalim na mão direita. O pingalim funcionava apenas como adorno, nunca o usava para chicotear os cavalos, tudo porque estes eram altamente amestrados, respondiam prontamente aos sinais transmitidos através das rédeas, e ainda porque o Juari tinha por eles uma estima extraordinária, motivo mais que suficiente para ser incapaz de lhes desferir qualquer chicotada, por mais insignificante que fosse.
A viagem entre Ilhéus e Couto Pardo, a trote, demorava cerca de três horas. Era necessário meter conversa, tarefa que não se mostrava muito fácil. O recém-chegado não iria, muito naturalmente, começar a falar, era a primeira vez que se encontrava com o Senhor Alexandre, e estava em terra estranha. Por seu turno, o fazendeiro era homem de pouquíssimas palavras. Porém, ao fim de meia hora de viagem, e tendo feito todo o percurso, de cerca de quatro quilómetros, cada um a olhar a paisagem do seu lado, através do vão da janela do cupé, e de o Senhor Alexandre ter pigarreado pelo menos umas dez vezes, decidiu-se finalmente por algumas interrogações ao jovem João:
- Então diga-me, João, como correu a viagem de cerca de um mês, entre Lisboa e Salvador? - o Senhor Alexandre Gomes da Cunha estava no Brasil havia mais de vinte anos, mas ainda conservava o sotaque bem português.
O João respondeu:
- Correu bastante bem, Senhor Alexandre. A princípio, quando passávamos nas proximidades da ilha da Madeira, ainda enjoei um pouco, mas foi só nos dois primeiros dias, mesmo assim nunca “deitei a carga ao mar”, termo que os marinheiros usavam quando alguém vomitava. Depois foi sempre de uma calmaria admirável e gostei muito de ver os cardumes de golfinhos aos saltos à frente e ao lado do navio…
- Ah! Sim, os golfinhos, como me lembro das suas acrobacias, quando fiz a mesma viagem que você acabou de fazer, já lá vão quase vinte e quatro anos!... - Atalhou o Senhor Alexandre que continuou - tem irmãos lá em Portugal, João?
- Não, Senhor Alexandre, sou filho único e pelos vistos nasci mais ou menos na altura em que o Senhor embarcou para o Brasil, eis a razão porque é bem pertinente a pergunta que me faz…
- Como assim, João? - Aqui o fazendeiro já deu uma pequena prova de ter assimilado algo dos modos de falar dos brasileiros - a frase “como assim”, na interrogativa, parece-nos ser mais de origem brasileira do que portuguesa.
O João respondeu:
- Parece-me evidente, sendo o Senhor Alexandre amigo do meu pai, e tendo partido para o Brasil antes de eu ter nascido, é por demais natural que não tenha acompanhado nada da sua vida, após o casamento com a minha mãe, e daí não saber, de modo algum, quantos filhos os meus pais tiveram, e, por conseguinte, se eu tinha ou não tinha irmãos, e, se os tivesse, quantos seriam.
O fazendeiro não conteve a necessidade de exprimir um largo sorriso, que acompanhou da seguinte frase:
- O meu amigo João parece-me um indivíduo inteligente. Naturalmente que sabe ler bem, e escrever. Fez a quarta classe?
- Não, Senhor Alexandre, tenho apenas a terceira. Mas olhe que lá no lugar de Baloutas, de todos os rapazes e raparigas da minha idade, eu sou o único que fez a terceira classe, e mesmo em toda a freguesia de Painzela parece-me que só uns quatro ou cinco a fizeram. Como o Senhor sabe muito bem, a gente logo que começa a andar tem que começar a trabalhar, ainda eu que sou filho único tive alguma sorte por causa disso, mas aquelas famílias que têm sete, dez, ou mais filhos, aquilo é uma miséria de criar pena…
(continua-24)

Por: Torcato Santiago

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