Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-11-2007

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA (Continuação 22)

Oh! Tem graça, é o apelido de um grande revolucionário do tempo da implantação da República. Já ouviste falar no Paiva Couceiro?
- Já sim senhor, mas não somos nada um ao outro…
O Manuel Carlos mostrou algum receio de ser conotado com um revolucionário, e o brasileiro continuou:
- De onde é que vocês vêm?
- Olhe, estivemos um ano a granjear uma lavoura, nos arredores de Chacim, quem vai para Boadela, que se chama Eirinha, mas devido à grande seca que se verificou todo este ano que está a acabar, não colhemos nada, nem para as medidas, e tivemos que deixar as terras e vir embora…
- Quantos filhos têm?
- Temos três rapazes, o mais velho com quatro anos, e dois gémeos a seguir, que fizeram dois anos no dia vinte e um do mês passado.
- E trabalho? O que é que pensas fazer agora?
- Olhe, Senhor Joãozinho, eu por enquanto ainda não tenho nada, mas como a estrada de Magusteiro ainda não terminou, vou ver se arranjo lá alguns dias, eu já lá trabalhei durante mais de dois anos, antes de ir para a Eirinha. Aguentei a ponte da Urtigueira desde os alicerces até à colocação das guardas, aquilo é que uma obra, o Senhor Joãozinho já foi vê-la?
- Ah! Ainda não, mas um dia destes vou até lá. Nessa altura peço-te para me acompanhares. Se calhar vamos pelo lado de Cambezes, dizem que há para ali um penhasco a que chamam o Nariz do Mundo, e eu tenho alguma curiosidade em conhecer.
- Está bem, Senhor Joãozinho, o Senhor é só dizer que eu farei muito gosto em acompanhá-lo. No que respeita ao sítio, propriamente dito, do Nariz do Mundo, na verdade nunca por lá passei, mas já andei por perto, quando ainda era solteiro, vai aí para uns sete ou oito anos, ainda havia a guerra, e eu acompanhei um grupo de farristas, da Cancela, que andavam por ali às “pintas”. Sabe o que são pintas? Pintas eram pequenas pedras pretas, bastante pesadas, que tinham uma porção de volfrâmio, mais ou menos elevada, consoante a cor e o peso da pedra…
- Está muito bem, muito prazer em conhecer-te, e então, por um dia destes, combinaremos uma viagem pelo Nariz do Mundo, e depois à Ponte da Urtigueira. Até logo…

A história do brasileiro, do Senhor João Coelho, é uma história mais ou menos comum à de milhares de portugueses que em finais do século XIX e início do século XX, procuraram melhor vida, que o mesmo é dizer melhor fortuna, em terras de Vera Cruz. Nasceu e cresceu até obter a maioridade, em Baloutas, freguesia de Painzela. Os pais eram proprietários de uma pequena casa, situada da parte de cima da estrada, do lado direito, para quem vai no sentido de Braga, que tinha umas leiras bastante secas, com muitos carrascos de carvalho nas bordas, e algumas vides; vides que quase não davam uvas, pois que tudo ficava cheio de pó, por altura de limpar, e vinho nem vê-lo. No que respeita a milho, era meia dúzia de espigotos, devido à falta de água para rega, na altura em que o milho precisa de ser regado, no mínimo, uma vez por semana, logo a seguir ao S. João.
Não tinha irmãos, era filho único, pelo que fome não passou na infância, o pouco dinheiro que o pai ganhava, em biscates de trolha, foi dando para não passar fome de pão e caldo. Quando fez vinte anos foi à inspecção, a primeira guerra mundial tinha acabado, nesse preciso ano, em 1918, e ele ficou apenas como reservista, com a obrigação de não se ausentar do país, sem autorização do ministério da defesa, durante dois anos.
Logo que terminou o período de dois anos de reserva militar, conseguiu que uns amigos do pai, que se encontravam no Brasil, há mais de vinte anos, lhe mandassem uma carta de chamada, com garantia de emprego, logo que chegasse a terras brasileiras. Embarcou no navio Zaire, um dos navios da Companhia Colonial de Navegação, no cais da Rocha do Conde de Óbidos, em Lisboa, no dia 23 de Janeiro de 1920. Foi numa quinta-feira, eram dez horas da manhã quando o navio largou ferros em direcção à foz do rio Tejo. A viagem teve escala na ilha do Sal, em Cabo Verde, ao fim de catorze dias, o navio levava um carregamento de milho para aquela colónia portuguesa. A descarga demorou dois dias, tempo mais que suficiente para que o jovem passageiro pudesse dar uma grande volta pela cidade, e zonas adjacentes, ficando a conhecer praticamente toda a ilha do Sal.
Ao fim de dois dias de paragem na ilha do Sal, em Cabo Verde, o navio seguiu viagem com destino à cidade de Salvador, no estado da Baía, na costa leste da América do Sul, melhor dizendo, na costa atlântica que banha o Brasil. A viagem demorou mais doze dias, pelo que a chegada ao porto de Salvador foi no dia 20 de Fevereiro, uma quinta-feira, o mesmo dia da semana que o da partida, o que significa que o total da viagem foram quatro semanas, vinte e oito dias. Estava muito quente, a cidade de Salvador fica ligeiramente próxima da linha separadora dos dois hemisférios terrestres. Quando é Inverno no hemisfério norte, há, obviamente, mais calor no hemisfério sul.
Ao desembarcar no porto de Salvador, o João, o nosso jovem emigrante, tinha à sua espera o amigo do pai, que lhe tinha remetido a carta de chamada. Esperava-o na gare, com um letreiro pendurado do pescoço, com o nome escrito, em letras bem grandes, “João Coelho”. Este avistou-o logo, e dirigiu-se-lhe sem demora. Apresentou-se, cumprimentaram-se, e o anfitrião disse-lhe que iriam de imediato comer qualquer coisa a uma tasquinha próxima, que dali a duas horas tinham que tomar a embarcação, que fazia a cabotagem entre Salvador e Ilhéus. O destino era a Prefeitura de Couto Pardo, cerca de uns vinte quilómetros para o interior, a partir da cidade costeira de Ilhéus.
(continua-23)

Por: Torcato Santiago

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