Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-11-2007

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

(continuação-21)
Como os lameiros eram mais húmidos, por serem perto do ribeiro, mesmo sem rega de pé, ainda se logrou que algumas espigas vingassem e maturassem. A produção ficou-se por vinte e cinco alqueires de milho e duas rasas de feijão, menos de um terço do que seria a produção normal em ano de condições normais de clima.
O patrão tinha emprestado vinte rasas de milho, no início do contrato, com a condição de lhe serem devolvidas pelo S. Miguel, aquando da colheita. Significou que, no fim do ano, o pobre do caseiro ficou apenas com cinco rasas, e estas ainda poderiam ser questionadas para pagamento das medidas. Contudo, parece que não tinham sido estipuladas quaisquer normas quanto a medidas, pelo que os cereais seriam, tal como as cerejas, a meias, o que, em bom rigor, obrigaria a que, daquelas cinco rasas sobrantes, metade deveria ser para o patrão. Pelo que consta, é de presumir que neste pequeno, mas importante pormenor, o Senhor Joãozinho terá sido um pouco benevolente, e não terá exigido a partilha das cinco rasas de milho sobrantes, depois da paga das vinte, que havia adiantado, no início do ano do contrato de arrendamento.
Em Setembro, pelo S. Miguel, foram vendidos os dois vitelos. Foi o Torrinheiras quem os comprou. Deram mil escudos, um conto de réis, cada um. Entretanto, tendo o caseiro concluído pela inviabilidade da continuação do granjeio das terras, pois não tinha colhido nem milho nem vinho para o sustento da actividade durante todo um novo ano a que haveria que dar continuidade, foram igualmente vendidas as vacas, a linda e a vermelha, agora já adultas, já tinham dado uma boa cria cada uma. Foram vendidas a um caseiro de Painzela, do lugar de Terreiros, por sete contos, o que significa que, mesmo depois de desmamadas, ainda deram duzentos escudos de ganho, ou seja, lucro.
O Manuel Carlos pediu desculpa ao Senhor Malvino, e que, em seu nome, fizesse a entrega da lavoura ao patrão, pois não dispunha de meios, nem de força moral, para continuar a labutar, na Eirinha, sem um pingo de esperança no horizonte. O Senhor Malvino, que compreendia a situação melhor do que o próprio, tentou dar-lhe algum ânimo e disse-lhe:
- Está descansado, Manuel Carlos, que eu explicarei a situação ao Senhor Joãozinho, não ficarás mal, de modo nenhum, e, quem sabe, entretanto poderá até aparecer-te melhor possibilidade de tocares a tua vida para a frente. Agora, e uma vez que decides deixar a Eirinha, precisas de arranjar um sítio onde te abrigares, a ti, à tua mulher e às três crianças.
O Manuel Carlos respondeu:
- Como sabe, Senhor Malvino, ainda não tenho qualquer ideia para onde poderei ir com toda a família, e o tempo já é curto, falta pouco mais de um mês para os Santos…
- Não te preocupes - disse o Senhor Malvino - sou amigo do marceneiro da Cruz do Muro, e ele tem um pequeno “casulo”, pegado à oficina de carpintaria, que está vazio e, para uma primeira solução, poder-se-á arranjar, vou falar com ele.
E foi novamente o Senhor Malvino, quem arranjou alojamento para o jovem casal, agora na Cruz do Muro, junto ao caminho, que sobe da Senhora da Saúde, em direcção a Chacim e a Leiradas.
Repetiu-se o cenário, triste, da mudança. Nos primeiros dias de Novembro de 1949, com a ajuda dos mesmos dois amigos, que um ano antes, tinham realizado a muda desde o Banido de Baixo até à Eirinha. Agora fizeram-no desde a Eirinha até ao singelo casebre, que ficava na Cruz do Muro, ao lado da carpintaria do senhor Francisco Marceneiro, e em frente do palacete de um brasileiro, que tinha chegado do Brasil, de torna viagem, e ali se instalara, construindo uma vistosa vivenda e gozando dos rendimentos.

***
A Cruz do Muro, tal como a Sobreira, a Cancela, ou a Raposeira, é um dos lugares mais típicos da freguesia de Refojos. A sua referência principal é a capelinha da Senhora da Saúde. Tem também as fontes do Pial. Como casa importante, há a casa do Senhor Tenente Bernardo, proprietário da quinta de Monte Covo, quem vai no sentido da igreja de Riodouro. O acesso ao lugar, para quem vai a pé, é feito a partir da Ponte de Pé, junto à capela de S. Lourenço, por um caminho íngreme, onde não passa carro de bois. Luz eléctrica fica-se ainda pelo limite da barreira da Ponte de Pé, com uma pequena extensão até à Quinta da Mata.
Não passou, como não podia deixar de passar, despercebida a chegada do novo vizinho ao brasileiro. O brasileiro chamava-se João Coelho, conhecido e tratado por Senhor Joãozinho. Era um cidadão, natural de Baloutas, freguesia de Painzela, que tinha emigrado para o Brasil, no início dos anos vinte, deste século XX, quando tinha vinte e dois anos de idade. Fizera fortuna com facilidade, e casara com a filha de outro emigrante, que era oriundo de Vouzela, e também tinha ido para o Brasil só que no século passado, falamos do século XIX. A mulher chamava-se Piedade, a Senhora Dona Piedade. Em boa verdade, o nome condizia com a personalidade, o seu jeito de ser, era uma jóia de pessoa, amiga dos pobres.
O brasileiro era um pouco emproado, dava-se ares de importante, tinha um dente de ouro. O Manuel Carlos, na sua simplicidade e fraqueza económica e financeira, logo que se cruzou com ele, no dia seguinte ao da chegada ao casebre, tirou a boina da cabeça e saudou:
- Bom dia, Senhor Joãozinho.
- Bom dia - respondeu o outro, levando o indicador direito, dobrado em meio arco, até à frente da testa, tocando na aba do chapéu, e interrogando-o - como te chamas?
- O meu nome é Manuel Carlos, nome completo Manuel Carlos Couceiro.
(continua-22)

Por: Torcato Santiago

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