Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-10-2007

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (82)

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A TÁCTICA DO BOLSO FURADO

Foi notícia em todos os jornais, diários generalistas e desportivos, a realização do quadragésimo circuito de Vila Real, que teve lugar nos dias cinco, seis e sete do corrente mês de Outubro de 2007. Trata-se de uma das mais tradicionais provas do desporto automóvel, pese embora o facto de as mesmas se terem encontrado suspensas por um período de dezasseis anos. Certamente que terá sido essa uma das principais razões do redobrado interesse demonstrado, este ano, pelos amantes da modalidade e pelo público em geral.
Pode ler-se, em tudo quanto é fonte de informação, que o circuito teve o seu início nos anos trinta do século passado, mais concretamente em 1931, por vontade de um grupo de entusiastas locais liderados por Aureliano de Almeida Barrigas. Que teve o seu auge nas décadas de sessenta e setenta e acabou por ser suspenso, em 1991, na sequência do despiste do piloto Pedro Carvalho, na chamada curva da “Ford”, na zona da Araucária, o qual provocou quatro mortos entre a assistência e ferimentos graves em vários espectadores.
A história que aqui vou contar passa-se no decurso das provas do circuito de 1966, que tiveram lugar nos dias onze e doze de Junho, uma vez que, naquele tempo, a realização do circuito coincidia com as festas da cidade, e estas ocorrem por ocasião da quadra do Santo António, que é o seu padroeiro. Não sei porque razão o reinício do evento se verificou em data do ano tão diversa daquela. Será motivo para posterior investigação.
Aquando da minha incorporação no serviço militar obrigatório, eu poderia muito bem ter sido incorporado em Tavira, Mafra, Santarém, ou qualquer outro lugar, onde, por norma, eram incorporados todos aqueles que viriam a ser oficiais e sargentos milicianos. Mas, por ironia do destino, aliás, o destino para mim tem sido, quase sempre, extremamente irónico, eu fui incorporado no Regimento de Infantaria número treze, em Vila Real. Fui para o “contingente geral”.
O Regimento de Infantaria número treze era, como ainda hoje é e qualquer um pode ver, uma pequena cidade. Para além de uma companhia de comandos e serviços tinha três companhias de instrução, cada uma com quatrocentos e cinquenta recrutas, distribuídos por seis pelotões, estes com setenta e cinco militares cada. Eu fui incorporado na segunda companhia e pertencia ao quinto pelotão.
Naquele ano de 1966 era Director da Instrução o Major Lobato de Faria, comandava a segunda companhia o Capitão Granjo de Matos, o quinto pelotão era comandado pelo Aspirante Miliciano Sérgio de Andrade e eram instrutores da recruta os Cabos Milicianos António Peixoto e Fernando Rodrigues.
Depois de todos os procedimentos de instalação na nova vida, como: um banho quase colectivo, os chuveiros eram em linha e em grande quantidade para que muita gente pudesse tomar banho ao mesmo tempo; o corte de cabelo da praxe, a que se chamava carecada, também em fila, cada corte demorava pouco mais que um minuto; finalmente o levantamento da farda e das botas, havia a possibilidade de escolher as botas o mais aproximado possível das medidas de cada um.
De seguida cada qual procurou a sua cama na caserna indicada que, no nosso caso, era a caserna da segunda companhia. A caserna era um grande espaço amplo, com um corredor a todo o comprimento de um dos lados, no qual estavam os armeiros fixados a uma das paredes, onde se pendurava a espingarda mauser, os arreios e o capacete. A parte dos aposentos tinha compartimentos com corredores verticais a partir do corredor principal. Cada um daqueles compartimentos era subdividido em outros mais pequenos onde estavam colocados dois beliches de cada lado, com duas camas cada um, uma por baixo outra por cima. As paredes interiores de todos os compartimentos tinham uma altura inferior a dois metros, pelo que, quem ficasse nas camas de cima e levantasse um pouco a cabeça podia observar toda a extensão da caserna.
Os meus três camaradas de compartimento eram: o Pinto que era de Amarante, o Silvestre que era de Cinfães e o Juvenal que era de Montalegre. O Silvestre tinha ido para o Porto, para caixeiro, logo que fizera a quarta classe, quando tinha doze anos; o Juvenal estava em Lisboa havia cinco anos, desde que fizera quinze e trabalhava como empregado de um hotel; eu e o Pinto nunca tínhamos saído das nossas terras, respectivamente de Cabeceiras e de Amarante. Eu fiquei numa dos beliches da parte de cima, do lado direito, o Silvestre ficou na outra da parte de cima, do lado esquerdo.
A recruta correu normalmente e, por altura das corridas de 1966, estava quase no fim. As corridas tiveram lugar no fim-de-semana de onze e doze de Junho, e a recruta viria a terminar no fim-de-semana de dois e três de Julho, exactamente dois meses a partir do dia da incorporação que ocorrera a dois de Maio.
Fomos às corridas, eu e o Silvestre. Os outros dois tinham ido de fim-de-semana a Amarante e a Lisboa. O Silvestre já me tinha contado um bom rol de histórias relacionadas com engates de sopeiras na cidade. Quando foi para a tropa era caixeiro de balcão, na Casa Africana, que ficava na Rua de Costa Cabral, na cidade do Porto.
Saímos do quartel e voltamos à esquerda, no sentido inverso aquele onde se encontravam as bancadas, tentámos encontrar um lugar estratégico para ver o melhor possível o espectáculo sem termos de pagar. Subimos um pouco a estrada que estava vedada a qualquer tipo de veículo. Colocámo-nos próximo do terminus, até onde vinham as carreiras da Empresa Cabanelas, largando ali os passageiros e invertendo a marcha por estradas secundárias.
Cruzámo-nos com duas moças que tinham acabado de sair da camioneta. Não se pode dizer que eram bonitas ou que eram feias, eram uma coisa, pela certa. Para nós eram duas boasonas. O Silvestre encarregou-se do trabalho de iniciar o diálogo e convencê-las a aceitar a nossa companhia, ali num ponto de boa visibilidade, voltados para uma curva onde os carros entravam de lado e em derrapagem, à sombra de uma frondosa oliveira. As pessoas que se encontravam mais próximas estavam aí a uma distância de cerca de vinte metros. Soubemos os nomes e de onde vinham. Uma era Rosalina e outra era Matilde e vinham de Sabrosa para verem as corridas.
Sentamo-nos um de cada lado e as duas no meio. A Rosalina junto a mim, que estava do lado esquerdo, e a Matilde junto ao Silvestre, que estava do lado direito. No início tudo bem, tudo normal, eu não estava a dar por nada e mantinha-me muito discreto, embora tentando por a mão sobre o joelho da Rosalina que ela procurava cobrir puxando a saia para baixo. A certo ponto a Matilde puxa a cabeça da Rosalina para si e segreda-lhe qualquer coisa ao ouvido. Não demorou dois minutos e a Rosalina mete-me a mão no bolso das calças do meu lado direito. Eu estava com alguma excitação e, sem que houvesse qualquer iniciativa da minha parte, ela rompe-me o bolso com as pontas dos dedos da sua mão esquerda. A mão esquerda dela era aquela que ficava do meu lado.
Chegaram depressa as seis horas. A Rosalina e a Matilde tiveram que tomar a última camioneta para Sabrosa, que parava ali mesmo ao lado, e nós tivemos que regressar ao quartel para o rancho que era impreterivelmente às seis e meia da tarde. Pelo caminho o Silvestre confidenciou-me: «amigo Oliveira, um homem deve trazer sempre um bolso das calças furado e de preferência o bolso do lado esquerdo, quanto às razões, espero que não sejas burro de todo e as descubras por tua própria conta». Fiquei ciente.





Por: José Costa Oliveira

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