Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-10-2007

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

(continuação-20)
A primeira coisa a fazer foi dar água, do caneco, aos três, estavam na verdade mortos de sede. Depois foi acender o lume e preparar uma chocolateira de cevada para os gémeos tomarem com umas migas de pão de milho, ao Zé foi dada uma lasca de bacalhau cru com uma fatia de pão. Comeram todos, os gémeos sopas de cevada e o Zé e os pais pão e bacalhau cru, e beberam água do caneco, que entretanto o pai fora buscar fresquinha à fonte, pese embora o facto de a fonte já deitar muito pouca.
De seguida, e sem qualquer demora, foi abrir a porta da corte às vacas e levá-las a pastar até aos campos da Ribeira. Estas já tinham parido em finais de Abril, cada uma tinha o seu vitelo com dois meses, que não paravam de se agarrar às tetas, pelo que a linda e a vermelha estavam também cheias de fome e berravam dentro da corte batendo com os cornos contra a porta. Os vitelos seriam vendidos quando tivessem mais ou menos cinco meses, em finais de Setembro, pelo S. Miguel, e deveriam dar mil escudos cada um.
O pai pegou numa sachola e entregou a vara de marmeleiro ao rapaz, soltaram as vacas da corte e encaminharam-nas no sentido da Ribeira. Depois de saírem o quinteiro o pai disse para o Zé:
- Olha Zé, toca as vacas pelo caminho, que eu vou a direito, pelo carreiro, para abrir as poças e deitar a água a regar os lameiros.
O Zé acenou com a cabeça dizendo que sim. Seguiu atrás das vacas, teve alguma dificuldade em acompanhá-las. Elas sabiam perfeitamente o caminho e tinham pressa em chegar ao destino, tal era a fome que tinham de mamadas que estavam.
O feno dos lameiros tinha sido cortado no fim de Maio, estava numa meda, e agora crescia a erva tenrinha e viçosa, na razão directa da rega que lhe era feita, diariamente, com a abertura da água das duas poças, que existiam no riacho que corria pela encosta abaixo.
Enquanto as vacas pastaram, e o Zé as tornava de um lado, o pai apanhou um feixe de lenha, carrascos de carvalho e de giesta, na borda de cima dos lameiros. Quando o sol se aproximou da encosta de poente, as vacas estavam fartas, e o pai que já tinha o feixe de lenha atado com duas vergas de carvalho, disse de novo para o Zé:
- Agora tocas as vacas para casa, tal como fizeste há bocado quando vinhas para cá, enquanto eu vou pelo carreiro e levo este molho de lenha. Quando chegares a casa com as vacas eu já lá estarei, está bem, Zé?
Recebeu novamente um aceno com a cabeça afirmativo. O rapaz lá acompanhou os animais com destino a casa. Não havia nada que enganar, o pequeno até podia muito bem não se lembrar do caminho, os animais não falhariam o destino, tinham as crias em casa, e nada as faria mudar de rumo, o difícil seria tentar conduzi-las por caminho diferente.
As sapatilhas, que o Zé usara desde os dois anos, quando fazia os inesquecíveis passeios, até ao Mosteiro, na companhia do tio Gonçalo, para ver os grandes e os pequenos popós, e pese embora o facto de ainda se encontrarem em razoável estado de conservação, já não lhe serviam. Eram agora disputadas pelos gémeos, e o Maciel, que parecia ser mais robusto, até porque era moreno, levava sempre a melhor sobre o Bernardo, que se mostrava mais compassivo, até porque era louro. O Zé andava descalço, estava-se no mês de Junho, o frio não era problema, mas, enquanto tocava as vacas, pelo caminho, no regresso da Ribeiro, espetou um espinho de tojo no calcanhar do pé esquerdo. Chegou a casa em bico de pé, de queixo caído, quase a chorar. O pai perguntou-lhe:
- Que é que tens no pé? Que cara é essa?
O Zé respondeu a choramingar:
- Tenho um pico e não posso andar…
O pai, depois de se ter certificado que os dois vitelos ficaram a mamar, e ter fechado a porta da corte das vacas, subiu as escadas com o rapaz ao colo, sentou-o no escano, e foi ao escaninho da caixa buscar a agulha com que a mulher lhe cozia os rasgões das calças e das camisas e desinfectou-a, passando-a pela chama da fogueira que ardia na lareira, onde estava a ser feito o caldo. Depois, com muito jeito, retirou o espinho, “o pico”, de tojo, que tinha quase um centímetro, e estava bem espetado no calcanhar fino do pé esquerdo do rapaz. De seguida, escaldou o sítio de onde tinha saído o espinho, com uma concha de água a ferver, que tirou do pote, que até já tinha as couves, e que seria o caldo da ceia.
O dia terminou, o Zé estava mesmo cansado. Era o tempo dos dias grandes de Verão, logo que começou a escurecer, já eram quase dez horas, comeram todos, cada um a sua malga de caldo, com pão, e o Zé adormeceu, sentado no escano. O pai pegou nele, com cuidado para não o acordar, e deitou-o na cama, para os pés, ele dormia na cama dos pais para os pés. Dormiu como uma pedra até ao dia seguinte. Os pais também dormiram como justos, e não tiveram oportunidade de o acordar para ele ir fazer xixi, abaixo da varanda, por entre as ripas. Inevitavelmente, fez xixi na cama, sonhou que estava a mijar abaixo de uma borda, nas leiras da Ribeira, enquanto tornava as vacas, com a vara de marmeleiro na mão esquerda e a segurar a grila com a mão direita.
O ano de 1949, em particular as estações da Primavera e do Verão, caracterizou-se por uma enorme seca, ficou na história como tendo sido um dos anos mais secos desde o início do século. Logo a partir dos primeiros dias do mês de Julho, a mina que alimentava uma poça, ao cimo das leiras, secou e o milho e os feijões acabaram por definhar. O milho não deitou pendão, e os feijões nem sequer floriram. No princípio de Agosto foi o açude do ribeiro que deixou de fornecer água para regar os lameiros, a pouca água que ainda descia o ribeiro sumia-se por invisíveis brechas da parede do açude e não chegava gota à levada, que seguia até aos talhadoiros, que penetrariam no meio do milho em crescimento.
(Continua-21)

Por: Torcato Santiago

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