Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-10-2007

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

O nosso homem gastou um dia completo, a apanhar quatro cestos de cerejas, bem cheios, com o máximo de cuidado para não as pisar, colhendo-as com os respectivos rabinhos, e ainda um ou outro raminho de folhas para embelezar. A fruta da lavoura era a partir, isto é, dois cestos foram para o patrão, entregues pelo casal, na casa daquele, no dia em que tinham sido apanhados, à noitinha.
Bem esperou, no dia apalavrado para a entrega dos dois cestos de cerejas, cuja venda tinha sido negociada, mas o meliante do comprador não apareceu. As cerejas não serviriam para nada, o destino era o quinteiro, seriam despejadas em cima de algum do mato que ali se encontrava, e teriam o mesmo fim que o mato depois de pisado pelos animais. Algumas ainda seriam comidas pelas galinhas, mas este não é o melhor manjar para aves de capoeira.
No Arco de Baúlhe, realizava-se uma feira quinzenal, era aos quinze e aos trinta de cada mês. Aquela situação de ficarem com as cerejas apanhadas e sem comprador coincidiu com a véspera do dia trinta de Junho, portanto, dia de feira no Arco. O jovem caseiro, durante a noite, sem dormir, enquanto fixava os olhos nos caibros e nas ripas que suportavam as telhas por cima da sua cabeça, teve uma lembrança, ele próprio iria vender as cerejas à feira. Disse para a mulher:
- Estás acordada?
- Estou.
- Hoje é a feira dos trinta no Arco, e se fossemos os dois, cada um com o seu cesto, tentar vender as cerejas, na feira?
- É tão longe, nem sabemos o caminho direito, e os meninos…?
- Quanto ao caminho não há problema, eu quase que o sei direito, vamos daqui por Boadela, atravessamos o centro de Pedraça, descemos a direito até à ponte, junto da casa dos cantoneiros, e depois é só subir até ao alto da Serra, que é onde fica o campo da feira. Os meninos deixamo-los na varanda, os três, recomendamos ao Zé que guarde os irmãos, para que não se metam entre as ripas e possam cair ao quinteiro, fechamos a porta com a chave e levamos os “palhites”, para que não sejam tentados a fazer lume e queimarem tudo, até eles mesmos.
- Está bem, se achas que podemos vender algumas cerejas e fazer algum dinheiro…, o que era bom era se conseguíssemos vendê-las todas…
- Vamos tentar…
Assim fizeram. Manhã cedo, acordaram os três rapazes, o Zé tinha quase quatro anos, e os gémeos tinham vinte meses, deram-lhes caldo e pão, eles comeram também caldo e pão, recomendaram ao Zé que guardasse bem os meninos, que não os deixasse aproximar-se das ripas da varanda, fecharam as portas todas com a chave e levaram os “palhites”.
Iniciaram a caminhada ainda não tinha nascido o sol, ele com um cesto de carvalho às costas, sobre o ombro esquerdo, e com a vara de marmeleiro a segurar por baixo, a partir do ombro direito. Ela com o outro cesto, também de carvalho, igualmente cheio de cerejas, à cabeça, colocado sobre um rolo, feito com um trapo, a que se chama rodilha. Fizeram o trajecto delineado pelo Manuel Carlos, durante a madrugada, enquanto falava com os seus botões, e mirava as telhas por cima da cabeça. Chegaram à feira, depois de duas horas de caminho, já o sol ia alto, cada um carregado com o seu cesto, sem qualquer dúvida que ambos iam completamente estafados. Colocaram-se na carreira da fruta, parece que não havia por ali perto muitas cerejas à venda, era necessário uma medida para iniciar o processo de venda.
A mulher foi ao lado, junto de um tendeiro, e comprou uma malga grande, que levaria um pouco menos de um quilo, talvez entre meio quilo e três quartos. A malga custou cinco tostões, e serviu de exemplo para estabelecerem o preço das cerejas, seria a cinco tostões a malga. Começou logo a aparecer compradoras, as mulheres que passeavam carreira abaixo, carreira acima, olhando a fruta. As cerejas eram de facto tentadoras, vermelhinhas, e a brilhar, com alguns raminhos de folhas pelo meio, que ajudaram a que não ficassem pisadas. Uma malga para esta, duas malgas para a que veio a seguir, e assim por diante, houve uma mulher que levou dez malgas, devia ser pouco mais ou menos quatro quilos.
Foi, na verdade, um sucesso, fizeram vinte e cinco escudos, o que significa que, em termos quantitativos, se tratou de cinquenta malgas, vinte e cinco malgas cada um dos cestos. O comprador da Ponte de Pé, que falhou o negócio, não teria dado mais do que dez escudos, cinco escudos por cada cesto, era o preço corrente. O casal ficou felicíssimo, tinham terminado a venda quando ainda não era meio-dia, passaram por uma tasca, comeram meio quilo de broa, e beberam uma caneca de vinho, os dois, depois foram à mercearia da Casa Oliveira e compraram meio quilo de bacalhau, um quilo de arroz, um quilo de massa, cinco tostões de cevada, cinco tostões de sal, dez tostões de açúcar, cinco tostões de sabão. Não compraram azeite nem petróleo porque não tinham levado as almotelias, o Manuel Carlos levaria estes dois bens de consumo, estritamente necessários, logo que fosse a Chacim e passasse pela loja do Senhor Albano da Pereirinha.
Após terem matado o bicho na tasca, e feito as compras na mercearia, regressaram de imediato a casa, as crianças estavam sozinhas e isso era, sem qualquer dúvida, uma dor de cabeça para ambos. Chegaram a casa quando passava um pouco das duas horas, as três crianças estavam cheias de fome e de sede, os dois mais pequenos, os gémeos, já tinham bebido da sua própria urina, de cima das tábuas do soalho da varanda. O Zé não tinha feito o mesmo, apenas pela simples razão de que já não fazia xixi no soalho, ele deitava a grila de fora, e mijava por entre as ripas da varanda, para o quinteiro.

(continua-20)

Por: Torcato Santiago

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