Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-09-2007

SECÇÃO: Opinião

ARMANDO LEÇA
Um dos maiores vultos da música regional portuguesa

II

Portugal não se espelha
Nas tortuosidades de Alfama
No artigo anterior, referi alguns aspectos biográficos de Armando Leça.

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Abordarei agora o seu percurso profissional e artístico.
A sua obra é enorme, pelo que só referirei, naturalmente, os aspectos mais relevantes.
Aos 17 anos de idade, encorajado por Óscar da Silva, começou a tocar, de forma remunerada, em festas, teatros, termas, etc, o que lhe deu alguma fama.
Aos 20 anos, em 1911, editou a sua primeira obra, intitulada Valsas Ob. 1.
Entre 1912 e 1919 editou uma série de obras:
· Canções Líricas
· A suite Cântico das Flores
· Uma sonata para violoncelo e piano
· Canções dum Português
· Filigranas
· Duas operetas: “Já Vi Tudo” e “Maio Florido”.
Em 1913 participou no Grande Festival da Canção Portuguesa, com assinalável êxito.
Durante um ano foi pianista num cinema em Coimbra.
Tornou-se professor de piano.
A estabilidade económica permitiu-lhe poder custear viagens mais frequentes pelo país, para recolha de modas e tradições.
Assim, percorreu todo país, todas as romarias e falou com o povo, ouviu cantar, viu-o rodopiar ao som do pandeiro, do bombo, da viola, dos ferrinhos e do cavaquinho.
Paciente e amorosamente recolheu …os cantares do povo, cheios de arcaísmos belos, após 9 horas de diligência e 6 a cavalo.
Armando Leça adorava viajar. É ele que diz: “Viajar! Ouvir cantar e bailar de maneiras regionais e variadas. Ir de manhã ao mercado, ás feiras, ás romarias; passar sob olaias floridas, ramadas frescas; trepar ás montanhas ao sol nascente, ou embebedar a retina na policromia dos poentes marítimos…”.
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Aquilino Ribeiro, no seu livro Arcas Encoiradas, descreve Armando Leça como “o primeiro viajante de Portugal, musicólogo e folclorista sem par…”.
Dessas viagens de romeiro perpétuo, ou músico caminheiro, resultou “A Música Popular Portuguesa”, 1º volume, obra de referência obrigatória para todos os melómanos folcloristas.
O 2º volume nunca chegou a sair por falta de apoios económicos.
Que perda!
Trabalho de investigação tanto mais de louvar quanto se sabe que foi praticamente a suas expensas, pois o Instituto para a Alta Cultura atribui-lhe um pequeno subsídio.
Na Emissora Nacional manteve um programa de divulgação da música regional portuguesa.
Para o Orfeão de Matosinhos escreveu numerosas obras musicais.
Foi director artístico de emissoras, grupos corais e ranchos folclóricos.
Colaborou nas seguintes publicações: O Comércio do Porto, Diário de Lisboa, A Luz, Pátria, Eco Musical, Arte Musical, Revista do Conservatório Nacional de Música, Ilustração Portuguesa, Cinéfilo, Civilização, Ocidente, O Tripeiro, e em jornais regionais, entre muitas outras.
Colheu e estilizou algumas melodias populares que foram usados como banda sonora de filmes portugueses da Invicta Filmes: Rosa do Adro – 1920 – para Corda e piano; Fidalgos da Casa Mourisca – 1921 – para Oboé, Harpa, Corda e Piano; Amor de Perdição – 1921 – para Corda e piano.
Elaborou acompanhamentos também para os filmes Mulheres da Beira e Tempestades da Vida.
Publicou, para além do acima referido, os livros:
· O Leal Conselheiro Infantil
· Da Música Portuguesa
· Danças Regionais Portuguesas, ilustrado por Guida Ottolini
Armando Leça, se não desdenhava o fado, recusava-lhe o estatuto de canção nacional, antes o considerando uma manifestação localizada.

(continua)

Por: Américo Freitas

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