Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-09-2007

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

(continuação-18)
- Pronto, está o negócio concluído, agora vai-te embora, a ver se ainda chegas a casa a tempo de botar algum penso às vacas. A Maria Margarida não se deve ter esquecido de arranjar alguma erva para lhe botar, mas de qualquer modo tens que ter bastante cuidado, pois que, no estado em que se encontram, prenhas de mais de três meses, podem muito bem ougar, e isso seria uma grande perda, em particular no teu caso, que estás em começo de vida. Sempre que precisares de alguma ajuda, em particular de jonguer as vacas para qualquer trabalho de carro, não hesites, é só desceres até minha casa e falares.
- Muito obrigado, Senhor Malvino, vou já meter pés ao caminho, até à Eirinha, a ver se ainda corto um cesto de erva, para a ceia das vacas, e também para a mulher e os pequenos não estarem sós ao cair da noite, é que, como muito bem sabe, o lugar é um bocado isolado e a minha mulher tem medo do canto das corujas.
O Manuel Carlos deixou o campo da feira quando eram cerca de quatro horas, fez o caminho todo em passo acelerado e chegou à Eirinha quando eram cinco e meia. Era quase noite, verificou, com satisfação, que a mulher, enquanto deixara no largo atrás da casa o Zé a cuidar dos dois gémeos, todos a brincar com o pequeno carro de bois, tinha ido aos lameiros, junto do ribeiro, e trouxera um grande cesto de erva, pelo que agora era apenas necessário serrar um pequeno braçado de palha de centeio, para misturar com erva, e fazer dois meios cestos de palhada. Palhada é uma espécie de salada para animais ruminantes, e que eles apreciam muito.

***
Os trabalhos de Inverno, numa qualquer lavoura da região do Entre-Douro-e-Minho, consistem em fazer a apanha da azeitona, roçar mato para estrumar os campos, quando chega a Primavera, e fazer a poda, em que a vinha é de enforcado, as videiras são plantadas ao longo das bordas dos campos, ou das leiras, junto de árvores que lhes servem de suporte, tais como carvalhos, negrilhos, choupos e amieiros, por vezes um ou outro plátano e também salgueiros e freixos. De espaço a espaço, pode ainda encontrar-se um arame, simples ou fazendo bardo, com dois ou três, a ligar uma árvore à outra.
Na Eirinha não havia oliveiras, pelo que, o jovem casal de caseiros agrícolas, não teve que executar os correspondentes trabalhos de apanha da azeitona, factor que não pode considerar-se de todo positivo, uma vez que também não colheu qualquer quantidade de azeite. Em boa verdade, e não obstante o facto de qualquer colheita ser dividida em três partes, e destas duas serem para o patrão, sempre ficaria algum para o sustento da casa, por muito pouco que fosse. Na falta de qualquer produção, tornava-se necessário comprá-lo, na loja do Senhor Albano da Pereirinha, quando houvesse dinheiro, umas vezes meio quartilho, outras vezes um quarteirão. Um quarteirão era, nos meios rurais, uma medida que correspondia a metade de meio quartilho, a um quarto de quartilho, e um quartilho era o mesmo que meio litro, logo, um quarteirão era o mesmo que um oitavo de litro.
Naquele Inverno, que marcou o fim do ano de 1948 e o início de 1949, o jovem caseiro fez a poda e roçou mato para a corte das vacas e para o quinteiro. Quando chegou o mês de Abril foram iniciados os trabalhos das lavouras, que o mesmo é dizer, estrumar e lavrar os campos para a sementeira do milho e feijão pelo meio. Em Abril, são lavrados os campos mais de sequeiro e, em Maio, aqueles onde há mais água para a rega. O milho é um cereal que requer muita água, deve ser regado com água de pé, pelo menos uma vez por semana, caso contrário, definha e não dá espiga que se veja.
Conforme tinha sido acordado, aquando do contrato de arrendamento, contrato consensual, porque não tinha sido reduzido a qualquer documento escrito, o patrão mandaria o seu criado, com a junta de bois pretos, de raça maronesa, para lavrar todos os campos da propriedade. Deste modo, em dias previamente marcados, no decorrer dos meses de Abril e Maio, foram sendo lavrados, primeiro as leiras mais secas que ficavam na encosta que desce a partir da casa do caseiro, depois os lameiros que ficavam na margem do ribeiro. Dava gosto ver os possantes maroneses a puxar o arado, nem um passo fora do rego, as seitas viravam, tombadas, de um lado ao outro do campo, a brilhar ao sol, o pessoal, três ou quatro pessoas, ao longo do rego, picava-as, de modo que a terra ficasse a jeito de, depois de ser lançada a semente, esta ser devidamente coberta pelo passar da grade, igualmente puxada pelos vagarosos maroneses.
Foi assim que se concluiu a fase da sementeira do milho e do feijão. Depois, pelo mês do S. João, procedeu-se à tarefa da sacha e da monda. Passado o S. João, e quando o milho já cobre um cão, é necessário regá-lo, com especial abundância de água, para que entumeça e se inicie o crescimento das espigas, e os feijões floresçam, com flores das mais variadas cores, brancas, amarelas, lilases e outras.
Havia algumas fruteiras, em particular, macieiras, pereiras e cerejeiras. As cerejeiras são as primeiras árvores de fruto a florir, quase no início da Primavera e, por conseguinte, também são as primeiras a dar frutos, que se colhem nos meses de Junho e Julho. Estava-se nos últimos dias de Junho, duas das cerejeiras, as de maior porte, que ficavam mesmo abaixo da casa, junto à borda de uma das leiras, pareciam dois andores, com os ramos todos voltados para o chão, a vergar com o peso das cerejas, vermelhinhas, eram bical vermelho. Um comerciante, da Ponte de Pé, que por ali passou, exactamente à procura de boas cerejeiras para comprar as cerejas na árvore, apalavrou a compra de dois cestos de carvalho cheios, para um dado dia da semana, o Manuel Carlos que as apanhasse, que ele passaria por ali para as levar, e que as pagaria no acto da entrega.
(continua-19)

Por: Torcato Santiago

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