Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-09-2007

SECÇÃO: Opinião

ARMANDO LEÇA
Um dos maiores vultos da música regional portuguesa

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A alma dos povos foi comum na sua iniciação musical… De mistura com o povo luso, havia os judeus e a moirama que se maneavam ao som de pandeiros, alaúdes e tamboris com suas retortas e folias.” – Armando Leça, in Da Música Portuguesa, 2º ed., 1942
I

Há homens que, por força da obra realizada, pertencem a toda uma nação, quando não ao mundo, tornando-se vultos de referência no campo do conhecimento que cultivaram.
Um desses vultos, no caso concreto da música folclórica portuguesa, ou da música regional, como ele gostava de dizer, foi precisamente Armando Leça.
Como veremos mais adiante, Armando Leça calcorreou todo o país, recolhendo canções e modas tradicionais.
Nessas suas recolhas também esteve no concelho de Cabeceiras de Basto, facto que está na base do interesse deste artigo.
Antes de me referir á sua passagem por esta parte das Terras de Basto, e que recolhas aqui efectuou, julgo ser interessante traçar alguns dos seus dados biográficos, o que melhor permitirá conhecer a grandeza da sua personalidade e o valor da sua obra.
Quem foi, então, Armando Leça, perguntará o benévolo, mas impaciente, leitor.
O Prof. Armando Lopes nasceu em 09.08.1891, numa casa na rua da Praia, hoje desaparecida com as obras do porto de Leixões, em Leça da Palmeira, localidade onde, por motivos de saúde da sua mãe, foi criado pela conhecida e antiga família local dos “Récios.
Embora proveniente de uma família “tripeira de gema”, Armando Lopes era um lecense de alma e coração, a ponto de adoptar para seu nome o topónimo da terra que muito amava.
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Veio a falecer na sua terra natal em 21 de Janeiro de 1977.
Era filho de Doroteia e seu marido, o maestro José Lopes, o famoso “Zé da Gaita”, alcunha que lhe ficou do tempo em que tocava saxofone.
De facto, seu pai, José Lopes, foi um dos mais conceituados maestro do Porto do seu tempo, tendo fundado e regido durante cerca de 40 anos a banda dos Bombeiros Voluntários do Porto.
Nascido no seio de numa família de músicos, não é de estranhar que a música viesse a ser a vocação de Armando Leça.
Começou a estudar música com José Cassagne e Pedro Blanco, que viriam a ser professores do Conservatório de Música do Porto.
Frequentou depois o Conservatório de Música de Lisboa, cujo director era Viana da Motta, tendo como colegas Luís de Freitas Branco e Rui Coelho.
Em Lisboa conviveu com os maiores vultos da cultura do seu tempo, como Augusto Gil, António e João Correia de Oliveira, Francisco Lages, Ângela Pinto, Robles Monteiro, entre muitos outros.
Casou com a violoncelista Irene Freitas, da qual teve vários filhos.
Como era um grande patriota, para os filhos escolheu nomes da nossa história: Óscar, Mécia, Rui, Martim e Fernão.
Óscar Lopes, o mais velho, co-autor da História da Literatura Portuguesa, conjuntamente com António José Saraiva, deve o seu nome à homenagem de seu pai ao grande compositor e pianista Óscar da Silva, autor de uma obra “D. Mécia”. (1)
A sua filha Mécia de Freitas Lopes foi casada com o escritor Jorge de Sena.

(1) – Ver “Dona Mécia. Novela lírica do séc. XIII. Música de Óscar da Silva. Breve História”, de Orlando Courrége, ed. do autor, Porto, 1970.

(Continua)

Américo Freitas
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