Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-09-2007

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

O Senhor Paulo, que tinha saído da Deveza, em Santa Senhorinha, por volta do meio-dia, e já tinha dado duas ou três voltas à feira do gado, estava já em frente da taberna da Elvira Marra. Não consta que tivessem combinado o local exacto para se encontrarem, mas parece que um sexto sentido os guiou, a todos, para aquele local. Na segunda-feira anterior, tinham selado o negócio bebendo umas canecas na tasca do Alfredo Fidalgo, agora certamente que iriam selar o pagamento na tasca da Elvira Marra. Foi o Senhor Paulo quem falou primeiro:
- Boa tarde, meus senhores, já vejo que os animais serviram…
- Boa tarde, Senhor Paulo - disse o Senhor Malvino. O Manuel Carlos fez uma vénia, não gostava de repetir frases feitas. O Senhor Malvino continuou:
- Sim, na verdade, como pude verificar pessoalmente trabalham muito bem, são muito mansas e quanto a comer também não há nada a apontar.
- Ah sim, isso é verdade, só por qualquer muito estranho acaso poderia esperar o contrário - disse o Senhor Paulo.
- Já viu por aí o Torrinheiras? - questionou o Senhor Malvino.
- Ainda há bocadinho me cruzei com ele. Oh, ali vem ele.
O Torrinheiras aproximou-se, com o chapéu ligeiramente inclinado sobre os olhos, e cada um dos dedos polegares enfiado de cada um dos lados do colete, as abas do casaco meio abertas para trás. Saudaram-se reciprocamente e o Torrinheiras falou:
- Estou a ver que está tudo bem, e vocês vêm pagar as vacas, não é verdade? Então vamos ali mais para dentro, que hoje é aqui o amigo Paulo, da Deveza, quem vai pagar duas canecas como mandam as normas.
Entraram para o interior da taberna, o Torrinheiras e o Senhor Malvino encostaram-se ao balcão, que era formado por duas tábuas ao comprido, com uma grande frincha a separá-las, era mais higiénico por causa dos percevejos, se a frincha fosse mais estreita eles poderiam acomodar-se ali com mais facilidade. O Manuel Carlos e o Senhor Paulo ficaram também em pé, ao lado dos outros dois, entre aqueles e outros clientes, que estavam mais para o interior, do lado esquerdo de quem entra, uma vez que o balcão se situava junto ao lado direito.
Mandaram vir duas canecas de vinho tinto e pão. O pão, desta vez, vinha num cestinho de varinhas, trazia meia dúzia de “bijous”, cada um pegou no seu, e começaram a comer e a beber também. O Torrinheiras e o Senhor Malvino beberam duma caneca, o Senhor Paulo e o Manuel Carlos beberam da outra. Enquanto bebiam e falavam acertaram as contas, em público, como é dos usos e costumes, o Senhor Malvino desabotoou o bolso de dentro, do lado esquerdo do casaco, que trazia cuidadosamente abotoado, sacou dos dois maços de notas novas, esticadinhas e a brilhar, e deu o maço maior ao Senhor Paulo, dizendo, conte se faz favor, são doze notas de quinhentos. O Senhor Paulo contou e disse, sim senhor, estão aqui seis contos de réis. Muito bem, disse o Senhor Malvino, pegando em três notas de cem do outro maço que tinha ficado nas suas mãos, passou-lhas de seguida, aqui tem mais trezentos escudos, com o sinal que recebeu na segunda-feira ali das mãos do Senhor Dominguinhos, ficamos satisfeitos de contas, não é verdade? É sim senhor, está tudo em ordem, respondeu o Senhor Paulo.
Voltando-se agora para o Torrinheiras, estendeu-lhe cinco notas de cem dizendo, aqui tem o valor do sinal que fez o favor de nos emprestar na segunda-feira passada, e receba também os agradecimentos do Senhor Joãozinho, que ficou muito sensibilizado com o seu gesto, e recomendou-me que não me esquecesse de lhe agradecer. Está muito bem, respondeu o Torrinheiras, dá também os meus cumprimentos ao patrão aí do rapaz.
Quando o Torrinheiras se preparava para seguir caminho, o Senhor Malvino fez questão em demonstrar todo o seu interesse em saber como tinha corrido a viagem ao Porto, e muito em especial como tinha encontrado a sua filha Isaurinha, como ia ela de estudos, agora na Faculdade de Medicina.
- Senhor Dominguinhos, correu bem a viagem ao Porto…
- Sim, correu muito bem. Olha, acabei por ficar lá dois dias, fui na terça-feira de manhã, como tinha referido, e vim na quinta-feira à tarde, cheguei a Rossas, na camioneta que ali passa às sete, em direcção a Vieira do Minho, depois subi até Aboim a cavalo, estava lá o meu criado, o João, com o cavalo à minha espera.
- E a sua menina, como se dá na cidade, e como está a encarar os estudos para médica?
- Está muito bem, antes de mais está em casa de familiares, os comerciantes da Rua das Flores, onde ela está hospedada, são segundos primos da minha mulher. No que respeita à cidade, a isso ela já estava habituada, tinha feito todo o liceu em Braga que, apesar de ser um meio bastante mais pequeno do que o Porto, é também uma cidade. No que diz respeito aos estudos, graças a Deus, parece que está a dar-se bem, tem três colegas que lhe dão muito apoio, uma é de Montalegre, outra é de Braga que ela já conhecia desde o liceu, e a terceira é de Canedo, aqui de Celorico de Basto.
- Estimo muito, e espero que um dia venha a ser médica aqui no nosso hospital, em Cabeceiras, quem sabe?
O Torrinheiras despediu-se, finalmente, deu boas tardes a todos os presentes, e desejou boa sorte ao Manuel Carlos, o jovem caseiro da Eirinha, que acabara de concluir o negócio com o pagamento das vacas, que comprara na segunda-feira anterior. Ficaram os três, o Manuel Carlos entregou finalmente a soga, devidamente dobrada, ao Senhor Paulo e despediu-se, este agradeceu e desejou-lhe boa sorte. O Senhor Malvino, depois de se separar do Senhor Paulo, dirigiu-se ao Manuel Carlos e disse-lhe:

(continua-18)

Por: Torcato Santiago

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