Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-08-2007

SECÇÃO: Opinião

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A FESTA DE S. BARTOLOMEU

Sempre foi minha curiosidade saber em que ano começou a realizar-se a Festa de S. Bartolomeu, mas esse desejo ficou dissipado após ter lido o que escreveu o Dr. Nuno Vasconcelos no seu livro primeiro, que diz que esse evento já vem de tempos esquecidos.
Antes de darmos uma ideia da época em que começou a dita festa, falemos do concelho de Cabeceiras de Basto que, em 1724, tinha 16 freguesias, onde se contavam a de Santa Maria de Aboim e Santa Maria de Várzeacova. Nesse mesmo ano, a Correição de Guimarães tinha 4 vilas: Guimarães, Amarante, Basto (Celorico) e Caneveses; 14 concelhos, onde se incluía o de Cabeceiras de Basto; e 16 coutos, dois deles no concelho de Cabeceiras, couto de Refojos e couto de Abadim.
Com a extinção das ordens religiosas e dos coutos, em 1834, nos anos subsequentes foram extintos os pequenos concelhos, como Cerva, Atei e Rossas, e criados novos concelhos, como o de Amarante, que em 1726 tinha apenas uma freguesia, S. Gonçalo, e em 1878 tinha 41 freguesias, as mesmas que hoje tem.
Celorico, a quem a Geografia Universal de 1878 chama “novo concelho”, tinha 36, ficou com 22 freguesias. E Cabeceiras, que tinha 16, perdeu duas para o concelho de Fafe, Aboim a Varzeacova, mas recebeu 3, Refojos e Abadim, que antes eram coutos, como já se disse, e Passos, que antes pertencia a Celorico. É nessa divisão geográfica, que terá ocorrido por volta de 1836, que Arosa passou a pertencer a Cabeceiras. Foi também dada ao concelho de Cabeceiras a freguesia de Salto, mas o povo do Minho, residente na sua vizinhança, começou a invadir terras pertencentes a Salto e, perante tais abusos, o povo desta freguesia negou-se a pertencer a Cabeceiras, preferindo ficar como estava, no concelho de Montalegre.
Foi o concelho de Cabeceiras de Basto dado por D. Sancho II a Gonçalo Rodrigues Forjas, seu primeiro senhor, tendo-se conservado na mesma família até ao último senhor, João Rodrigues Pereira, que faleceu doido e sem descendência. Por morte deste, o rei D. Filipe I de Portugal e II de Espanha, o deu a Cristóvão de Moura que, depois do licenciado Filipe Butaça Henriques ter feito o inventário do concelho e por Provisão de 23 de Abril de 1598, passou Cristóvão de Moura, Marquês de Castelo Rodrigo, a ser senhor do concelho de Cabeceiras, que mandou delimitar com grandes marcos de pedra, onde mandou desenhar as suas armas e com o ano de 1599. Um deles ficou no meio da Ponte Grande, a delimitar as duas províncias, Minho e Trás-os-Montes.
Cristóvão de Moura faleceu em Madrid em 1613. Sucedeu-lhe seu filho Manuel de Moura, segundo Marquês de Castelo Rodrigo, que o conservou até à feliz aclamação do rei D. João IV, ou seja, até 1640, ou, se calhar, até mais tarde, já que a Guerra da Restauração durou 28 anos.
Manuel de Moura operava contra o sereníssimo Infante D. Duarte e isso custou-lhe a confiscação dos seus bens em Portugal, passando o concelho de Cabeceiras de Basto a pertencer à Coroa, onde ainda se encontrava em 1725. D. Manuel de Moura morreu em Espanha.
Segundo se lê em “Cavez da Terra de Basto”, um pouco antes do último quartel do século XVI, ou seja, por volta de 1570, aparece-nos no lugar da Ponte de Cavez a Mitra de Braga como senhora directa de um extenso Prazo, constituído pelas terras e casas do Assento da Capela de S. Bartolomeu. É de admitir que a Festa de S. Bartolomeu tenha começado por essa altura, mais ano, menos ano.
Na verdade, por escritura de 4 de Abril de 1584, foi emprazado a Maria Pires o Meio Assento da Capela de S. Bartolomeu, ficando esta subenfiteuta, juntamente com outro subenfiteuta, António Manuel, da Casa de Cima, ou de Cá, obrigados a recolher as esmolas depositadas na Capela no dia de S. Bartolomeu, 24 de Agosto, a fim de serem entregues à Mitra de Braga.
Isto quer dizer que já por essa ocasião se festejava o S. Bartolomeu, pois o povo aproveitava, uns para cumprir promessas, outros para ser exorcizados, mais as jovens possessas que traziam o Diabo no corpo e à entrada da Capela faziam grande gritaria, estrebuchando até levar com o Santo na cabeça. Depois de curadas, iam lavar a cabeça à fonte e beber a água milagrosa.
No meio de tudo isto, os desordeiros da região bradavam “Transmontanos, vinde à Capela” e estes a reponderem “Minhotos, vinde à fonte”, para daí a pouco cair pancadaria à brava.
Quando Arosa passou a pertencer ao Minho, esses desafios acabaram, mas as desordens graves no S. Bartolomeu continuaram até ao ano 65 do século XX, quando se deu o último barulho a sério.
Lê-se em algumas obras que, com a Revolução de 1 de Dezembro de 1640, os capitães-mores de Cabeceiras de Basto e Ribeira de Pena derrubaram o marco que se encontrava no meio da Ponte Grande logo no dia 8, mas não é verdade. Esse padrão ainda se lá encontrava em 2 de Janeiro de 1724, quando o Corregedor de Guimarães, Dr. Francisco Xavier da Serra CraesbeecK visitou a Ponte de Cavez, pois este senhor desenhou-o no seu livro “Memórias Ressuscitadas da Província de Entre Douro e Minho”, do ano de 1726, assim como deixou desenhado também um letreiro que encontrou num calhau há muito desfeito, à entrada da Ponte Pequena, que assim se ficou a saber que essa ponte foi construída pelo Presbítero Mendo Ordónio, no ano de 1255, para depois o Beato Lourenço Mendes construir a Ponte Grande, que ficou concluída em 1298, tudo isto na era de César, por onde Portugal se orientou até 1420, quando começou a era de Cristo, que tem menos 38 anos que a de César.
Junto à ermida de Santa Maria de Aboim estava, em 1725, outro marco igual ao da Ponte Grande, mandado ali colocar por Cristóvão de Moura, a dividir o concelho de Cabeceiras com o termo da vila de Guimarães e o concelho de Montelongo, hoje Fafe. Também o Dr. Craesbeeck o desenhou no seu livro.
A Igreja de S. João de Cavez é uma das 11 igrejas que o Arcebispo de Braga, D. Martinho de Oliveira, anexou ao Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro, entre 1301 e 1312, no tempo do Abade D. Martim Pires. Em 1726 ainda era vigararia do dito Mosteiro e seu vigário o Padre Manuel Teixeira Rebelo.
Segundo Craesbeeck, a Igreja de S. João de Cavez “tem sacrário e 5 capelas filiais, a saber: São Caetano, em Rabiçais; Santa Maria Madalena, em Moimenta; São Gregório, em Vila Franca; Santa Luzia, na Reboriça; e S. Bartolomeu, na Ponte de Cavez. E na banda de além do Tâmega, no lugar de Arosa, S. Mamede”.
Como se vê pelas citadas 5 capelas, a capela de S. Mamede, em Arosa, não era filial da Igreja de Cavez. Arosa, nesses longínquos tempos, pertencia ao concelho de Pena, hoje Ribeira de Pena.
O facto de as pessoas nascidas em Arosa antes de 1836 serem baptizadas em Cavez, era de livre vontade as famílias fazerem o serviço religioso na nossa Igreja, porque era a mais próxima.
Repito: E se a capela de São Mamede não era filial da Igreja de Cavez, é de crer que também Arosa não pertencia eclesiasticamente à freguesia.
Desde os finais do século XVII, as esmolas recolhidas na capela, na véspera e no dia de S. Bartolomeu, revertiam para a Fábrica da Capela, pois já se previa a sua reconstrução, o que veio a acontecer em meados do século XVIII, mais ou menos pela mesma altura em que Sebastião Carvalho dos Santos, então já senhor de toda a Quinta da Ponte, fez o aumento da casa nobre, deixando-a como ainda hoje a podemos ver da estrada nacional, com o seu brasão de armas dos “Carvalhos e Vales” esculpido na parede por volta de 1752. E, segundo se sabe, tem mais lógica ser este fidalgo que reconstruiu a capela de S. Bartolomeu, logo após concluir as obras da sua casa. Mas também pode ter sido antes, se olharmos ao vínculo que João Carvalho dos Santos, seu cunhado, instituiu na capela, para uns em 1771, para “Cavez da Terra de Basto” em 1751. Acreditamos mais nesta.
É de admitir que a Mitra de Braga, ao colocar à volta do seu Prazo marcos de pedra, onde mandou desenhar uma cruz sobre um “M”, com o ano de 1768, fosse para dividir as terras que lhe pertenciam, das emprazadas à Ordem de Malta ou ao Mosteiro de Refojos.
Um desses marcos, o único que conheci, estava cerca de 30 metros para lá da Ponte Pequena, ou Ponte Mendo Ordónio, deitado no meio do mato, entre o caminho medieval e a estrada nacional. Quando pensei em dar-lhe destino, venho a saber que o Sr. Basílio o enterrou no alicerce de um muro que fez para a D. Alzira da Ponte. Ainda bem que não me esqueceu o ano!
Quanto à festa, olhando à sua antiguidade, realiza-se sempre nos dias 23 e 24 de Agosto. Este ano de 2007 foi numa Quinta e Sexta-feira. É uma bonita romaria, sempre muito concorrida, tanto nos dias úteis como quando calha ao fim de semana, porque para os cavecenses o dia 24 é feriado!

Por: Francisco Pereira (Benfica)

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