Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-08-2007

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

(Continuação 16)
- Bom, por hoje são horas de ir andando, agora julgo que vais levar as vacas a comer um bocado de erva até à Ribeira, não é verdade?
- É sim senhor, Senhor Malvino, e vou levar o rapaz para que as torne de um lado.
- Fazes bem, mas não o obrigues a grandes caminhadas, bem vez que é ainda muito pequeno. Como sabes, na segunda-feira que vem, espero por ti, ao meio-dia, junto ao portão da casa do Senhor Joãozinho, para que ele nos dê as sessenta e oito notas de cem e, de seguida, irmos até ao Campo do Sêco entregar sessenta e três notas ao Senhor Paulo e os quinhentos mil réis ao Torrinheiras, que ele nos emprestou para o sinal, não é verdade?
- É sim senhor, lá estarei à hora marcada e com a soga, devidamente dobrada, junto da minha vara de marmeleiro.
O Senhor Malvino despediu-se finalmente:
- Adeus Maria Margarida e até à próxima segunda-feira, Manuel Carlos.
- Vá com Deus, Senhor Malvino – respondeu o casal ao mesmo tempo.
Na segunda-feira seguinte, depois de deixar as vacas fartas na corte, o Manuel Carlos dirigiu-se para o centro de Chacim, com a vara de marmeleiro na mão direita e a soga, devidamente dobrada, debaixo do braço esquerdo. O Senhor Malvino já o esperava à entrada do portão da casa do patrão. Tocaram a sineta. A sineta era uma campainha grande, exactamente com a forma de um pequeno sino, que se encontrava pendurada na extremidade de um dos caibros da varanda, que dava para o quinteiro grande da casa do Senhor Joãozinho. Estava ligada por um fio de arame que trespassava através de um furo feito no tranqueiro do lado esquerdo do portão, isto no sentido de quem entra, e tinha uma asa naquela extremidade onde se puxava quando se pretendia que a campainha tocasse na outra ponta.
Em resposta ao toque da sineta ouviu-se uma voz feminina que disse:
- Podem entrar.
Era a filha mais velha do Senhor Joãozinho, a Aninhas, também chamada de morgada. Os dois entraram para o quinteiro, salvando ambos ao mesmo tempo:
- Bom dia, menina Aninhas.
- Bom dia, Senhor Malvino, mais o Senhor…
A menina Aninhas, que tinha a mesma idade que a Maria Margarida, ainda não sabia o nome do jovem caseiro, e ficando um pouco corada, continuou:
- Façam o favor de subir aqui para a varanda, enquanto eu vou chamar o meu pai que deve ter ido ao quintal.
A menina Aninhas foi chamar o pai e este chegou de seguida com um grande braçado de couves, dizendo:
- Olá rapazes!
- Muito bom dia, Senhor Joãozinho - responderam.
- Esperai aí um pouco, apenas enquanto eu vou ali ao quinteiro pequeno, botar estas couves aos porcos, e já venho para vos atender.
O patrão da Eirinha engordava, todos os anos, quatro corpulentos porcos, cada um a pesar mais de oito arrobas, ou seja, mais de cento e vinte quilos, que eram mortos no mês de Janeiro, quando estava mais frio, e enchia o tecto da enorme cozinha de presuntos, chouriças e salpicões a serem defumados. O quinteiro pequeno era um espaço reservado só para os porcos da seba.
Desceu as escadas, atravessou o quinteiro grande, deitou as couves aos porcos que o saudaram com uma salva de fortes roncos, e regressou, subiu as escadas, limpou as mãos às calças, a mão direita à perna direita e a mão esquerda à perna esquerda, cumprimentou os dois com um caloroso aperto de mão, e foi ao seu quarto buscar um maço de notas bem estendidas, tesas e a brilhar, eram novas, ainda não tinham sido usadas, devia tê-las mandado levantar, à Caixa de Crédito Agrícola, na sexta-feira anterior.
- Toma lá Malvino, aqui estão os seis contos e oitocentos escudos. São doze notas de quinhentos escudos, que estão neste maço, e são oito notas de cem escudos, que estão neste aqui. Na verdade, tenho pena da nota de quinhentos que ides entregar ao Torrinheiras, porque a pobre vai ficar já toda amarrotada junto das companheiras que ele já trás naquele estado no bolso das calças. O Torrinheiras é um bom homem, fossem todos assim e o mundo estaria melhor, não te parece Malvino?
- É verdade, Senhor Joãozinho, o Senhor Dominguinhos Torrinheiras é uma jóia de pessoa. É franco e directo nas intervenções que faz, se não fosse ele era bem possível que não tivéssemos conseguido comprar as vacas pelo preço que ajustamos.
Era meia hora depois do meio-dia, o tempo estava de sol e ameno, não obstante verificar-se já razoáveis vestígios de geada, pela manhã, sobretudo nos locais mais sombrios e abrigados. Os dois homens despediram-se do patrão, e iniciaram o percurso até à feira, passaram pela Pereirinha e chegaram à Pena, aqui tomaram o caminho mais a direito, que desce em plano bastante inclinado até à capela de S. Lourenço, na Ponte de Pé, passando junto à fonte da Brechas na Cruz do Muro. Aproveitaram para beber água na fonte das Brechas, já traziam mais de meia hora de caminho e o dia estava quente. Atravessaram a Ponte de Pé, a curva do Herdeiro, e chegaram ao Campo do Sêco quando era mais ou menos hora e meia da tarde.
Entraram no campo da feira pelo lado da padaria do Senhor Armindo, atravessaram a feira dos porcos, que já se encontrava deserta, passaram pelo meio da feira do gado, que tinha umas quarenta ou cinquenta cabeças, a maior parte delas emparelhadas, algumas em singelo, aqui uma toira, ali um vitelo, aproximaram-se da taberna da Elvira Marra. Esta taberna, da Elvira Marra, era uma das mais típicas de todo o conjunto de tabernas que ladeavam a parte sul do campo da feira, estava ornada com dois fartos ramos de loureiro, um em cada uma das extremidades de uma tabuleta, cuja legenda escrita dizia: “ALTO AÍ - ELVIRA MARRA”.

(continua 17)

Por: Torcato Santiago

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