Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-08-2007

SECÇÃO: Opinião

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José Ferreira de Cucana e a Sr.ª da Orada
“Alguém tem que fazer as festinhas!”

Há dias, estava eu entretida no meu trabalho do jornal, quando olhei para a porta da entrada e vi entrar dois homens, que por acaso já conheço há bastante tempo. Eram nada mais nada menos que os senhores José Ferreira e Celestino Abreu Magalhães, dos “bombos”, ambos do lugar de Cucana, pertencente à freguesia de Refojos.
Entraram muito sorridentes e, eu vi pelo canto do olho que eles traziam uma saca de peditório. Disse logo à minha colega:
- Gininha, prepara-te que vêm pedir para as festas!
Como tenho bastante confiança com eles resolvi fazer de conta que não sabia ao que eles vinham fazer e perguntei:
- Então senhor Ferreira o que andam vocês a fazer por aqui?
Resposta pronta e com um “ar” decidido:
- Oh menina! Andamos a pedir para a Senhora D’Orada! Já andamos cansados! Mas que quer alguém tem que fazer as festinhas!
O companheiro só sorri com o olhar um pouco virado para o chão, como que envergonhado!
- Mas, senhor Ferreira - dizia eu, para o ouvir - está com azar, não sei se tenho algum trocado comigo…
- Oh menina qualquer coisinha. O que interessa é a boa vontade!
- Está bem! Se assim é, hoje só vai levar alguns trocos. Os patrões da casa, hoje não estão!
E a resposta não se fez esperar:
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- “Não faz mal. Nós ainda vamos dar a volta lá acima onde você mora”.
Enquanto íamos tendo este “parlapiê” uma ideia foi germinando na minha cabeça: “O senhor Ferreira é uma pessoa muito popular, divertida e um poeta, eu poderia escrever alguma coisa sobre ele”.
Tão depressa o pensei como logo resolvi pedir-lhe se não se importava que eu escrevesse no jornal alguma coisa da sua vida. Ele olhou para mim com o rosto sorridente, corado e uns olhos vivíssimos e diz:
- “Pode ser menina, mas – continua ele – ainda temos a voltinha para acabar e podemos fazer isso noutra altura qualquer”.
O Celestino, que não é de muitas falas mas tem sempre o sorriso na cara, e uma expressão que demonstra saber mais do que aparenta vai adiantando:
- Ele sabe muita coisa… muitas cantigas, muitos versos… mas temos que ir embora! A tarde já vai caindo!
Claro que eu fiz-me ouvidos de mercador, peguei em duas folhas de papel, pedi à Gininha que lhe tirasse umas fotos, e pedi ao senhor Ferreira que se sentasse um bocadinho par lhe fazer uma entrevista rápida.
Começou por dizer que é do lugar de Cucana, da freguesia de Refojos, onde nasceu em 25 de Junho de 1928, casado há 42 anos com a D. Laurinda Alves, que era de Passos, (se me não falha a memória de um lugar chamado Povoação). Teve quatro filhos, um deles, o Manuel Alves Ferreira, infelizmente já falecido.
Nasceu e viveu na agricultura até aos 42 anos de idade, em terras próprias.
Um dia resolveu ganhar a vida de outra maneira. Dizia-me ele que a lavoura não dava para tudo. E era preciso acabar de pagar a casita!
-”Fui trabalhar para as Construções Técnicas Limitadas de Lisboa, entrei na Sacor, onde trabalhava de carpinteiro, entre Lisboa e Ofir. Depois fui trabalhar para a Doca, durante dezoito anos”
Dizia o senhor José Ferreira, que “de primeiro” só vinha a casa de cinco em cinco semanas!
“A minha mulher e os meus filhos, coitados, lá iam “amanhando” a lavoura conforme podiam”
E continuava:
- “Trabalhei sempre de carpinteiro, nos empregos. Sabe menina quando fui só sabia de carpintaria simples, depois é que aprendi a de construção”!
-” Sabe, não fui logo para profissional! Não senhor! Durante três meses trabalhei de servente mas depois a empresa percebeu que eu tinha jeito e passou-me a carpinteiro de primeira e depois de segunda”!
Contou-me que se reformou aos 58 anos, na Barragem do Lindoso. Mesmo reformado profissionalmente, quando veio de vez, dedicou-se às suas terrinhas.
Naquele tempo o senhor Ferreira tinha uma junta de gado para lavrar as terras e criar bezerros! Possuir gado e alguns campos já se era um senhor considerado!
Entre outras coisas também me confidenciou que jogava o pau muito bem e, que lhe serviu muitas vezes para se defender. Quem sabe a defender-se nalgum bailarico dos ataques enciumados de algum rapaz com medo de perder a sua donzela!
Cá para nós o senhor Ferreira devia ser um jovem muito aperaltado! Ainda hoje com 79 anos mantém um rosto fresco e uns olhos expressivos!
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Já tinha tido a oportunidade de ouvir que o senhor Ferreira também possuía uma veia poética, que fazia versos com muita facilidade, além de também ser muito alegre, embora nestes últimos anos se sinta mais triste, devido à morte do seu filho Manuel.
-”Antigamente tocava muito realejo. Em qualquer sítio arranjava um baile. Ai tempo, tempo, que saudades eu tenho!”
Aproveito o embalo nostálgico do senhor Ferreira e peço-lhe que me “conte” alguns versos.
-” Ai menina (faz-me o favor de me chamar menina) eu até sei muitos mas ainda tenho de acabar o peditório para a Nossa Senhora da Orada” mas vou-lhe dizer uns rápidos.
Claro que eu ia escrevendo, tentando apanhar tudo o que pudesse ouvir. Ele tinha pressa mas também não queria perder esta oportunidade. Além disso para passar no Jornal para pedir para a Santa outra vez, já só para o próximo ano.

Diz o rapaz à rapariga

Ainda agora aqui cheguei
Mais cedo não pude vir
Ainda venho muito a tempo
Das tuas falas ouvir

Ela responde

Se ainda agora aqui chegaste
Viesses mais devagar
Que ainda vens muito a tempo
Das minhas falas “escuitar”

Despedida

Adeus, um abraço que graça tem
Como é que é se apertar
Este Nosso querer Bem!

Eu quero me ir embora
Eu quero estar aqui
Não há pernas que me leve
Meu amor “dó” pé de ti!

Já um pouco impaciente porque o tempo apertava, o senhor Celestino dos “bombos” de Cucana, lá ia dizendo que o resto ficaria para outra altura, mas o senhor Ferreira concedeu-me mais uns versos.
- “Estes são para terminar. Eu sei muita coisa mas prometo que quando cá vier abaixo à vila lhe conto tudo!”
“Sabe, passo todas as segundas feira na Junta de Refojos! Oh que boa gente”
- “Pronto senhor Ferreira, não quero atrasar a sua vida, mas quero ouvir então esses últimos versos”.

Primeiro é ver
Segundo ouvir
Eu de ti não ouço nada
Se ouvires de mim alguma coisa
Cala-te e não digas nada!

Terceiro cheirar
Um raminho de alecrim
Quarta apalpar
Minha mão por teu seio

Quinto gostar
Eu que gosto posso ter
Se me ausento de ti amor
Era melhor morrer!

É mezário da Festa da Senhora Da Orada. É ele ultimamente o responsável da organização da festa.
E como tem orgulho que esta corra sempre da melhor maneira possível, para o que tem de contar com a boa vontade das gentes de Refojos, lá se despediram apressados, prontos a repetir a lenga-lenga: “Andamos a pedir para a Senhora D’Orada! Já andamos cansados! Mas alguém tem que fazer as festinhas!

fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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