Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-08-2007

SECÇÃO: Opinião

Narrativa
PEDAÇOS DE VIDA

Nisto de trabalhos do campo, o Manuel Carlos era mestre, e colocava as gabelas de mato, que trazia na ponta da forcada, nos devidos lugares da plataforma do chedeiro, ao Senhor Malvino restava-lhe apenas o trabalho de saltar para cima do mato e pisá-lo no respectivo lugar. Quando se carrega um carro de mato, cada gabela é colocada num lugar próprio e adequado, a carga é feita por camadas e cada camada é formada por sete gabelas. Primeiro coloca-se uma à frente, na posição de atravessada, mesmo onde começa a cabeçalha, depois duas na parte mais à rectaguarda do chedeiro, uma em cada canto, depois duas de cada um dos lados, travando umas nas outras. É assim que se carrega um carro de mato. Este ficou-se pouco mais do que a meio, mas foi carregado nestas mesmíssimas condições, e ficou como devia ser.
Aqui havia um problema, e este tinha a ver com o modo como se iria conseguir atar o carro depois de carregado. É que, para atar um carro com a respectiva corda, estando um homem em cima, para manter o equilíbrio da carga, são precisos pelo menos dois homens, ou qualquer outra combinação de duas pessoas, para o conseguir atar. A corda abraça a carga, passa por trás dos torniquetes que estão fixos na parte inferior do chedeiro, ou então pela ponta dos fueiros que trespassam os respectivos furos, depois uma pessoa puxa pela ponta sobrante da corda e a outra bate-a de encontro à carga, até conseguir o máximo de aperto. São dadas quatro voltas de corda sobre a carga, uma à frente, outra cruzada da frente para trás, depois uma atrás, e finalmente a última, que cruza de trás para a frente. Terminada a quarta volta, sempre bem batidas e esticadas, para obter o máximo de aperto, arremata-se em torno do torniquete da frente, onde terminou a trajectória.
Como está bom de ver, se o Zé tivesse mais alguns anos e tivesse acompanhado os dois homens desde a manhã, já poderia prestar aqui uma boa ajuda, mas não, o Zé era ainda demasiado criança e não os tinha acompanhado. Em casos destes, a situação é resolvida com o homem que está em cima do carro, a esticar a ponta da corda lá de cima, e o outro a fazer as batidas cá em baixo. Quando o procedimento é este, a carga nunca fica convenientemente segura. Porém, não havia outra solução, e, naquele momento, a probabilidade de passar por ali alguma alma, era excessivamente remota. O carro acabou por ser atado apenas com as posses dos dois homens. Concluída a tarefa, nos termos descritos, o Senhor Malvino saltou para o chão e disse:
- Na verdade, o que vale é a carga se ficar só pela metade, caso contrário não chegaríamos ao destino, a corda está demasiado bamba.
O Manuel Carlos respondeu:
- Eu vou tentar chamar as vacas devagarinho, e o Senhor Malvino vai fazer o favor de ir encostando a sachola, quando o caminho for mais torto, e a coisa não deverá correr mal.
Puseram as vacas ao carro, o Senhor Malvino foi ao meio, levantou a cabeçalha, com algum esforço, a carrada era apenas média, mas já tinha peso significativo, acertou a ponta que tem o orifício para o chavelhão no interior do tamoeiro, o Manual Carlos introduziu aquele no respectivo sítio, pela parte da dianteira, e iniciaram viagem. O carro a espaços já chiava, mas aqui não havia qualquer problema com as autoridades, eram caminhos do campo, quase particulares, pelo que a lei que impedia a chiadeira dos carros de bois, não tinha chegado ainda a estes lugares, quando mais não fosse, não havia qualquer autoridade, para a fazer cumprir, em tão escondidos recantos.
Graças à opinião ditada pelo Senhor Malvino, manhã cedo, enquanto comiam o caldo, o Zé lograra ficar a dormir mais um bocado nesse dia. Depois de os dois homens terem saído, com as vacas pela soga, em direcção a Chacim, a mãe tratou de arrumar a casa, soltou as cinco galinhas e o galo, limpou e deu de mamar aos gémeos, que entretanto acordaram com fome, e só acordou o Zé quando eram mais ou menos nove horas. Este comeu a sua pequena tigela de caldo, com migalhas de pão de milho, e foi para o descampado, que fica da parte de trás de casa, brincar com o seu pequeno carro de bois, ora o carregava de pedras, ora o carregava de terra, gostava muito de escavar na terra com uma pequena sachola, e construiu até uma pequena estrada, com curvas e um pontilhão, por onde puxava o seu carro de bois, contemplando as marcas deixadas pela passagem das rodas na terra mole.
Passava pouco do meio-dia, quando os dois homens chegaram a casa com a meia carrada de mato. A mulher esperava-os à entrada do quinteiro. Os gémeos estavam na varanda, sentados em cima de um pedaço de manta de trapos, e o Zé continuava a brincar, com o seu pequeno carro de bois, no descampado que ficava por detrás da casa. A Maria Margarida perguntou:
- Então como correu? Parece que não terá corrido mal, pois vem tudo muito direitinho, tanto o carro de mato como as vacas.
- É verdade, mulher – respondeu o Manuel Carlos, que continuou:
- O Senhor Malvino que o diga, parecem mesmo duas vacas velhas.
O Senhor Malvino atalhou:
- Não há dúvida de que estamos todos com sorte, é bom para nós, mas também é bom para o Senhor Paulo que no-las vendeu. A compra foi a melhor que podíamos ter feito. Agora só nos resta efectuar o pagamento, nos termos devidos, na próxima segunda-feira. Ah! é verdade, não te esqueças de levar a soga, Manuel Carlos.
- Ah não, com certeza que não me vou esquecer, vou já pendurá-la junto da vara de marmeleiro, que me vai acompanhar na segunda-feira.
Retiraram as vacas do carro, soltaram-nas da canga, e deixaram-nas livres a um canto do quinteiro, enquanto descarregaram o mato. Entretanto a mulher tinha feito um pequeno pote de arroz de feijão, para a refeição do meio-dia, era uma refeição de trabalho, os dois homens tinham acabado de chegar, dos montes da Ribeira, com um carro de mato. Era meio quilo de arroz com meia tigela de feijões amarelos, deu para três pratos grandes, um para cada um dos adultos, e um prato pequeno para o Zé. Comeram a refeição, e o Senhor Malvino começou a despedir-se, dizendo:

(continua-16)

Por: Torcato Santiago

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