Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-07-2007

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

- Chamamos pelo rapaz, para que coma connosco o caldo, e nos acompanhe? Poderá fazer jeito, para tornar as vacas de um lado, enquanto carregamos o carro de mato.
O Senhor Malvino respondeu:
- Não, não o acordes, é uma criança com pouco mais de três anos, deixa-o dormir, nós arranjar-nos-emos os dois, deixa estar a criança mais um pouco de tempo na cama.
A Maria Margarida colocou duas malgas de caldo em cima da masseira, enquanto o Manuel Carlos foi à adega, tirar meia infusa de vinho, da meia pipa que estava colocada a um canto, em cima de dois pequenos barrotes de madeira. Os dois homens sentaram-se, cada um em sua cadeira, colocadas junto às extremidades da masseira, voltados um para o outro, comeram o caldo e beberam ambos da infusa. A mulher sentou-se no bordo do escano, com a malga em cima do regaço, donde comeu o caldo, e levantou-se para beber também da infusa.
Terminada a refeição desceram os dois, o Senhor Malvino e o Manuel Carlos, as escadas que dão acesso ao andar de baixo. Atravessaram o quinteiro, abriram a porta da corte, as vacas já tinham comido o feno, pegaram nelas pela ponta dos cornos, colocaram-lhe a soga, e partiram em direcção ao centro de Chacim, o Manuel Carlos chamando-as, à frente, segurando a soga com a mão esquerda, e a vara na mão direita, estendida sobre o ombro do mesmo lado, e o Senhor Malvino tocando-as pela parte de trás, igualmente com uma vara de marmeleiro nas mãos. Pelo caminho pararam, junto a uma poça, para chegar as vacas a beber, deviam ter sede, tinham comido feno seco. De facto, ambas se abeiraram do bordo da poça, logo que avistaram a água, e beberam abundantemente, ficando quase fartas. Continuaram viagem até à casa do patrão, para ali jonguerem os animais com a canga, apô-las ao carro e seguirem, retrocedendo em parte, até aos campos da Ribeira, onde carregariam as vinte gabelas de mato, que o Manuel Carlos tinha roçado no dia anterior.
Era o início da prova de fogo dos jovens animais, quanto às suas capacidades e mansidão para o trabalho. Logo ao colocar-lhes a canga sobre os cachaços, o Senhor Malvino comentou:
- Parece que as bichinhas vão portar-se bem!
O Manuel Carlos respondeu:
- Também me parece, Senhor Malvino, e Deus o queira, que isto de tornar uma junta de gado ao vendedor é uma coisa muito aborrecida, e além do mais o trabalho e a perda de tempo que nos causaria o encargo de procurar outras para comprar.
Prosseguiram com a tarefa de as jonguer, cada um dos dois homens na frente da cabeça de cada uma das vacas, com os peitos encostados ao focinho dos animais, colocaram cada um o seu arco que segura a canga por baixo das badanas das vacas, prenderam os arcos, com os respectivos ganchos de arame, nos furos que correspondiam ao volume das badanas, depois as piáças, que partem de furos próprios da canga e se cruzam em redor dos cornos dos animais. Tudo perfeito e sem o mais pequeno sobressalto. Depois foi apô-las ao carro, o Manuel Carlos conduzindo-as pela soga e o Senhor Malvino foi ao meio, levantou a cabeçalha, apontou-a no sentido do tamoeiro, e colocou de seguida o chavelhão.
Todo este trabalho, de preparação dos animais e do carro, decorreu por baixo de um coberto, que fica a um canto do quinteiro da casa do patrão da lavoura da Eirinha. Era o barracão onde se guardavam as abegoarias. Passava pouco das oito horas e o Senhor Joãozinho, que acabara de se levantar, veio até ao pátio para dar uma vista de olhos pelos animais, que já estavam apostos ao carro, saudando os presentes:
- Bom dia, rapazes.
- Bom dia, Senhor Joãozinho - Responderam os dois ao mesmo tempo.
O Senhor Joãozinho continuou:
- Parecem-me boas, são bonitas, estão bem tratadas, pelo aspecto devem comer bem, como se portaram para já ao jonguerem-nas?
Aqui falou apenas o Senhor Malvino:
- Olhe, Senhor Joãozinho, dois autênticos cordeiros, só espero que não sejam mansas de mais, e quando for preciso, puxar o carro, não nos dêem qualquer nega.
O patrão interrompeu:
- Pode ser que não. Querem beber um cálice de aguardente para o caminho daqui até à Ribeira? Esperem aí um bocadinho.
Foi buscar uma garrafa de aguardente, um naco de broa em cima de um pano branco e um cálice. Deu um bocado de broa, que partiu a murro, a cada um dos dois, e ficou com um terceiro para ele, depois serviu o Senhor Malvino com um cálice cheio de aguardente, que este bebeu de um trago, a seguir encheu novamente o cálice e deu ao caseiro, ao Manuel Carlos, que igualmente bebeu de uma só vez, e, no fim, encheu o cálice para ele próprio, que bebeu de duas vezes. Tomado o mata-bicho, despediram-se agradecendo os dois primeiros, respondendo o Senhor Joãozinho que não tinha sido nada de mais, e saíram o portão do quinteiro, o Manuel Carlos à frente, chamando as vacas pela soga, e o Senhor Malvino atrás do carro, em direcção aos campos da Ribeira.
Chegaram à Ribeira quando eram nove horas, tiraram as vacas do carro, prenderam-nas a um pinheiro, com um pequeno molho de feno, que tinham trazido da casa do patrão, à frente, para elas comerem e estarem sossegadas enquanto se procedia aos trabalhos de carregar o carro de mato. Tiveram ainda que fazer uma pequena cova no chão do caminho, para colocar uma das rodas, a roda da parte de cima, já que o caminho era ligeiramente inclinado para o lado de baixo, e iniciaram a tarefa de carregamento. O Manuel Carlos pegou na forcada, e o Senhor Malvino saltou para cima do carro, a carrada não ia ser grande, mas, de qualquer modo, tudo deveria ser feito nas devidas condições.

(continua-15)

Por: Torcato Santiago

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