Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-07-2007

SECÇÃO: Opinião

Narrativa
PEDAÇOS DE VIDA

(continuação-13)
Comida a bucha, o pai voltou para a borda, continuando a roçar mais algumas gabelas de mato, seria conveniente que conseguisse cortar aí umas vinte, correspondia a meia carrada, o suficiente para experimentar a capacidade de trabalho das vacas, no dia seguinte. As vacas continuavam deitadas a ruminar. O Zé, que ficara sentado em cima de uma pequena pedra, passados cerca de dez minutos adormeceu, com a cabeça caída para a frente. O pai, ao vê-lo naquela posição, aproximou-se, pegou no casaco que tinha pendurado no galho de um carvalho, estendeu-o em cima de uma das gabelas de mato e deitou o rapaz sobre metade do casaco cobrindo-o com a outra metade.
Quando o sol já começava a esconder-se por detrás dos pinheiros da encosta, as duas vacas decidiram levantar-se e comer mais um bocado da erva da pastagem. Agora o Zé estava a dormir, embrulhado no casaco do pai, em cima de uma gabela de sargaços. O pai não podia interromper a sua tarefa de cortar mais um pouco de mato, para conseguir um carregamento que valesse minimamente a pena, pelo que a linda e a vermelha se espraiaram, livremente, por toda a extensão das leiras, abocanhando aqui, abocanhando mais à frente. Pastaram, durante um bom pedaço de tempo, em regime totalmente livre, e ficaram fartas que nem dois “animais”.
Faltaria pouco mais de uma hora para que começasse a escurecer. O pai contou as gabelas de mato que tinha roçado, eram vinte, correspondia a meia carrada, não estaria mal para experimentar as vacas. Resolveu acordar o rapaz, que já tinha dormido para aí umas duas horas, e dormiria muito mais tempo, se não fosse despertado. Tocou-lhe no ombro esquerdo, que estava voltado para cima, e chamou:
- Acorda Zé, já dormiste um bom bocado, é quase noite, temos que ir embora.
O pequeno rapaz acordou meio estremunhado, esfregou os olhos, abriu a boca e levantou-se de sopetão. Não sabia onde estava. Olhou para cima, viu o pai. Olhou para a frente, viu as vacas. Enfim, apercebeu-se que tinha dormido uma boa soneca nos campos da Ribeira.
Era uma criança, com três anos e três meses, tinha despertado do sono, mas, como é por demais evidente, continuava fortemente entontecido, e a cambalear as pequenas pernas. O pai não teve qualquer dúvida, resolveu pegar nele, e colocá-lo sobre os ombros, uma perna de cada lado do pescoço, às cavalitas. A enxada com que roçara durante quase todo o dia, e a vara com que o Zé tornara as vacas enquanto não adormeceu, colocou-as sobre o braço direito, como quem leva uma arma em posição de cano virado ao solo, com a mão esquerda segurava as duas mãozitas do rapaz, que ia empoleirado no seu pescoço.
Iniciou o regresso tocando as vacas:
- Hei linda, hei vermelha, vamos, vira para cima, vira para ali, hei, hei…
É assim que é usual lidar-se com os animais, falando com eles, em particular com os da espécie bovina. É, hei para um lado, e hei para o outro.
A caminhada de regresso demorou cerca de meia hora, pouco mais ou menos, as vacas iam bem fartas, e bufavam a espaços. Quando chegaram a casa já escurecia, a mãe tinha o caldo feito, era a mesma receita do que tinham comido de manhã, caldo de couves, com meia dúzia de feijões, para compor. Os gémeos já tinham mamado, cada um na sua mama, e dormiam no berço, deitados um para cada lado. Os três, o pai, a mãe e o Zé, comeram cada um a sua malga de caldo com umas migalhas de pão à mistura. A malga do Zé era uma malga pequenina, para condizer com a estatura do utilizador. Enquanto comiam, as vacas bufavam na corte, que ficava por baixo da cozinha. O pai comentou:
- Graças a Deus, estão a medrar.
Nisto de caseiros agrícolas, há um conjunto de equipamentos e utensílios que são próprios da profissão, a que se chama, em terminologia agrícola, “abegoarias”, e que, quem se inicia no ofício pela primeira vez, por norma não tem. Era o caso do nosso jovem caseiro, o Manuel Carlos. Não tinha uma canga, não tinha um carro de bois, não tinha uma grade, não tinha um arado, nem tão pouco tinha uma soga. A soga, com que conduzira as vacas até aos campos da Ribeira, era aquela com que as trouxera da feira no dia anterior, e que teria de devolver ao Senhor Paulo quando, na segunda-feira seguinte, fosse fazer o respectivo pagamento, admitindo que as vacas serviriam e não seriam tornadas ao dono.
Tendo em atenção este estado de coisas, o Senhor Malvino, quando intermediou no contrato de arrendamento das terras, esclareceu o patrão de que teria de emprestar tais equipamentos ao jovem caseiro, ao que o Senhor Joãozinho anuiu, pois, como abastado lavrador que era, tinha “abegoarias” de sobra. Para além de emprestar todas as “abegoarias”, o que não iria muito além de um carro de bois, de vez em quando, e da respectiva canga, para jonguer as vacas, comprometeu-se ainda a lavrar todos os campos, por altura dos meses de Abril e Maio, em Abril os mais secos, e em Maio os de regadio, ou seja, as vessadas da margem do ribeiro, com a sua junta de bois pretos de raça maronesa, que possuía, exactamente para fazerem todos os trabalhos de gado bovino, uma vez que tudo quanto fossem vacas barrosãs, seria exclusivamente para criar vitelos e vender aos marchantes.
Tal como o combinado, no dia seguinte, quarta-feira, ao romper da manhã, já o Senhor Malvino estava a bater à porta do Manuel Carlos, na Eirinha, para testarem as qualidades de trabalho da junta de vacas compradas dois dias antes. O jovem caseiro já se tinha levantado ainda com noite escura, para pensar as vacas, deitando-lhe uma gabela de feno. Era preciso ter muito cuidado para que não ougassem. A mulher tinha-se levantado também, e já tinha feito um pote de caldo, para que todos comessem antes de sair de casa. O Zé ainda dormia, e o pai perguntou ao Senhor Malvino:
(continua-14)


Por: Torcato Santiago

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.