Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-06-2007

SECÇÃO: Opinião

Santo António, S. João e S. Pedro

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Um tostãozinho para a cascatinha

Hoje ao escrever esta minha crónica quinzenal, estou a uma semana dos festejos do S. João e a quinze dias do S. Pedro. Quer dizer que já estiveram em festa os Lisboetas com o seu grande Santo António, o padroeiro das mulheres solteiras principalmente daquelas com mais dificuldade de arranjar parceiro.
Fiquei admirada por ainda se manter a tradição dos casamentos em Lisboa, embora alguns se fizessem só pelo civil. Nos tempos de hoje um casamento religioso, com pompa e circunstância, já é algo bastante raro! Os jovens e os menos jovens resolvem juntar os trapinhos, sem um papel obrigatório e sem qualquer bênção religiosa. É mais prático, dizem eles, não vá o diabo tecê-las e dar para o torto e lá se vão as ilusões de um casamento para toda a vida e as palavras que se pronunciam no altar “até que a morte nos separe” já não fazem muito sentido nos tempos que correm. Também já se evita a trabalheira que é divórcio bem como o problema da divisão dos bens, se os houver. Assim mesmo, com muito amor, partem para a união de facto para ver se “a coisa resulta”. E, se analisarmos friamente a questão verificamos que eles têm uma certa razão! Hoje namora-se menos tempo, mas muito “intensivamente”, com as hormonas a mil à hora, e quando a paixão arrefece…
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Eu, como sou uma romântica incorrigível e um pouco à moda antiga, ainda gosto de ver um casamento “como Deus manda” e fico admirada com todos estes modernismos. Por esse motivo foi para mim uma surpresa a quantidade de casamentos que se realizaram em Lisboa no dia do Santo António!
Estes três santos populares estão de certa maneira ligados a histórias mais ou menos “brejeiras”, como o de arranjar noivo para as mulheres “encalhadas”, por exemplo.
Contava a minha falecida mãe que uma ou outra moça solteira aparecia com um filho nos braços passados nove meses a partir da noite de S. João. Claro que o Santo é que pagava com as culpas!
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Nas grandes cidades onde se festejam os santos populares é feriado.
Aqui, em Cabeceiras de Basto, principalmente nos locais de tradição, há muitos e muitos anos que se não comemoram o S. João e o S. Pedro. Falo dos locais próprios que são o S. João da Ponte de Pé e o S. Pedro na Raposeira. Não me refiro às sardinhadas acompanhadas de um grupo musical que se fazem em algumas freguesias do nosso concelho! E muito bem! O que interessa é o povo ter um pretexto para sentir alegria e poderem confraternizar uns com os outros.
Mas como ia dizendo era nos lugares de tradição como a Ponte de Pé e Largo da Raposeira que se faziam os verdadeiros festejos. Sem querer de maneira nenhuma ofender alguém, não há festejos como os que se faziam nestes dois lugares de Refojos!
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Segundo as pessoas dessa época os dois lugares eram rivais. Sempre a verem quem fazia melhor festa. E, com verdade ou com exagero, a Raposeira batia sempre o recorde! Mas, de qualquer maneira estes dois bastiões da tradição e da cultura, as gentes da Ponte de Pé e as da Raposeira conseguiram tornar famosos os “seus” santos!
Que me lembre só participei em dois ou três, há trinta e tal anos! E um dos organizadores de quem eu me recordo de participar foi o Joaquim Marques Mateus, mais conhecido por Joaquim das “Leiras”. Os outros foram as mulheres e rapazes novos e menos novos do largo da Raposeira, da Máquina e do Bairro Alto. Enfim todos os que morassem nos lugares em redor da Raposeira.
A marcha do Grupo do Espaço de Convívio e Lazer de Refojos
A marcha do Grupo do Espaço de Convívio e Lazer de Refojos
Não havia uma festa do S. Pedro que não tivesse uma boa cascata! Essa era feita no lugar principal e melhor posicionado que é sem dúvida alguma, as famosas escadas que ficam ao cimo no centro do lugar! Nos dias que antecediam os festejos as raparigas e os rapazes com os carrinhos de mão iam juntando musgo e fetos das margens do rio de Madanços e pelas bordas dos campos de Conselheiros. Depois as raparigas forravam as escadas de cima a baixo com todas as verduras arranjadas. A decoração era feita com os materiais que conseguissem reunir como por exemplo imagens de santos, de artigos em louça, ovelhas e pastores, flores feitas em papel pela Miquinhas Revolta e o tradicional boneco que “mijava” das meninas do senhor José Maria Pereira. Os rapazes tratavam de colocar um poste de pinheiro que cortavam na floresta no centro da Raposeira. Tiravam-lhe a casca, ensebavam-no todo e colocavam um bacalhau e uma garrafa de vinho do Porto! Era muito divertido ver quem conseguia subir até ao cimo do poste! Geralmente só depois de muitas tentativas é que alguém lá conseguia!
Jovens vestidas a rigor,  dançando e alegrando a noite festiva de S. João na Festa do Valor Humano
Jovens vestidas a rigor, dançando e alegrando a noite festiva de S. João na Festa do Valor Humano
Mas voltando ainda mais atrás no tempo, quando ainda eu era menina lembro-me de fazermos uma cascatinha por altura dos três santos, à porta da nossa casa. E todas as crianças faziam! Enfeitávamo-la com muitos santinhos, com o bonequinho em barro do menino Jesus nas palhinhas, da vaquinha, dos pastores, enfim um pouco do que houvesse. Claro que as crianças com mais posses até tinham bonecos de banda de música em miniatura para colocar. Nós pedíamos e, quase todas as pessoas davam.

- Dê-me um tostãozinho p’ra cascatinha!

Como nunca tínhamos dinheiro porque éramos crianças, na época destes santos desforrávamo-nos!
Enfim tudo passa! A tradição já não é o que era! Devíamos tentar recriar esta tradição mesmo nos lugares primitivos mas nesses lugares já não há muita juventude e, a qua há não está muito vocacionada para a tradição dos seus anteriores!


fernandacarneiro52@hotmail.com








Por: Fernanda Carneiro

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