Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 30-06-2007

SECÇÃO: Opinião

NARRATIVA
PEDAÇOS DE VIDA

- Não, não é preciso. Tenho que ir já, antes que a noite caia, mais escura. Olha, temos que as jonguer a ver como trabalham. Queres que venha cá ajudar-te, na próxima quarta feira de manhã?
- Sim, está bem, agradecia-lhe muito. Eu amanhã vou levá-las a comer aos campos da Ribeira. Levo o Zé para as tornar de um lado, enquanto eu roço umas gabelas de mato, para então trazermos na quarta-feira, com a sua ajuda, se Deus quiser.
- Está bem. Adeus até depois de amanhã.
O Senhor Malvino deixou a Eirinha, quando era já noite escura, a caminho de casa, nas proximidades do Herdeiro. Quando tinha andado cerca de duzentos metros, lembrou-se: «Ah! Que já me esquecia, tenho que informar, sem demora, o Senhor Joãozinho, até para que ele tenha tempo para preparar o dinheiro para se pagar as vacas na próxima segunda-feira, são sessenta e oito notas de cem, e mesmo sendo um lavrador abastado pode não ter o dinheiro todo disponível, é bem capaz de ter de ir levantar algum à Caixa de Crédito Agrícola Mútuo».
Passou então pela casa do Senhor Joãozinho, no centro de Chacim, paredes meias com a capela de Santo Amaro, informando o patrão da lavoura da Eirinha sobre o negócio, que as vacas pareciam ser boas, só faltava certificarem-se se comiam bem de tudo e se eram mansas para o trabalho. O Senhor Joãozinho respondeu que tinha inteira confiança no amigo, pelo que tudo o que ele fizesse estaria bem feito, que não se preocupasse, apenas lhe pedia para fazer o favor de passar por lá no domingo à noite, para lhe entregar o dinheiro com vista a que o pagamento das vacas fosse de facto efectivado na segunda-feira. O Senhor Malvino sugeriu que seria melhor ir buscar o dinheiro no próprio dia, isto era, na segunda-feira de manhã, não fosse o diabo tecê-las, e aparecer algum bandido, que lhe roubasse o dinheiro, durante a noite. Na segunda-feira, por volta do meio-dia, encontrar-se-ia lá, com o caseiro, o Manuel Carlos, e assim iriam ambos até à feira. Era mais seguro. Despediu-se e seguiu viagem para casa nas proximidades do Herdeiro, depois de passar pela Ponte de Pé, onde chegou quando eram quase dez horas da noite.
No dia seguinte, terça-feira, o Manuel Carlos levantou-se cedo, como é habitual com toda a gente que trabalha no campo, desougou as vacas com dois pequenos molhos de palha de milho, acordou e fez levantar o Zé. Comeram uma tigela de caldo de couves com alguns feijões e um pequeno naco de pão de milho, e dirigiram-se, os dois, para os campos da Ribeira. A Ribeira fica a cerca de um quilómetro de distância da Eirinha, para onde se vai por um caminho, no qual passa um carro de bois, e também se pode ir por um carreiro, mais a direito, por entre fragas, giestas, silvas e pinheiros. Por aqui é mais perto, é cerca de metade da distância.
Porém, com gado, tem que se ir sempre pelo caminho mais distante e, como era a primeira vez que levavam as vacas para aquele sítio, o pai achou por bem levá-las presas pela soga. Os seus nomes eram a “linda” e a “vermelha”, esta última deve ter obtido o nome devido ao facto de ser efectivamente mais vermelha do que a outra que se chamava “linda”. O Zé tinha nesta altura três anos e pouco mais de três meses, pelo que não seria minimamente razoável colocá-lo a chamar as vacas pela soga. O pai tomou a iniciativa de as segurar ele próprio, à frente, e deu uma vara, ao pequeno rapaz, para que ele as fosse tocando, à medida que ele lhe indicava:
- Zé, dá com a vara no lombo da vermelha.
O Zé segurava a vara com as duas mãos e dava no lombo da vermelha. O impacto era de facto diminuto, a jovem vaca mal dava por ele.
- Zé, dá agora na linda, com força a ver se ela anda um pouco melhor:
O rapaz, novamente segurando a vara com as duas mãos, deixava-a cair no lombo da linda. Esta sacudia o rabo, e fazia de conta que não tinha sido nada com ela.
O homem puxava pela soga, a pontos de já lhe doer o braço esquerdo, e picava as vacas de frente, com a sua vara na mão direita, por cima do lombo. Ao fim de meia hora chegaram aos campos da Ribeira. Soltaram as vacas da soga numa extremidade da leira de cima, ficando de um lado a parede que fazia a divisão com o campo do vizinho confinante e, pela frente, o pai espetou dois ramos de giesta no chão dizendo ao rapaz:
- Zé, tornas daqui para acolá. Não deixas as vacas passar destes ramos para a frente. Mostra-lhe a vara bem ao alto para elas não te darem nenhuma escornadela. Eu vou ali roçar umas gabelas de mato, na borda, para amanhã levarmos no carro, com a ajuda do Senhor Malvino.
A erva estava bastante grande, tinha cerca de um palmo de altura, pelo que as vacas, ao fim de duas horas, tinham o bocado completamente rapado, como se a erva tivesse sido cortada à foicinha, mas também estavam completamente fartas, e acabaram por se deitar a ruminar, primeiro a linda, e passados alguns minutos, a vermelha. O pai já tinha cortado dez gabelas de mato na borda, eram tojos, sargaços, giestas, codeços e algumas carquejas. Perguntou ao rapaz:
- Zé, já tens fome?
Recebeu um aceno que sim.
- Vamos então comer a bucha que temos na saca.
Tinham levado um bocado de pão numa saca de amostras de farrapos. Simplesmente pão. Para beber tinham água muito boa de uma nascente que existia ao cimo das leiras e alimentava uma poça, junto da qual a erva estava mais viçosa. Na nascente, alguém tinha colocado uma bica, recorrendo a um pedaço de uma telha de caleiro partida. Cada um comeu o seu bocadito de pão, e beberam água, fazendo uma conchinha com a palma da mão, ao cair da bica do pedaço da telha partida.

(continua-13)

Por: Torcato Santiago

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