Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-06-2007

SECÇÃO: Opinião

O encanto da antiga casa da D. Inacinha da Portela

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A Ponte de Pé

Hoje é Domingo e, como de costume levantei-me cerca das sete horas e trinta minutos e tomei o pequeno almoço, calmamente, ao mesmo tempo vou ganhando coragem para ir caminhar mais ou menos por uma hora. Mas os motivos pelos quais tenho de andar dão-me coragem e então visto-me com uma roupa mais prática e calço uns sapatos de sola de borracha e aí vou eu. Desço as escadas mas desta vez não faço o percurso do costume. Desta vez vou pela Ribeira até à Praça da República, subo as Acácias passo a nova Rotunda da Europa e desço pela avenida Cardeal D. António Ribeiro em direcção à Ponte de Pé.
A nova Rotunda da Europa tendo por fundo o Alto do Monte e as  construções do Mercado
A nova Rotunda da Europa tendo por fundo o Alto do Monte e as construções do Mercado
Como de costume vou andando e observando a paisagem e verifico que há sempre algo diferente, novo, que normalmente me passa despercebido quando passo de automóvel.
E, acreditem, verificar do cimo da avenida lá para o lado do mercado, ou para o lado da Baldosa, onde nasci, todas as alterações daqueles locais, que antigamente eram campos de cultivo, é de ficar abismada!
E, mesmo andando a pé, com um passo certo e ligeiro dá para ver todas estas coisas.
Continuo andando, passo o Mercado Municipal, continuo em frente pela estrada abaixo e olho fascinada para uma casa que fica num alto antes do rio Peio que atravessa a Ponte de Pé, a Casa da Portela que, em tempos que já lá vão, pertenceu a uma senhora muito conhecida, a quem chamavam a D. Inácia da Portela.
A linda Casa da Portela com uma caminho novo de acesso à habitação
A linda Casa da Portela com uma caminho novo de acesso à habitação
Hoje essa casa pertence à família do senhor António Duro Magalhães, pessoa que nem sempre viveu cá em baixo na vila, mas que em pouco tempo granjeou muitas amizades, ele e os seus filhos. Um deles já falecido, infelizmente!
Como vos disse, sempre que vou caminhar para aqueles lados da Ponte de Pé, olho sempre para aquela quinta. A própria construção da casa, com aqueles recortes no telhado, ladeada por árvores de frondosas camélias ou “japoneiras” como são mais conhecidas, fazem-me lembrar os solares! Estão muito bem tratados, quer as árvores quer os campos, de um ordenamento incrível que até me faz desejar ter uma assim para viver o resto dos meus dias.
Esta quinta traz-me à lembrança alguma coisa do passado. Vem à minha memória a única vez em toda a minha vida que eu entrei naquela casa, era eu uma menina talvez de uns onze anos. Foi numa visita que a D. Clotilde Pacheco, mulher do Coronel Pacheco, que vivia na Raposeira, fez à D. Inácia.
Ao longe as casas da Ponte de Pé
Ao longe as casas da Ponte de Pé
Como vos deveis recordar, através de algumas crónicas que escrevi acerca do Padre Domingos, a D. Clotide Pacheco, tinha uma paralisia do lado direito. Aliás as pessoas mais velhas e as da minha geração devem-se lembrar desse pormenor. Por esse motivo para caminhar tinha de se apoiar sempre em alguém com a sua mão esquerda e, nessas alturas eu, a minha irmã Otília ou outras meninas costumávamos acompanhá-la. Mesmo em festas de sociedade, tais como casamentos importantes ou a verbena do S. Miguel! Aí já iam as meninas mais velhinhas. Uma que me lembra de ver numa fotografia, muito bem trajada junto à D. Clotilde era a minha cunhada, a Manuela Carneiro, que sem desprimor das outras da Raposeira, era e ainda é uma rapariga bonita, sempre bem apresentada! E, nós íamos sempre. Fosse da nossa vontade ou não. Era assim antigamente! Ninguém podia dizer não à esposa do senhor Coronel, filha do Padre Domingos! Verdade seja dita, ela até era nossa amiga! O senhor Coronel Pacheco, apesar do seu feitio, muito militar, fez muitos favores na tropa a rapazes de Cabeceiras, que tinham poucas economias. Um deles foi o meu pai, que quando foi para a tropa, já era casado e tinha uma filha que era eu. O Coronel Pacheco, arranjou a mudá-lo para um sítio melhor!
A D. Inacinha da Portela, senhora de virtudes, era uma das que fazia parte do grupo das senhoras colunáveis de Cabeceiras de Basto.
A Ponte de Pé
A Ponte de Pé
Na altura do Natal estas senhoras, lideradas pela D. Clotilde, que no tempo do Ultramar, era uma espécie de madrinha, pediam pelo comércio e repartições públicas donativos para comprar alimentos e cobertores para as famílias dos soldados que estavam nas antigas colónias Portuguesas.
E, isso recorda-me bem! Quando ela ia fazer o peditório, levava um lenço de seda, onde ela colocava o dinheiro que lhe ofereciam. Entrava nas lojas ou nalguns serviços, abria o lencinho em cima do balcão e ninguém “ousava” não dar nada.
Hoje, pensando bem devo dizer que a D. Clotilde era uma digna filha de um líder monárquico! Assim, à sua maneira lá ia fazendo alguma caridade, ao mesmo tempo sem dispor dos seus próprios bens!
Todas estas coisas me invadem a memória ao passar pela Quinta da Portela!
Continuo a andar e passo na ponte, abrando o passo e espreito para o rio, a ver se vejo algum peixe no fundo da água. Diverte-me olhar para aquelas águas corredias e noto que o rio até leva bastante água. Bom sinal! Assim talvez não tenhamos seca tão cedo!
Da antiga ponte vejo o Rio Peio com a Baldosa ao fundo onde eu nasci
Da antiga ponte vejo o Rio Peio com a Baldosa ao fundo onde eu nasci
Chego à rotunda, ao cimo da Ponte de Pé, e começo o retorno para minha casa mas, desço e passo pela capela de S. Lourenço, bastante abandonada, com muita erva ao redor, passo também pelas casas do senhor Magalhães, pai das catequistas, Aninhas e Guidinha, já falecidos, do senhor Moura da Ponte de Pé, do senhor Domingos Oliveira, do senhor António Vilela, armador dos andores da Feira do S. Miguel e que tinha uma funerária, já falecido, do Dr. Vilela, médico do coração, muito conhecido, do Neca Correia, do senhor Américo Bastos, falecido, sempre olhando para tudo com admiração para as alterações sofridas, algumas para melhor, claro! Vê-se até pelas casas de pedra restauradas.
Olho para o relógio e verifico que já caminhei mais ou menos três quartos de hora. Passo na padaria, compro pão para levar para casa e lá continuo o meu caminho cumprimentando aqui e ali desejando que o dia de domingo corra na paz do Senhor!

fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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