Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-06-2007

SECÇÃO: Opinião

DUAS MULHERES DE BASTO E UM IMENSO TERRITÓRIO NA GÉNESE DA CASA DE BRAGANÇA

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BREVE INTRODUÇÃO
No ano de 1442, mais precisamente em 30 de Dezembro, o Conde D. Pedro, Regente do Reino na menoridade do futuro rei D. Afonso V, seu sobrinho e seu genro, numa das muitas tentativas de aplacar as contínuas iras do seu meio-irmão D. Afonso, 8º Conde de Barcelos, bastardo de D. João I, doou-lhe o senhorio de Bragança, com grande parte do seu termo e muitas outras terras dispersas, criando o primeiro ducado do Reino – o ducado de Bragança – autorizando-o a que inclua nesse ducado o condado de Barcelos e todas as outras terras que já possuía.
Estava formada assim a “Casa de Bragança” que se transformou na mais poderosa de Portugal, dominando cerca de uma terça parte do território, onde não entravam as justiças de El-Rei, de tal modo que já em 1478, volvidos 26 anos após a sua criação, tinha “cinquenta vilas, cidades e castelos, com outros lugares fortes, sem que se numerassem quintas, herdades, devezas e campos, com dezoito alcaides mores e quarenta e uma Comendas da Ordem de Cristo.”
Além de Duques de Bragança foram igualmente tutelares dos ducados de Barcelos e de Guimarães, marqueses de Valença e de Vila Viçosa, Condes de Ourém, Arraiolos, Neiva, Faro, Faria e Penafiel de Bastuços, senhores de Monforte, Alegrete, Vila do Conde, Braga, Penela, Alter do Chão e mesmo da Ilha do Corvo.
Substituíam El-Rei na aplicação da justiça nestes seus territórios que haviam dividido em quatro ouvidorias (Vila Viçosa, Ourém, Barcelos e Bragança), com seus juízes de fora e juízes de órfãos e mais de 3500 funcionários, alcaides-mores e quadrilheiros.
No foro eclesiástico a Casa de Bragança possuía as Colegiadas de Santa Maria de Guimarães, Barcelos e de Ourém, apresentava os párocos de 80 igrejas e de 41 Comendas das Ordens de Cristo, o padroado de muitas matrizes e de muitos conventos.
A casa possuía palácios em Vila Viçosa, Guimarães, Chaves e Barcelos, não contando com os de Lisboa que eram três: os palácios de São Cristóvão, do Rossio e o dos Duques, este destruído no terramoto de 1755.
Nos cortejos seguiam logo a seguir ao Rei, com os fâmulos, ostentando o brasão de armas do duque, de “prata, aspa de vermelho, carregada de cinco escudetes com as armas reais”.
Mas que tem Cabeceiras de Basto a ver com a poderosa Casa de Bragança? Tem tudo… ou quase tudo.
Tudo começou com um rico senhor. E ele D. Vasco Gonçalves Barroso, alcaide do castelo de Barroso, possuidor de grandes propriedades nas então chamadas Terras de Barroso, com predomínio na freguesia de Santa Maria de Salto, e ainda nas terras vizinhas de Basto e de Pena. Já com uma certa idade vem a casar-se com Leonor de Alvim, da fidalga família dos Barrosos, filha de Vasco (ou Pedro) de Alvim Barroso, senhor de Pedraça e outros haveres em Cabeceiras, Celorico e em Salto, nomeadamente nos lugares de Reboreda e Pomar da Rainha. Deste casamento não houve descendência e D. Leonor enviuvou ainda mito jovem e ficou senhora de metade dos avultados bens do marido. (A outra metade foi testamentada ao Mosteiro de S. Miguel de Refojos de Basto, que assim se transforma num dos mais ricos da região).
D. Leonor de Alvim é jovem, bonita, senhora de boa fortuna. Não lhe faltam bons partidos. O escolhido vai ser o jovem Nuno Álvares Pereira, pajem de El-Rei D. Fernando, filho de D. Álvaro Pereira, Prior da Ordem do Hospital e neto do Arcebispo de Braga D. Gonçalo Pereira, que tanto se notabilizara na Batalha do Salado. O pai de D. Nuno não gosta do ambiente da corte de D. Leonor Teles e tenta afastar o filho da dissolução reinante na capital e na corte da “Rosa Brava”. Ainda que contrafeito, já que o jovem Nuno não se sentia muito atraído pelo casamento, este realizou-se. Do mesmo nascem três filhos dos quais só vingou uma menina, Beatriz (ou Brites). Esta terá nascido em Pedraça ou na Reboreda.
O rei D. João I ofereceu a Beatriz o casamento com o seu filho D. Duarte, seu sucessor ajuramentado. O Pai, D. Nuno, Condestável do Reino, não aceita a proposta do Rei por razões que mais tarde indicaremos. Sugere, por seu lado, o casamento de D. Beatriz, com o Infante D. Afonso, filho bastardo do rei da “Boa Memória”, desde que o mesmo fosse legitimado e lhes fossem concedidos bens e regalias próprias dum príncipe de sangue real.
O Rei aceita, legitima o filho bastardo e dota-o largamente. D. Nuno, por seu lado, dota a filha com imensos territórios e rendas e cede ao genro o Condado de Barcelos.
Do casamento realizado em 8 de Novembro de 1401 em Vila Nova da Rainha, no Alentejo, nascem três filhos: Afonso, Fernando e Isabel.
D. Beatriz vem a falecer em Dezembro de 1413 e não vai ser duquesa de Bragança. Também o príncipe primogénito D. Afonso não vai herdar o ducado, por ter falecido em 1460, uns meses antes de seu pai, elegido duque de Bragança em 1442. Vai ser o 2º duque de Bragança o filho de D. Beatriz, Fernando, em 1461.
Mas nem tudo são rosas. Quando a Casa de Bragança está no auge, é atingida por um grande revés. Acontece no reinado de D. João II, o Príncipe Perfeito. Este tem, que, desde D. João I, se enche de riqueza e poder. O rei apoia-se no povo. Os grandes senhores começam a conspirar contra o Rei. D. Fernando II, 3º duque de Bragança, bisneto de D. Nuno e de D. Leonor, é sentenciado à pena capital. É degolado em 1484 na praça principal de Évora e a Casa de Bragança foi dissolvida, revertendo todos os seus bens para a Coroa. A família do Duque executado foge para Espanha.
Felizmente para eles o reinado de D. João II não é muito longo. O seu sucessor D. Manuel I, o Venturoso, assina em 18 de Junho de 1496 a “Carta de Reabilitação” da Casa de Bragança e D. Jaime, filho do duque executado, transforma-se no 4º Duque de Bragança. É trineto de D. Nuno e de D. Leonor de Alvim, bisneto de D. Afonso e de D. Beatriz.
Em 1640 o 8º duque de Bragança é proclamado rei de Portugal, com o nome de D. João IV. A dinastia brigantina vai durar até 1910, ano da proclamação da República e do consequente exílio de D. Manuel II. Este é o último rei da Casa de Bragança, mas o sangue dos seus antepassados que fundaram a Casa corre ainda hoje nas veias de D. Duarte Pio e de seus filhos.
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Dediquemos agora algum tempo a estas personagens.
(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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