Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-06-2007

SECÇÃO: Opinião

A CASA RICA DE PARADA

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Aí pelos primeiros anos do último quartel do século XIX, o jovem de Cavez Francisco Bastos emigrou para o Brasil. Não se sabe se trabalhou muito ou pouco tempo nesse país, sabe-se, isso sim, que do Brasil passou para a Bolívia, onde trabalhou e encontrou a mulher da sua vida.
Quando o senhor Bastos entendeu que tinha fortuna suficiente para viver à larga em Portugal, regressou à sua terra na companhia da sua Sara, uma boliviana de coração largo e virtuoso.
O senhor Bastos compra a quinta de Parada que, como se sabe, está situada num pequeno mas amplo vale entre o rio e a serra, de frente para o sol, recebe nos seus braços os ardentes raios solares, que tão bom paladar dão ao seu capitoso vinho verde.
Depois de fazer algumas obras, como o aumento da casa nobre e nas casas dos caseiros, o senhor Bastos passou a dirigir a sua casa rica de Parada, na companhia da sua extremosa esposa, Dona Sarinha, que assim ficou conhecida cá no meio, onde era muito amiga dos pobres.
Entretanto, a Natureza tinha-se encarregado de dar à sua única filha uma fisionomia bonita e atraente. A Belmirinha, quando chegou à idade de casar, desposou Albino Afonso, ele que, em Dezembro de 1916, foi padrinho do falecido Albino Caetano, era filho de António Afonso, de Agunchos, talvez o maior ricaço do norte de Portugal.
Pelo menos como abastadíssimo proprietário, na sua casa as libras eram aos montes, como ficou provado quando mandou construir a levada para trazer a água do rio Beça para a sua quinta de Santo Aleixo, tendo dito aos outros proprietários que, se quisessem regar, teriam que pagar a sua parte, senão a água ficava só para ele e ainda enchia a citada levada de libras de ouro.
E a verdade é que, por volta dos anos 57/60 do século XX, quando o Albininho de Parada, seu neto, mandou reparar a casa de Santo Aleixo, os operários acharam, metido na parede e por baixo do telhado, um pote de libras. O mestre, que também lá andava, era o “cobra morta”, do Arco. Em vez de entregar o achado ao patrão, na segunda-feira seguinte foi vendê-las aos ourives de Cabeceiras. Claro que o Albininho, ao ter conhecimento do caso, tentou reavê-las, e creio que o conseguiu.
Falando da fortuna de António Afonso, diremos que ele, além das grandes quintas que possuía, tinha no Porto uma rua cujos prédios eram todos seus e cremos que alguns também em Lisboa.
Ainda antes do automóvel, deslocava-se ao Porto no seu coche puxado por cavalos, para receber as rendas que o alugador tinha para lhe dar. Os inquilinos admiravam-se do seu trajar, não largava os tamancos, parecia mais um pobre que um rico.
Já com o automóvel em circulação, o seu filho Albino, chegado à maioridade, tirou a carta e no Porto compra um carro. Terá sido um dos primeiros a passar por Cavez, em Agunchos foi o primeiro.
Chegados já de noite, seu pai e os amigos que o aguardavam, ao verem as luzes, gritaram “Ai que ele é uma vaca com uns olhos tão grandes!”. No dia seguinte, toda a gente quis ver o automóvel andar sem ninguém o puxar, já lá vai quase um século.
Como já se disse, o Albininho Afonso casou com a Belmirinha de Parada, por volta de 1912/1913. Desse casamento nasceram quatro filhos: o Frederico, a Sara, que tomou o nome da sua avó, o António e o Albino, este o mais novo, nascido em 1921 ou 1922.
Infelizmente, a Belmirinha não teve a sorte que pretendia. Seu marido faleceu muito novo, apenas com 33 anos, e ela ficou muito nova. E como diz o ditado, “viúva rica, casada fica”.
Compreende-se mal que durante o tempo da viuvez, e já lhe damos dois anos após a morte de seu marido, não lhe tenha aparecido um homem que a fizesse feliz e, é ela que desejosa por dormir em cama dobrada, põe um anúncio no jornal a pedir homem para casamento, um erro que lhe custou toda a sua fortuna e em parte a sua liberdade, como iremos ver.
Apareceu-lhe em Parada um sujeito do Porto, que naturalmente lhe disse que era solteiro e com alguma fortuna. O que ela tinha que fazer era tratar da sua identificação, para saber com quem se ia deitar. Não terá feito assim e com certeza deitou-se com ele logo nessa noite. Afinal, o Costa da Quintã, nome por que ficou conhecido cá na zona, era nem mais nem menos, um pobre pintor da construção civil, natural do Porto, casado e com filhos.
Começou logo por impor a sua autoridade e, querendo viver à vontade, retirou a sua amante da casa de Parada, indo viver os dois na Quintã, Arco de Baúlhe, não sabemos por quanto tempo.
Os filhos eram todos pequenos e ficaram em Parada, tendo sido criados e educados pelos seus avós maternos.
Entretanto, o Costa pensa em ir para o Brasil e fez com que o mais novo, o Albininho, lhe assinasse uns papéis referentes à herança da mãe. Naturalmente, o pequeno não se mostrou à vontade e o Costa tentou matá-lo. Os papéis assinados por uma criança pouco valor podiam ter mas, fosse como fosse, o Costa, quando se apanhou seguro da riqueza da Belmirinha, lá foi com ela para o Brasil, porque o seu desejo era estar longe de Parada.
No Brasil, mais propriamente no Rio de Janeiro, passaram a vida a comer e a passear.
Quando o Costa morreu, a Belmirinha estava pobre e sem dinheiro, e os filhos que lá tinha também não eram ricos, vivendo provavelmente do seu emprego. Foram os morgados de Parada, seus filhos, que passaram a mandar dinheiro à sua mãe, e ela sempre sua mãe, para que tivesse um resto de vida confortável.
A Belmirinha não mais voltaria a Portugal.
Da sua filha, Dona Sarinha, nada dizemos, porque possivelmente desde que casou viveu sempre no Porto, apenas se deslocava temporariamente a Parada, para conviver com seus irmãos. Falemos deles.
Do mais velho, o senhor Afonso, diremos que muito jovem se apaixonou pelo automóvel e o seu forte era a velocidade. Mercê desse espírito, andava sempre “espetado”. Em 1940, esbarra-se na Malga, contra o muro do caminho que dá para Vila Franca. Nós vimos esse desastre e o senhor Afonso não se feriu.
Também resolveu casar muito novo e, em 1938, construiu a sua casa ao cimo da quinta de Parada, para viver independente de seus irmãos e avô, só na companhia da sua esposa, que lhe daria três filhas. Dona Virgínia era natural de Ribeira de Pena e professora do ensino básico. Em 1967/68 era professora em Cavez.
No tempo do minério, o senhor Afonso montou em Parada uma separadora, que constava de uma grande máquina para separar o volfrâmio dos outros ingredientes, levando-o dali já limpo para o embarque.
Segundo se sabia, o senhor Afonso terá dado cabo de uma boa parte da sua herança só com os automóveis. Quando morreu, com cerca de 70 anos, não era rico mas também não era pobre, tinha o suficiente para viver, assim Deus lhe desse mais uns anos de vida.
Mais comedido era o Antoninho, que tinha o nome do seu avô paterno, António Afonso.

Por: Francisco Pereira (Benfica)

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