Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 15-06-2007

SECÇÃO: Opinião

Narrativa
PEDAÇOS DE VIDA

Meteu a mão ao bolso, sacou do maço das notas, e retirou cinco notas de cem que colocou na mão do Senhor Paulo, dizendo:
- Aqui está o sinal, eles levam as vacas, verificam se servem durante esta semana, e na próxima segunda-feira estarão aqui para pagar a parte que falta ou, caso surja algum defeito grave, trazê-las-ão de volta no mesmo estado em que as vão levar hoje. Por agora está o negócio fechado, vamos ali à loja do Alfredo Fidalgo beber umas canecas para o selar.
O Senhor Paulo ficou sem palavras, com as cinco notas de cem nas mãos e, ao fim de quatro ou cinco minutos, reagiu, dizendo:
- Raio de Torrinheiras que já me apanhou outra vez!
Dirigiram-se os quatro para a taberna do Senhor Alfredo Fidalgo, que era uma daquele conjunto de casas de madeira que havia ao longo do lado sul do campo da feira, e mandaram vir cinco “bijous” e duas canecas de vinho. Neste tipo de estabelecimentos o vinho era, por norma, servido em canecas de pó de pedra, que é uma espécie de barro vidrado, onde o vinho verde deixa uma marca de vermelho ao longo do bordo da caneca, sendo este um método de avaliar da verdadeira qualidade do bom verde carrascão. As vacas tinham entretanto sido tocadas para a frente da taberna, ficando o rapaz a segurá-las pela soga.
O Senhor Paulo serviu o rapaz em primeiro lugar trazendo-lhe um dos cinco “bijous” e uma das canecas, ainda cheia, para que ele desse um trago em primeiro lugar, coisas de democracia e humanismo. De seguida, voltou para junto dos outros três, com a caneca na mão, depois de o rapaz ter bebido dois bons goles do verde carrascão. O Torrinheiras deu uma dentada no seu “papo seco”, bebeu um trago da outra caneca, que ainda estava cheia em cima do balcão tosco, e despediu-se:
- Meus amigos, vou à vida, penso que fizeram todos um bom negócio. Agora o que espero é que as vacas sirvam de verdade e que, na próxima segunda-feira, estejamos aqui todos para cumprir o pagamento integral da compra.
O Senhor Paulo levou novamente uma das canecas de pó de pedra ao rapaz, que segurava as vacas pela soga, para que ele bebesse um novo trago.
O Senhor Malvino, ao aperceber-se de que o Torrinheiras se despedira sem que lhe tivesse entregue o dinheiro do sinal, que há uns minutos atrás aquele tinha adiantado, quando interveio no negócio, deu meia dúzia de passos acelerados, no encalço do amigo, dizendo:
- Espere, espere Senhor Dominguinhos. Então esquecia-se do valor do sinal das vacas?
O Torrinheiras, alargando ainda mais as passadas, no sentido do fundo do campo da feira, onde existiam duas barracas, uma era a de um sapateiro e a outra era a do “Mudo” barbeiro, respondeu:
- Vou ali ver se ainda faço a barba porque amanhã quero apanhar a carreira que passa em Roças, vinda de Vieira do Minho, às sete da manhã, para ir ao Porto ver como é que está instalada a minha Isaura. Na próxima segunda-feira, quando vierdes pagar as vacas ao homem, acertamos também as nossas contas.
Dizendo isto, o Torrinheiras alargou ainda mais o passo, na direcção da barraca do “Mudo” barbeiro.
A Isaura, conhecida em Aboim por Isaurinha, era a filha mais velha do Torrinheiras, tinha mais três irmãos, dois rapazes que eram os do meio, em termos de idades, e uma menina que era a mais nova de todos. A Isaurinha, que fizera dezoito anos, tinha completado o sétimo ano do liceu, num colégio só para meninas, em Braga. Tinha tirado a nota final de dezassete valores e acabara de conseguir a matrícula na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. As aulas na faculdade tinham começado em princípios de Outubro, e a Isaurinha ficara hospedada em casa de uns parentes, pela parte da mãe, que eram comerciantes do ramo de tecidos e miudezas, com estabelecimento e residência na Rua das Flores, na cidade do Porto. A Faculdade de Medicina ficava ali a dois passos, nas proximidades do Hospital Geral de Santo António.
Eram cerca das quatro horas de tarde, o mês era de Novembro, dentro de duas horas seria noite escura. Havia um factor positivo, que era estar tempo de sol, pelo que a noite não cairia tão de repente. O trajecto entre o Campo do Sêco e a Eirinha demorava cerca de hora e meia, mas era para quem se deslocasse em pé livre e pudesse utilizar este ou aquele atalho mais a direito. Com uma junta de gado, pela soga, tal distância demora, no mínimo, duas horas.
Partiram então, de imediato, rumo à Eirinha. O Manuel Carlos à frente, chamando as vacas pela soga e o Senhor Malvino atrás para as tocar. Os animais iam em sentido diferente daquele a que estavam habituados, pelo que ofereciam especial resistência no andamento, sendo necessário umas boas aguilhoadas de vez em quando. Chegaram à Eirinha quando já escurecia. O Senhor Malvino despediu-se de imediato, observando:
- Olha, vou-me embora antes que seja verdadeiramente escuro, não vá dar para aí algum trambolhão e partir uma perna. Não te esqueças de pensar as vacas, e afaga-as um pouco, para que elas se habituem com normalidade à nova morada, até porque estão prenhas e é preciso ter muito cuidado com estas mudanças de ambiente. Deves notar, aliás não deve ser novidade para ti, que os animais são como os cristãos, gostam de ser bem tratados.
- Nah! Não me esqueço de modo nenhum. É o que vou já fazer, deitar uma boa gabela daquele feno que temos ali naquela meda a cada uma delas. Mas, Senhor Malvino, não espera para beber uma pinga? A meia pipa ainda tem algum, embora bastante pouco, diga-se em abono da verdade.

Por: Torcato Santiago

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