Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 31-05-2007

SECÇÃO: A nossa gente

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Engª Susana Raquel Ferreira Andrade
Uma bombeira com chama

Nomeada há pouco o “bombeiro do ano” pela corporação dos Voluntários Cabeceirenses a que pertence, é licenciada em Engenharia Civil pelo Instituto Politécnico de Bragança, tem 26 anos e manifesta um grande desejo de aprender, aprender sempre mais.
Bombeira desde há 7 anos, dedica a sua acção à área operacional no combate aos fogos e à formação e qualificação, não só nas escolas frequentadas pelos seus pares, mas também nos cursos específicos que são ministrados ao longo do ano.
Recentemente colocada numa empresa de construção civil de dimensão internacional, onde faz um estágio profissional da sua especialidade, dedica mesmo assim, as folgas, as noites e os fins de semana aos bombeiros numa manifestação de inequívoca paixão pelo voluntariado.
É esta bombeira cabeceirense, com uma chama viva e profunda convicção dos seus desígnios que hoje entrevistamos para a rubrica “A Nossa Gente”.

Trabalhadora-estudante

Ecos de Basto – Jovem desinibida e ambiciosa quanto baste, explique como conseguiu tirar um curso, trabalhar e ainda ter tempo para doar aos outros?
Susana Andrade – Comecei a vida escolar como todos os outros jovens aqui em Cabeceiras de Basto e como tinha algum jeito para as artes inscrevi-me na Escola Aurélio de Sousa, no Porto, com a finalidade de seguir arquitectura. Entretanto, desisti e fui para a Escola Secundária de Fafe, no grupo da área das artes. Como éramos poucos alunos, lá tive que mudar para a área de científico-naturais. Por razões várias abandonei a meio do ano. Aí decidi começar a trabalhar num restaurante da nossa vila, matriculando-me no ano seguinte no Externato de S. Miguel de Refojos mantendo-me todavia como servente de mesa até completar o 12º ano. Conseguia conciliar os estudos com o trabalho que redundou numa experiência extraordinária. Segui depois para Bragança para frequentar o Instituto Politécnico no curso de Engenharia. No ano 2000 alistei-me nos Bombeiros Voluntários Cabeceirenses onde o meu pai e dois irmãos já se encontravam.
E.B. – Que razões a levaram a ser bombeira?
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S.A. – O meu pai e dois irmãos já eram bombeiros há algum tempo e eu admirava a sua postura e o seu espírito altruísta de se disponibilizarem para ajudar o seu semelhante, principalmente em situações de aflição e de risco. Em conversas que ouvia em casa e no contacto permanente com essa realidade fui ganhando um certo interesse e uma motivação especial que criou em mim um bichinho ao qual não resisti. Logo que pude inscrevi-me e alistei-me na corporação no momento em que foram criadas as condições para a participação feminina, pois que antigamente só os homens é que podiam ser bombeiros.

O voluntariado reforça a cidadania

E.B.- Que significado tem para si o voluntariado?
S.A. – Ser voluntário em qualquer coisa, em qualquer instituição ou associação é um algo se liga com a cidadania, com o valor humanista da solidariedade que todos deveríamos cultivar e praticar. Pertencer a uma organização de solidariedade, como é o caso dos bombeiros é extremamente útil para a nossa vida. É não só gratificante, como é, também, uma escola de virtudes e um meio de nos sentirmos úteis à sociedade.
E.B. – Qual é o sentimento que fica após a prestação de uma tarefa de socorro, de ajudar a salvar uma vítima?
S.A. – Naturalmente que nunca fazemos um qualquer trabalho de socorro para receber um louvor ou um agradecimento. O que nos leva a tudo fazer para ajudar os outros e, muitas vezes, com grandes sacrifícios, é o sentido da responsabilidade e da doação de serviço ao nosso semelhante. Quando tudo corre bem e conseguimos, com êxito, salvar vidas e proteger os seus bens sentimo-nos mais felizes e orgulhosos por cumprirmos a nossa missão. É reconfortante, na verdade, que alguém que nós ajudamos vir, mais tarde, dizer-nos obrigado por me ter auxiliado nesta ou naquela ocorrência, neste ou naquele acidente, ou sinistro em que estive envolvido. Não há nada neste mundo que pague este tipo de reconhecimento humano.

Nos B. V. Cabeceirenses há grande espírito de grupo

E.B. – Numa associação como é o caso dos Bombeiros Cabeceirenses, com uma centena de elementos, existe forte espírito de grupo?
S.A. – Existe, como se torna necessário, um grande sentimento de grupo. Nos Bombeiros Cabeceirenses há um grande companheirismo e uma amizade enraizada entre todos os elementos que compõe o Corpo Activo. Creio mesmo que neste quartel vive uma autêntica família. De tal modo que eu, e muitos de nós que aqui somos bombeiros, quando regressamos dos nossos empregos e das ausências de Cabeceiras, quando aqui chegamos o primeiro destino é o Quartel ficando a nossa casa para segundo plano.
E.B. – Atendendo à evolução dos últimos anos e ainda a novas exigências reclamadas hoje aos bombeiros, que tem feito os Voluntários Cabeceirenses para dar resposta aos desafios que lhes colocam?
S.A. – Os bombeiros da actualidade já não são os mesmos de há dez ou vinte anos. Agora a formação e a preparação que lhes são exigidos evoluíram muito e todos os bombeiros são preparados para enfrentarem as situações mais diversas quer no campo de socorro a acidentes e doenças, quer no que concerne a outros sinistros, incêndios urbanos e fogos florestais. Existem, como se sabe, grupos especializados em áreas diversificadas preparadas e apetrechadas para enfrentarem as situações mesmo as mais difíceis. Pertenço à área da formação interna e sei bem da aptidão dos nossos bombeiros.

Jovens aderem aos bombeiros

E.B. – Nos últimos tempos os Voluntários Cabeceirenses têm registado a adesão de um número de jovens assinalável. A que se deve tal interesse?
S.A. – Tem havido, de facto, uma inusitada procura de jovens que pretendem entrar nas fileiras da Corporação. Isso deve-se, em boa parte, pela campanha que temos vindo a fazer junto das escolas e de outras instituições apelando aos jovens para visitarem o Quartel e contactar com a acção quotidiana dos bombeiros. Através dessas visitas, muitos desses jovens entusiasmam-se e cultivam o gosto de ser bombeiro aderindo, de seguida, a esta nobre causa. Por outro lado, o nosso Quartel tem, desde há pouco, uma nova sala de convívio e bar e um Espaço Internet que atrai a juventude.
E.B. – O que sentiu ao ser nomeada o “bombeiro do ano”?
S.A. – Recebi a distinção com todo o gosto e enorme satisfação, mas acho que, sem falsas modéstias havia outros camaradas melhor posicionados e com melhor prestação do que eu. Mas não há problemas porque com eles eu partilharei esta honra que me foi conferida pela Corporação dos B.V. Cabeceirenses a quem muito devo.

Corporação bem preparada

E.B. – Porque dedica grande parte do seu tempo à formação técnica dos bombeiros?
S.A. – Apesar de sermos voluntários considero que os bombeiros devem estar bem preparados para realizar as suas tarefas. Tenho, por isso, para mim que devemos estar sempre a aprender e, como diz o povo, “o saber não ocupa lugar”. Devemos, assim, fazer as coisas com “profissionalismo” e rigor. Acabei há poucos dias um curso, com mais quatro colegas, destinado a aprender novas técnicas de combate a incêndios com material sapador. A partir desta aprendizagem já estou a preparar acções no terreno com os bombeiros mais novos para lhes dar a formação de que precisam. Eu preocupo-me muito com a preparação dos nossos bombeiros.

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